terça-feira, 17 de agosto de 2010

Itaú Cultural - Invisibilidades III: programação

E o projeto Invisibilidades chega à sua terceira edição, novamente com a curadoria do omniman Fábio Fernandes , apresentando um painel diversificado e multimidiático do que se faz em termos de narativa fantástica no Brasil. Todas as mesas são imperdíveis e eu mediarei o bate-bola entre as feras quadrinísticas que estouraram em terras gringas Rafael Grampá & Daniel Pelizzari, parceiros no vindouro Furry Water, que sairá pela Dark Horse Comics. Mas também será um prazer reencontrar velhos amigos como Alexandre Mandarino, Adriana Amaral, Jacques Barcia e Nelson de Oliveira, além, claro, do próprio Fábio.


Fiquem com a programação completa, aqui embaixo:


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Sábado 21/08

15h30 mesa 1 Fora do Eixo – a Produção de Ficção e Crítica Literária no Brasil que Você não Conhece
com Alice Feldens, Arnaldo Mont’Alvão e Quelciane Mattos – mediação Edgar Nolasco
Os participantes irão discutir a produção de obras de ficção científica fora do eixo Rio-São Paulo, com ênfase para o projeto e-ficciones. Criado pelos professores Edgar Cézar Nolasco e Armando Montalvão, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, o e-ficciones visa fomentar a produção literária e crítica de ficção científica.

17h30 mesa 2 Quadrinhos Brasileiros: a Experiência no Exterior
com Daniel Pellizzari e Rafael Grampá - mediação Octavio Aragão
Dois jovens e respeitados artistas brasileiros compartilham suas experiências na área dos quadrinhos. O objetivo é debater as possibilidades de criação de HQs dentro do gênero da ficção científica, no Brasil e no exterior.
Encerramento do dia

19h30 palestra e apresentação com Walmor Corrêa

domingo 22/08


17h mesa 1 Ficção Científica e Estudos Culturais: Uma História Sem Fim
com Adriana Amaral e Chris Busato Smith
mediação Fábio Fernandes
Uma mesa para discutir Estudos Culturais no universo da ficção científica,lançando ao gênero um olhar mais acadêmico, convidando pesquisadores e jornalistas para um panorama abrangente dos desdobramentos dessa cultura, do fenômeno relativamente recente da subcultura steampunk até a obra do escritor britânico underground J.G.Ballard)

18h30 mesa 2 New Weird Fiction – Um Novo Estranhamento Literário
com Alexandre Mandarino, Nelson de Oliveira e Richard Diegues
mediação Jacques Barcia
Os componentes da mesa opinarão sobre o presente e o futuro deste subgênero da literatura fantástica. Surgido na década de 1990, somente nos últimos dois anos a New Weird Fiction começou a ganhar atenção no Brasil, através de ações táticas de jovens autores, pequenos editores e também escritores premiados, como Nelson de Oliveira.

Encerramento do dia:
20h performance com os VJs Wandeclayt e Lady A – exibição de remixes de clássicos da ficção científica ao som de música eletrônica.

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Sobre os participantes

Adriana Amaral é professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da UNISINOS, Universidade do Vale do Rio dos Sinos e pesquisadora do CNPq. Doutora em comunicação social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), escreveu, entre outros, Visões Perigosas: Uma Arque-Genealogia do Cyberpunk.

Alexandre Mandarino é autor de contos de fantasia e fan fiction. Foi jornalista por 15 anos, nas áreas de cultura e tecnologia do Jornal do Brasil, dos sites Conecta e Hypervoid. Traduziu o livro The Invisibles, de Grant Morrison. Mantém, desde 1998, o projeto de música eletrônica Chip Totec.

Alice Feldens é jornalista. Mestre em estudos de linguagens pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) – onde estudou a ficção científica na literatura brasileira –, participa do Núcleo de Estudos Culturais Comparados (NECC) da UFMS.

