Uma bela surpresa me aguardava hoje na Escola de Comunicação: um exemplar de Interações nas Artes Visuais, compilação com mais de 500 páginas dos artigos e comunicações apresentadas durante o 16º Encontro dos Alunos do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Escola de Belas Artes, UFRJ, minha “casa”. Na página 31, bem no começo, meu artigo Visões do Futuro do Pretérito: A ficção científica nos quadrinhos brasileiros do início ao fim do séc. 20, sobre o qual escreveu a professora Maria Cristina Volpi, organizadora da publicação lançada recentemente pela Editora UFRJ:
Octavio Aragão aborda a história da ilustração em revistas no Rio de Janeiro, tendo como tema a ficção científica. A partir de estudo de imagens de importantes ilustradores, o autor pretende apontar questões como a identidade nacional e a disseminação do que seria tecnológico em cem anos.
Além do meu texto, outras incursões semelhantes desenvolvidas por mais de 40 autores valem o livro. Destaco Imaginação, escrita e arte: O simbolismo de Mercúrio na série de quadrinhos “Promethea”, da autoria de Carlos Manoel de Hollanda Cavalcanti, e O expressionismo do cinema alemão na produção gráfica de Suehiro Maruo, de Marcia Casturino.
Agradeço à professora e à equipe do PPGAV pelo convite e a oportunidade de apresentar esse trabalho. Em breve uma versão atualizada estará disponível em algum lugar da rede, aguardem e verão.
terça-feira, 22 de junho de 2010
domingo, 20 de junho de 2010
O Menino Que Gosta de Tudo, de Pedro Henrique Sampaio Aragão
Esta pequena HQ ecológica é a tentativa inaugural de meu filho Pedro, de seis anos, nos meandros da arte sequencial. Espero que ele não pare e faça mais e mais e mais. O texto e os desenhos são dele. Eu não tenho nada a ver com a criação ou o processo de desenvolvimento narrativo.
E sim, eu sou coruja.
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Kitsch as kitsch can
Em 1987, como toda minha geração, creio, eu era um fã inconteste do trabalho de Boris Vallejo e do recém-falecido Frank Frazetta, ilustradores realistas que costumavam povoar as capas da revista Metal Hurlant e a imaginação de todo pós-púbere de vinte e poucos anos com ninfas semi-nuas, fadas sem vergonha e bárbaros hipertrofiados. Pra mim aquilo era o supra sumo, uma supremacia artística que julgava inatingível. Se por lado eu era filho de pintor expressionista, por outro era fascinado por histórias em quadrinhos e minha cabeça era uma confusão de Picasso com Jack Kirby, Pollock com Hergé e Miró com Walt Disney. Para mim, tudo isso era bom, mas como sempre acompanhei o processo de criação de meu pai, conhecia os caminhos do abstracionismo e um pouco do surrealismo. Porém, o coronel Aragão era péssimo em desenho naturalista, e como seu trabalho passava longe disso, a representação do real me parecia uma realização nas raias do impossível, um feitiço técnico. Jamais havia visto alguém produzir algo como as ilustrações de Vallejo ou Frazetta e não tinha a menor idéia de como se fazia aquilo.
Qual não foi minha surpresa quando, ao entrar na Escola de Belas Artes, descobri que o que eu julgava o supra sumo era considerado lixo pela maioria das pessoas de bom gosto.
Passei anos de minha vida sem entender por que diabos obras que eram claramente dificílimas de ser produzidas e certamente exigiam conhecimentos técnicos e anatômicos acima do normal eram motivo de esgares de nojo. Meu espanto cresceu quando percebi que algumas de minhas outras áreas de interesse - como rock pesado e literatura de ficção científica - também eram considerados "lixo da subcultura".
Hoje eu acho que entendi.
Acho.
A leitura de alguns livros foi fundamental para me esclarecer certos pontos: o principal deles foi o já óbvio Apocalípticos e Integrados, de Umberto Eco, com sua análise sobre a estética do mau gosto, mas obras de Walter Benjamin, Edgar Morin e Teodor Adorno ajudaram bastante a me fazer entender minhas preferências pessoais e por que, geralmente, não eram bem vistas pelo meio acadêmico.
