terça-feira, 14 de junho de 2011

Resenha de Perdido Street Station, de China Miéville

Se conhece um pouco de história da arte, imagine um tríptico de Hyronimus Bosch. Um mundo onde cidades existem à sombra de esqueletos, coleópteros concebem esculturas de secreções coloridas e o prefeito pode, em momentos de crise, solicitar uma entrevista com o Inferno. Esse é o universo de New Crobuzon, uma urbe-estado com todos os (des)confortos da contemporaneidade e mais, muito mais.

O autor dessa colcha de retalhos pós tudo é China Miéville (1972- …), um dos representantes britânicos do novíssimo subgênero batizado com o título New Weird.

O interessante, porém, no romance de Miéville, não é o quanto de surreal existe no cenário, mas como podemos nos identificar com os personagens apesar da overdose de ácido impressa nas páginas. Todos críveis, polidimensionais, mesmo que sejam xenianos – humanóides parcialmente insetos, vegetais ou pássaros -, cyborgues escravos da moda ou IAs zumbis que perambulam pelos depósitos de lixo.
 
Ao contrário da FC literária que nos acostumamos a ver por aí, não importam as origens dessas criaturas que habitam as páginas de Perdido Street Station, mas os dilemas, sonhos e frustrações de artistas, traficantes e inventores. E, claro, há uma busca para nortear a história.

História não, saga.

A trajetória do pesquisador Isaac Dan der Grimnebulin em busca das asas perfeitas, com as quais pretende fazer um homem-pássaro mutilado alçar vôo, é prometéica. Como o titã grego ele rouba – inadvertidamente, é verdade, mas com resultados desastrosos — uma terrível maravilha guardada a sete chaves pelo governo, que coloca em risco toda uma estrutura social parcamente equilibrada e até, de forma indireta, a vida da mulher (ou algo parecido) que ama.
Isaac acaba acorrentado a um destino trágico: é obrigado a reparar seu erro e viver na própria carne os dilemas dos meio-humanos. Enquanto empreende uma caçada desesperançada em busca de uma arma definitiva que elimine de vez a ameaça que foi liberada por suas próprias mãos, se vê como juiz e carrasco numa chacina onde a diferença entre puros e ímpios é desimportante.

Trata-se, enfim, da história do homem para quem a vontade de corrigir erros se confunde com a erosão do caráter. Também é a história da artista presa pela integridade de seu trabalho. Uma fábula sobre a ilusão da honra e o dom de voar. E ainda é um conto sobre a morte de uma comunidade puída pelo crime e vício, imersa numa noite sem sonhos.

Pensando bem, Perdido Street Station não é um tríptico de Bosch.

É a esquina da nossa rua.

Publicado originalmente na revista MANDALA #2 – por Octavio Aragão – jul2004

domingo, 12 de junho de 2011

A exposição de charges de Diego Novaes

 Tenho a honra e o dever de anunciar aqui que Diego Novaes, o coração por trás da Semana de Quadrinhos da UFRJ, inaugura sua nova exposição de charges, que vai de 13 a 22 de junho de 2011, no hall da Reitoria da UFRJ, onde também está situada a EBA, Escola de Belas Artes.

Abaixo, o release da nova expo e uma das apresentações que escrevi para a antiga. Espero que gostem.


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De 13 a 22 de junho, a Universidade Federal do Rio de Janeiro abre suas portas para a exposição Bye-bye, Reitor – o fim de uma era, do chargista Diego Novaes. Com curadoria de Carlos Terra, diretor da Escola de Belas Artes da UFRJ, a exposição é um retrato crítico, porém bem-humorado, da gestão de Aloísio Teixeira enquanto reitor da UFRJ.


Na mostra, estarão expostos originais, estudos e esboços das charges e ilustrações de Diego Novaes, traçando não só um panorama de seu processo de criação, da construção de sua sintaxe visual, mas também um registro histórico dos diferentes temas e abordagens que utilizou nesses últimos cinco anos.


Os visitantes da exposição poderão, ainda, levar para casa caricaturas feitas ao vivo pelo coletivo de cartunistas Caricatura Solidária.


A abertura da exposição será dia 13 de junho às 13 horas no hall da Reitoria da UFRJ: Av. Pedro Calmon, n∞ 550 - Prédio da Reitoria, 1º andar, Cidade Universitária - Illha do Fundão, Rio de Janeiro, RJ. 


Traços de caráter

    Diego Novaes é uma incongruência: um jovem cartunista das antigas. Não no sentido de ter um trabalho datado, mas porque, longe do conformismo, almeja traços limpos e tiradas sujas, apesar de coloridas, sem descuidar do real significado da charge, o ataque.

    Direto, sem metáforas, sua regra pessoal é clara: jamais ceder à tentação do humor corriqueiro, comportado, com o choque causado pelo contraste entre o desenho propositadamente infantil e as mensagens à beira do grotesco rabelaisiano. Assim, policial, político e proxeneta, por mais coloridos e sorridentes, são retratados em atitudes radicais, ferinas, despertando o riso mais pela surpresa que pela piada fácil.

    Dessa maneira, Diego assume seu papel como representante de uma tradição de ilustradores-jornalistas ácidos que incluiria Aroeira, Angeli e Carlos Estêvão, com fortes ligações com as charges sociais de características cartunescas, onde o humor, apesar de muitas vezes estar ligado a um fato localizado no tempo, não depende do reconhecimento do leitor, mas de uma conjuntura, uma construção do sentido por intermédio do desenho, tornando a fruição atemporal.

    Destemido, o caráter de Diego impregna seu trabalho. Está em cada linha, cada mancha, cada ruga na cara das caricaturas. Ele desenha o que acredita e nisso não há incongruência.