Arnaldo Mont’Alvão é mestre em estudos de linguagens pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). É membro do NECC-UFMS, onde coordena o e-ficciones. Publicou, em livros e revistas, artigos sobre a crítica brasileira de ficção científica.

Cristiane Busato Smith é professora de literaturas de língua inglesa na Universidade Tuiuti do Paraná e do mestrado em teoria literária da Uniandrade. Editora da Revista Scripta Alumni, atualmente pesquisa as representações da alteridade na literatura e na pintura.

Daniel Pellizzari é escritor e tradutor. Um dos criadores do selo Livros do Mal, publicou o romance Dedo Negro com Unha. Traduziu os autores David Foster Wallace, William Burroughs, David Mitchell e Hunter S. Thompson. É coautor, com Rafael Grampá, de Furry Water, série de HQs a ser publicada, ainda em 2010, pela Dark Horse Comics.

Edgar Cézar Nolasco é professor nos cursos de graduação e de mestrado da UFMS. Membro do Conselho Editorial da Editora da UFMS e editor-presidente dos Cadernos de Estudos Culturais, coordena o NECC-UFMS.

Fábio Fernandes é professor dos cursos Jogos Digitais e Mídias Digitais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Escreveu A Construção do Imaginário Cyber e Os Dias da Peste. Traduziu, entre outros, Laranja Mecânica e Neuromancer. É o responsável editorial, na América Latina, pela coletânea Best American Fantasy.

Jacques Barcia é jornalista e escritor. Edita a revista digital Kalíopes, voltada para a fantasia pós-moderna, e coedita a revista virtual Terra Incognita, com foco em ficção científica. É coautor do blog Post-Weird Thoughts.

Nelson de Oliveira é escritor. Doutor em letras pela Universidade de São Paulo (USP), coordena o curso de pós-graduação lato sensu Prática de Criação Literária do Espaço Cultural Terracota. É autor de, entre outros, A maldição do Macho, Ódio Sustenido e Naquela Época Tínhamos um Gato, pelo qual recebeu o Prêmio Casa de las Américas.

Octavio Aragão é professor, designer gráfico e ilustrador. Doutor em artes visuais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor adjunto da Escola de Comunicação da UFRJ (ECO/UFRJ), escreveu o livro A Mão que Cria. Também editou a antologia de contos Intempol e coescreveu Imaginário Brasileiro e Zonas Periféricas.

Quelciane Marucci é pesquisadora de ficção científica, estudos culturais e literatura digital. Mestranda em Teoria Literária e Estudos Comparados em Literatura e Memória Cultural na UFMS, graduou-se em letras pela Universidade para o Desenvolvimento do Estado e Região do Pantanal.

Rafael Grampá é quadrinista. Ganhador do Eisner Awards 2008 pela HQ 5, da qual é coautor, e de três prêmios HQ MIX, nas categorias Melhor Blog de Artista Gráfico, Melhor Desenhista Nacional e Melhor Edição Especial Nacional, as duas últimas pela graphic novel Mesmo Delivery.

Richard Diegues é escritor e editor. Autor de Magia – Tomo I, Sob a Luz do Abajur, Tempos de AlgóriA e Cyber Brasiliana, é integrante da Tarja Editorial, voltada à literatura fantástica e à ficção científica.

Walmor Corrêa é artista plástico. Possui trabalhos apresentados na XXVI Bienal de São Paulo, no Museu de Belas Artes na Cidade do Cabo (África do Sul) e no Instituto Goethe (Porto Alegre), entre outras exposições. Realiza trabalhos relacionados a arte e ciência, explorando o cruzamento entre texto e imagem, razão e fantasia.

Wandeclayt M. é técnico em aviônica e artista multimídia. Fundou em 1997, em parceria com membros em Nova York e em Madri, a banda eletrônica Aire’n Terre, pioneira no uso da internet como ambiente para composição. Desenvolve trabalhos de videoarte e fotografia, retratando temáticas fetichistas e o imaginário cyberpunk.