Para resumir a ópera-rock, podemos dizer que obra de mau gosto é aquela que tem um ou mais elementos destoantes, seja por exagero, seja por intenção de parecer algo que não é. Uma mulher obesa com um biquini minúsculo é de mau gosto porque está usando uma peça de roupa que não é para seu manequim. Da mesma forma, em termos de rock pesado, a técnica perfeita e "classicosa" de um guitarrista como Yingwie Malmsteem é fora de contexto dentro de uma estrutura melódica pobre. As imagens realistas de Vallejo e Frazetta entram nesse rol porque - assim como a guitarra de Malmsteem - são tecnicamente perfeitas, mas embalam um produto geralmente de escopo reduzido, revistas para consumo imediato, de periodicidade mensal e que não visam a perenidade. Seria o mesmo se tivéssemos Velásquez pintando, mensalmente, a capa da revista Caras (ok, exagerei, mas serve como exemplo).
O mesmo acontece, muitas e muitas vezes, com a Ficção Científica literária. Parece que ela quer ser o que não lhe cabe. É cheia de boas intenções, boas idéias, mas ainda falta - citando meu amigo Osmarco Valladão - aquele grande romance de FC que, ao ser colocado lado a lado com A Montanha Mágica, de Thomas Mann, ou Crime e Castigo, de Dostoiévski, não faça feio.
Candidatos ao posto não faltam. Duna, Hyperion, O Homem do Castelo Alto, Terrarium, Um Estranho Em Terra Estranha. Todos esses e muitos outros anseiam por ser considerados merecedores desse lugar de honra, mas apenas dois conseguiram ultrapassar a barreira da "arte menor": Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e 1984, de George Orwell (A Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, também entraria nesse time, mas talvez mais pela versão cinematográfica de Stanley Kubrick). Na verdade, ultrapassaram tanto que, hoje em dia, não são considerados obras de Ficção Científica pela inteligentsia, mas fábulas caucionárias.
Talvez o motivo da perenidade das obras de Huxley e Orwell, o que as faz ser levadas a sério pelos acadêmicos, seja o fato de ambos não colocarem rótulos sobre o que estavam escrevendo. No momento em que se utiliza um termo cunhado para os mass media, automaticamente muitas portas se fecham. Dizem que Salman Rushdie recusou um prêmio de “melhor romance de Ficção Científica do Ano” das mãos de Arthur Clarke porque seu agente afirmou que, caso aceitasse e isso viesse a público, jamais conseguiria vender outra obra sua fora do nicho da Ficção Científica. No mundo dos quadrinhos, Will Eisner tentou driblar esses preconceitos cunhando uma nova nomenclatura para seu trabalho Um Contrato com Deus. Chamou-o "novela gráfica" e, com isso, conseguiu uma aceitação em editoras e livrarias que antes lhe barrariam a entrada.
Será que se o livro Terrárium, dos portugueses João Barreiros e Luis Filipe Silva, considerado o maior romance de ficção científica já escrito em nossa língua, deixasse de lado a alcunha de FC e se assumisse como "obra literária" pura e simples não seria aclamado internacionalmente? E se deixarmos o "nome" FC de lado, reservado para as ditas Space Operas, e tomarmos como exemplo Bráulio Tavares, com sua Máquina Voadora, que procurou seguir essa idéia? A indicação de Síndrome de Quimera, de Max Mallmann, ao Prêmio Jabuti de 2001 também parece apontar para um caminho sem rótulos para nossos escritores "fantásticos".
Tudo isso porque o rótulo, a marca, a inclusão em um gênero específico só parece fazer uma coisa em favor da Ficção Científica nacional: relegá-la ao gueto da subcultura. E nada mais cafona, kitsch, do que subcultura que tenta fingir que não o é.
Ah, e antes que me perguntem: meus contos são ficção científica, sim. E ficção pop também. E ainda pulp aventuresco despretensioso. Mas eu nunca pretendi fugir do kitsch, muito pelo contrário. Diversão é solução, sim. Pra mim.
Qual não foi minha surpresa quando, ao entrar na Escola de Belas Artes, descobri que o que eu julgava o supra sumo era considerado lixo pela maioria das pessoas de bom gosto.
Passei anos de minha vida sem entender por que diabos obras que eram claramente dificílimas de ser produzidas e certamente exigiam conhecimentos técnicos e anatômicos acima do normal eram motivo de esgares de nojo. Meu espanto cresceu quando percebi que algumas de minhas outras áreas de interesse - como rock pesado e literatura de ficção científica - também eram considerados "lixo da subcultura".
Hoje eu acho que entendi.
Acho.