Invisibilidades III
Sala Itaú Cultural (247 lugares) • ingresso distribuído com meia hora de antecedência
Não recomendado a menores de 12 anos

Itaú Cultural | Avenida Paulista 149 - Paraíso - São Paulo - SP (próximo à estação Brigadeiro do metrô) • Informações 11 2168 1777 | atendimento@itaucultural.org.br

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Arte sob suspeita

Charles Manson nos interpretou como ‘os quatro cavaleiros do Apocalipse’. Ainda não entendo qual foi a jogada.
Paul McCartney

Ela diz, ‘Apareça!’ ela diz, ‘Mate!’. Porque me culpar? Eu não escrevi a música. Eu não fui a pessoa que projetou isso na consciência das pessoas.
Charles Manson 


Coluna originariamente publicada em AcheiUSA.

Afinal, a arte incita à violência, ou, como parte da vida, deve ser retratada sem pruridos? Pergunto porque não acredito que exista alguém com opinião pétrea a esse respeito. Às vezes, achamos que a arte reflete o mundo, outras vezes desligamos a TV quando acreditamos que uma cena mais assustadora ameaça a inocência das crianças.

E quando a arte é o bode expiatório perfeito para genocidas e assassinos em geral, o que fazer? Tentar estabelecer parâmetros de controle de danos, banindo cenas que poderiam incitar ao comportamento aberrante? Revisaríamos os clássicos para eliminar ou minimizar cenas mais pesadas? O que seria de Hamlet sem o final catártico onde todos morrem (com uma exceção, afinal alguém tem de contar a história)? O que dizer de versões edulcoradas por Hollywood de clássicos como Guerra e Paz ou O Morro dos Ventos Uivantes? Recordo de uma conversa com uma amiga, há alguns anos atrás, em que ela clamava por um tipo de censura sobre os desenhos da Disney por serem por demais chocantes para as crianças. “Como assim, matarem a mãe do Bambi? Não vêem que as crianças têm sentimentos?” Pois é. Para alguns, a Disney também pode ser subversiva, quem diria. Não tive coragem de dizer à moça que se as versões e mantivessem fiéis às suas origens, a maioria dos longas animados da casa do rato orelhudo terminaria em tragédia. A Pequena Sereia, por exemplo, morre muda e vira espuma. Cinderela mandou os passarinhos da floresta vazarem os olhos da madrasta e das irmãs, condenando-as à mendicância. Pinóquio esmagou o Grilo Falante a pedradas, apenas para ser assombrado pelo fantasma decomposto do inseto (numa antecipação curiosa dos espectros nojentos de Um Lobisomem Americano em Londres). E por aí vai, numa sucessão de atrocidades dignas de um filme da série Jogo Mortal.
Pior é quando a acusação aparentemente tem fundamento. O romance Os Sofrimentos do Jovem Wether, de Johann Wolfgang von Goethe, publicado em 1774 e considerado o marco inicial do romantismo, provocou uma onda de suicídios motivados por amor não correspondido. Logo Goethe, afeito a exercícios físicos, paixões avassaladoras e apreciação artística, tornou-se responsável por uma série de atos violentos e desesperados. Seria Goethe, o autor, responsável pelas mortes inspiradas por Werther, o personagem?

Da mesma maneira, não creio que devêssemos punir os Beatles por terem inadvertidamente influenciado os crimes cometidos por Charles Manson e sua “famíla”. Os assassinatos da atriz Sharon Tate, de Jay Sebring, Voytek Frykowski, Abigail Folger e Steven Parent, ocorridos em 8 de agosto de 1969, teriam sido inspirados por interpretações das letras de canções do quarteto de Liverpool, gravadas no Álbum Branco, lançado no ano anterior, sendo que a mais “criativa” das releituras das letras é a de Helter Skelter, que consegue depreender slogans pró-genocídio de versos que dizem respeito a um tobogã. Muito criativo.



Manson foi esperto o suficiente para tentar partilhar a culpa com cúmplices do quilate de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr. Não colou, mas estabeleceu um precedente para qualquer desequilibrado entrar num cinema, disparar uma metralhadora e insinuar que “o Clube da Luta me forçou a isso”, ou, como ocorreu em Ouro Preto, em outubro de 2001, um grupo esfaquear uma menina afirmando que estavam jogando uma partida de RPG. Nesse caso específico, recordo de ter assistido em um telejornal a uma montagem com as imagens da revista em quadrinhos O Corvo, do ilustrador James O’Barr, apresentada como uma “evidência da prática de rituais satânicos”, e cabe recordar que o próprio John Lennon foi morto por um fã, Mark Chapman, que se dizia inspirado pelo romance O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Sallinger. É quase possível intuir um ciclo fechado onde o elemento inspirador de Chapman não teria sido Sallinger, mas Manson. Tais criminosos tentariam, ao assassinar celebridades, construir uma obra de arte comparável aos trabalhos de suas vítimas.

Provavelmente haveria suicídios sem Werther, Charles Manson sem Helter Skelter ou Chapman sem Holden Caulfield, mas as obras em questão emprestaram uma muleta para os marginais e criaram um símbolo facilmente recohecível, uma “cara” para cada atrocidade, transformando-as em eventos, em algo mais que simples crimes pueris desprovidos de charme e movidos pela inveja. No caminho inverso de alguns chargistas políticos que sentem que seu trabalho banaliza a importância da denúncia por tornar a vítima da caricatura mais palatável pelo humor, é possível que a citação de obras de arte como elementos inspiracionais eleve o crime a um patamar de “acontecimento social” (e a isso poderíamos incluir os suicídios como a ritualização espetaculosa do auto-sacrifício).

Parece óbvio que a intenção é importar algo da relevância das obras para seus atos ou crimes, ou, como se diz na publicidade, agregar valor. Os pistoleiros do oeste ou os cangaceiros do sertão, por exemplo, tiveram suas façanhas sangrentas imortalizadas nas dime novels e nos cordéis, que as transformaram em verdadeiras jornadas do herói. Se pensarmos que muitos pretendentes a pistoleiros se maravilhavam com as histórias de seus pares, cunhando suas aspirações sobre esse exemplos, poderíamos concluir que talvez algumas vezes a arte possa ser um elemento de ligação entre diversas tragédias.
   
O problema, porém, não é identificar a arte, seja popular ou clássica, como parte do processo, mas sim condená-la pela deformidade das mentes, o que é uma desculpa oportuna para não se resolver os problemas e deficiências da educação, da distribuição de renda e da responsabilidade social, mantendo tudo exatamente como está. Atribuir a culpa pela insanidade às obras de arte ou à cultura de massa, sejam filmes, livros, canções. quadrinhos, jogos de representação ou desenhos animados é o mesmo que executar o mensageiro pelas más notícias. As artes, no que diz respeito à violência, assim como a todo o resto, comentam e evidenciam os desejos, as ansiedades e as doenças latentes.

sábado, 7 de agosto de 2010

A elitização dos quadrinhos: entrevista com Gian Danton

O professor Ivan Carlo tem uma identidade secreta: nas horas vagas ele se transforma no destemido Gian Danton, quadrinista e roteirista premiado. Hoje ele dá um tempo em suas aventuras sequenciais para conversar conosco sobre qualidade, talento e arrogância, três elementos facilmente encontráveis na fauna quadrinista nacional.

Fala, Gian!


Octavio Aragão – Você é um teórico dos quadrinhos brasileiros, com livros publicados que versam sobre autores e técnicas narrativas. Qual o retorno desse trabalho?  Você acha que existe hoje uma enxurrada de trabalhos teóricos sobre a mídia no Brasil? Caso sim, porque tão poucos focam nos primórdios dos quadrinhos brasileiros, tão profícuos quanto seus contemporâneos europeus e norte-americanos?