A leitura de alguns livros foi fundamental para me esclarecer certos pontos: o principal deles foi o já óbvio Apocalípticos e Integrados, de Umberto Eco, com sua análise sobre a estética do mau gosto, mas obras de Walter Benjamin, Edgar Morin e Teodor Adorno ajudaram bastante a me fazer entender minhas preferências pessoais e por que, geralmente, não eram bem vistas pelo meio acadêmico.
Para resumir a ópera-rock, podemos dizer que obra de mau gosto é aquela que tem um ou mais elementos destoantes, seja por exagero, seja por intenção de parecer algo que não é. Uma mulher obesa com um biquini minúsculo é de mau gosto porque está usando uma peça de roupa que não é para seu manequim. Da mesma forma, em termos de rock pesado, a técnica perfeita e "classicosa" de um guitarrista como Yingwie Malmsteem é fora de contexto dentro de uma estrutura melódica pobre. As imagens realistas de Vallejo e Frazetta entram nesse rol porque - assim como a guitarra de Malmsteem - são tecnicamente perfeitas, mas embalam um produto geralmente de escopo reduzido, revistas para consumo imediato, de periodicidade mensal e que não visam a perenidade. Seria o mesmo se tivéssemos Velásquez pintando, mensalmente, a capa da revista Caras (ok, exagerei, mas serve como exemplo).
O mesmo acontece, muitas e muitas vezes, com a Ficção Científica literária. Parece que ela quer ser o que não lhe cabe. É cheia de boas intenções, boas idéias, mas ainda falta - citando meu amigo Osmarco Valladão - aquele grande romance de FC que, ao ser colocado lado a lado com A Montanha Mágica, de Thomas Mann, ou Crime e Castigo, de Dostoiévski, não faça feio.
Candidatos ao posto não faltam. Duna, Hyperion, O Homem do Castelo Alto, Terrarium, Um Estranho Em Terra Estranha. Todos esses e muitos outros anseiam por ser considerados merecedores desse lugar de honra, mas apenas dois conseguiram ultrapassar a barreira da "arte menor": Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e 1984, de George Orwell (A Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, também entraria nesse time, mas talvez mais pela versão cinematográfica de Stanley Kubrick). Na verdade, ultrapassaram tanto que, hoje em dia, não são considerados obras de Ficção Científica pela inteligentsia, mas fábulas caucionárias.
Talvez o motivo da perenidade das obras de Huxley e Orwell, o que as faz ser levadas a sério pelos acadêmicos, seja o fato de ambos não colocarem rótulos sobre o que estavam escrevendo. No momento em que se utiliza um termo cunhado para os mass media, automaticamente muitas portas se fecham. Dizem que Salman Rushdie recusou um prêmio de “melhor romance de Ficção Científica do Ano” das mãos de Arthur Clarke porque seu agente afirmou que, caso aceitasse e isso viesse a público, jamais conseguiria vender outra obra sua fora do nicho da Ficção Científica. No mundo dos quadrinhos, Will Eisner tentou driblar esses preconceitos cunhando uma nova nomenclatura para seu trabalho Um Contrato com Deus. Chamou-o "novela gráfica" e, com isso, conseguiu uma aceitação em editoras e livrarias que antes lhe barrariam a entrada.
Será que se o livro Terrárium, dos portugueses João Barreiros e Luis Filipe Silva, considerado o maior romance de ficção científica já escrito em nossa língua, deixasse de lado a alcunha de FC e se assumisse como "obra literária" pura e simples não seria aclamado internacionalmente? E se deixarmos o "nome" FC de lado, reservado para as ditas Space Operas, e tomarmos como exemplo Bráulio Tavares, com sua Máquina Voadora, que procurou seguir essa idéia? A indicação de Síndrome de Quimera, de Max Mallmann, ao Prêmio Jabuti de 2001 também parece apontar para um caminho sem rótulos para nossos escritores "fantásticos".Tudo isso porque o rótulo, a marca, a inclusão em um gênero específico só parece fazer uma coisa em favor da Ficção Científica nacional: relegá-la ao gueto da subcultura. E nada mais cafona, kitsch, do que subcultura que tenta fingir que não o é.
Ah, e antes que me perguntem: meus contos são ficção científica, sim. E ficção pop também. E ainda pulp aventuresco despretensioso. Mas eu nunca pretendi fugir do kitsch, muito pelo contrário. Diversão é solução, sim. Pra mim.
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