Gian Danton – Depende muito do que se quer dizer por retorno. Do ponto de vista financeiro é um fiasco. Mas do ponto de vista de discussão, tem sido muito interessante. Tenho recebido e-mails e cartas de pessoas interessadas em discutir o assunto. No Orkut também temos boas comunidades como a Roteiristas de quadrinhos, que apresentam boas discussões. De fato, costuma-se brincar que no Brasil tem mais gente escrevendo sobre quadrinhos do que fazendo quadrinhos. Isso não é exatamente uma verdade. O que ocorre é que editoras como a Opera Graphica e a Marca de Fantasia começaram a lançar agora obras que já estavam prontas há muito tempo, mas não encontravam editora. Além disso, no Brasil, como não há um mercado estabelecido, muitos roteiristas e desenhistas ingressaram na área acadêmica e, quando foram fazer seus mestrados ou doutorados, por afinidade escolheram temas relacionados aos quadrinhos. Quanto a focar ou não nos quadrinhos nacionais, há duas dificuldades. A primeira delas é que é mais difícil conseguir material sobre os quadrinhos nacionais do que sobre os quadrinhos norte-americanos, por exemplo. Estou escrevendo um livro sobre a Grafipar e é uma verdadeira pedreira conseguir informações. Até o contato com os autores é difícil. Além disso, quando se está num programa de mestrado ou doutorado, tem-se que adequar o tema à linha de pesquisa. No meu caso, a linha de pesquisa era divulgação científica, um tema difícil de ser encontrado nos quadrinhos nacionais (embora eu tenha dado alguns exemplos em minha dissertação).

OA – Falando em enxurrada, vivemos uma época única para o gênero no Brasil, onde vemos várias editoras, com destaque para Conrad e Cia das Letras, lançando produtos de excelente acabamento e preço, para dizer o mínimo, salgado. Como você vie essa situação? Será o início de um futuro promissor ou o início do fim? Haverá público consumidor para tantos lançamentos de peso?

GD – Poucos desses lançamentos têm chegado a Macapá, mas o que percebo é uma elitização dos quadrinhos. Pelo que sei, as editoras estão de olho em pesquisas que demonstram que a idade do leitor de quadrinhos aumentou muito. Quem lê quadrinhos hoje é o pessoal da minha geração. Isso por um lado é bom, pois permite uma maior liberdade criativa, uma maior variedade de estilos. Mas por outro lado é horrível, pois corre-se o risco de não criar novos leitores. A Panini está pegando um pouco desse público jovem e o Maurício pega o público infantil, mas sinto que há uma quebra. Muita gente que lê Turma da Mônica não vai continuar lendo quadrinhos.

OA – Quais os melhores quadrinhos nacionais lançados nos últimos cinco anos e por quê?

GD – Ih, pegou. Como disse, em Macapá chega muito pouca coisa. A maioria do que leio de quadrinhos nacionais, são os autores que me mandam. Fawcett, de André Diniz, foi um trabalho que me marcou. Muito bem escrito e arte genial do Colin. Já fui duas vezes em Fortaleza e lá ganhei os fanzines Manicomics no qual destaco A Mulher Estupenda, de JJ Marreiro, uma ótima homenagem aos quadrinhos da era de ouro, que o JJ imita com perfeição. Histórias assim mais simples e ingênuas talvez seja o que esteja faltando no quadrinho nacional para pegar os leitores que estão saindo da Turma da Mônica.

OA – Por que os quadrinhos de humor e sátira produzidos no Brasil têm um maior respeito por parte de público e crítica? Afinal, para o senso comum, chargistas são “gênios” e quadrinistas são "artistas menores".

GD – Os humoristas trabalham em publicações respeitáveis, como a Folha de São Paulo e Istoé. Isso certamente influencia muito. Além disso, o trabalho deles é considerado jornalístico, e não quadrinístico. E no Brasil os jornalistas são respeitados. Têm até direito a prisão especial. Poucas pessoas lêm jornais, mas respeitam os jornalistas. Tanto que quando algum político não tem profissão nenhuma, apresenta-se como jornalista (lembram do Collor?).

OA – Sua revista Manticore foi uma execelnte iniciativa que mudou um pouco de foco em sua última encarnação. Dá pra falar a respeito? Por que essas mudanças radicais?

GD – Não participei dessa segunda fase da Manticore. Na época da primeira fase nós tínhamos a idéia de transformar a revista numa coletânea de histórias de terror e ficção, algo como a antiga Kripta da qual todos nós éramos fãs. Muito tempo depois do lançamento dos dois primeiros números o editor procurou o Antônio e pediu para lançarem um terceiro número. Creio que fugiu um pouco da proposta, pois ficou um pouco humorístico.

OA – Você acredita que exista um tipo de “richa” entre os produtores de quadrinhos de São Paulo e Rio? Caso sim, por que? Seriam linguagens diferentes?

GD - Não conheço tão bem assim esses dois ambientes, mas em congressos e eventos nunca percebi uma richa. Percebi, claro, uma diferença de estilo que deve ter a ver com a própria cultura local. Os cariocas parecem ser mais divertidos. Os paulistas são mais profissionais, mais sérios.

OA – Para terminar, uma espécie de bate-pronto. Eu cito um nome e você fala a respeito:

a) Maurício de Souza - um cara que conseguiu o que parecia impossível: derrotar Disney. Só lamento que ele não permita que seus artistas assinem suas histórias. Mas acho que ele criou uma linguagem de quadrinhos infantil muito mais moderna que a da Disney, por exemplo. Meus filhos são viciados na Turma da Mônica.

b) Ota - Uma das coisas que lamento foi não tê-lo conhecido melhor. Parece um grande cara e um ótimo editor. A ele devemos a MAD e a ótima fase dos quadrinhos nacionais da Vecchi. Além de que foi graças a eles que conheci os quadrinhos da EC Comics na revista Cripta do Terror, que tenho encadernada na minha estante.

c) Mutarelli - Conheci ele no HQ Mix. Um cara muito simpático e talentoso. Pena que nada dele chegue às bancas ou livraria de Macapá.

d) Moacy Cirne - Foi o coordenador do núcleo de quadrinhos do Intercom. É um cara simpático e simples. Nem parece ser o autor de tantos livros importantes.

e) Ziraldo - Eu era o fã número um dele, até conhecê-lo pessoalmente. Numa entrevista coletiva em Belém ele descobriu que eu gostava de quadrinhos e ficou conversando apenas comigo, só respondia minhas perguntas. Ficou um clima super-chato com meus colegas jornalistas. Nesse dia descobri o quanto ele pode ser arrogante (não comigo, pois parece que ele simpatizou comigo). Já tinha ouvido muitas histórias sobre a arrogância dele. Dizem que quando o Moebius esteve aqui ele disse que era o único quadrinista brasileiro. O Ota estava por perto e desmentiu.. Mas continuo gostando muito do trabalho dele, a incrível simplicidade e expressividade do traço, as grandes sacadas de roteiro... Como diz o Chico Buarque, curta a poesia, não o poeta.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A Semana de Quadrinhos da UFRJ vem aí!

O evento Semana de Quadrinhos é uma realização da Universidade Federal do Rio de Janeiro, através da Escola de Belas Artes (EBA) e da Escola de Comunicação (ECO), em parceria com o SESC-Rio, pela filial de Madureira. O evento possui dois objetivos: o primeiro é mostrar as Histórias em Quadrinhos (HQs) que, além de entreternimento, pode ser usado como uma ferramenta de comunicação, educação e linguagem artistica. O segundo motivo é homenagear Angelo Agostini, pois nesse ano rememoramos 100 anos do seu falecimento. Agostini foi um importante artista brasileiro e um dos percusores dos quadrinhos mundiais.

O evento ocorrerá de 27/09 a  01/10 de 2010 e contará com palestras de profissionais da area, oficinas ministradas por artistas renomados e contará com standes de revistas em quadrinhos independentes e fanzines.