domingo, 25 de setembro de 2011

Vocês não acreditaram em mim, agora vão pagar caro

Por Octavio Aragão
Octavio Aragão(artigo publicado originalmente no jornal Achei USA)


Não se pode viver no isolamento; a vida, portanto, é relação, e relação é ação. Krishnamurti

Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,
E tudo é névoas e muros
Quando a vida dá ou tem, (...)

Fernando Pessoa

Eis que a culpa de tudo é o bulliyng colegial. Eis que a desculpa de tudo é a falta de coragem em dar o troco na hora certa, ser coitadinho é salvo conduto para a chacina de inocentes, de crianças que nem sabem que um dia você foi alvo de piadas, foi pele no colégio.

Demorei para decidir escrever esta coluna porque um certo senso de fatalidade me assombrava, como se o fato de tocar no assunto do massacre de Realengo de alguma forma sobrenatural repetisse a tragédia, mas sinto que ainda há um ângulo sobre o qual a luz de todos os psicólogos amadores que se debruçaram sobre o horror ocorrido no subúrbio do Rio ainda não incidiu: a formação de um tipo de clube do Dr. Silvana. 

O Dr Silvana era o arqui-inimigo do Capitão Marvel, um velhinho genial que foi humilhado por seus pares cientistas e considerado uma figura ridícula e meio doida que deveria ser, no máximo, motivo de chacota. Esse velhinho careca, franzino e feio como a necessidade declara guerra não apenas à comunidade científica, mas também a toda a humanidade. Silvana comete toda sorte de crimes sempre combatido e derrotado pelo apolíneo Capitão Marvel, que na verdade é Billy Batson, um menino de 12 anos de idade capaz de se transformar num gigante superpoderoso. Ou seja, Silvana e Marvel podem ser encarados como uma metáfora ao grande mito contemporâneo do valor da juventude. Juventude em todas as facetas, como sinônimo de saúde, beleza, poder e de um tipo de imortalidade artificial almejada por todos.

Geralmente os planos de Silvana giram em torno do roubo ou da apropriação indireta dos poderes de Marvel, a sabedoria de Salomão, a força de Hércules, o vigor de Atlas, o poder de Zeus, a invulnerabilidade de Aquiles e a velocidade de Mercúrio. Deixando de lado o improvável sincretismo hebreu-greco-romano e a ironia de um sujeito sábio com Salomão sempre cair nas mesmas armadilhas, o que podemos perceber é que aquele que não pertencer ao ideal olímpico encarnado no Capitão Marvel seria necessariamente um pária social, mesmo com qualidades dignas de nota. Diante disso, é fácil entender porque pessoas que sofreram agressões e humilhações na infância se identificariam com o comportamento do vilão. O problema é que, enquanto as ações de Silvana são inócuas e sempre neutralizadas pelos poderes divinos de Marvel, os silvanas do mundo real machucam, matam e mutilam de maneira irreversível. A família não sabe que o filho agride ou é agredido por colegas e a escola, na maioria das vezes, não se considera responsável por esses casos. Como resultado desse impasse e na falta de um Capitão Marvel para dar uma sova nos silvaninhas, agora o Ministério Público quer que o bullying seja considerado crime, o que me parece um erro.

A solução não soluciona, ela agrava o problema. A provocação, a gozação, o humor por intermédio do ridículo são elementos indesejáveis, mas infelizmente comuns no desenvolvimento social. É preciso saber lidar com isso, como com todos os percalços que nos atropelarão vida a fora. O ridículo cruel existe e tentar puní-lo nas crianças não resolve, mas o clube dos Silvanas cresce a cada dia, com os ressentimentos e as invejas introjectadas servindo como estopim para explosões de raiva. Cada um deles se acha um herói injustiçado em busca de vingança e também de um tempo de exposição midiática. Quase todos deixam registros em imagem ou gravações numa busca dos quinze minutos de fama. Eles querem a peculiar imortalidade da fama após a morte, a velocidade dos tubos catódicos e da comunicação de massa, um tipo de ressurreição midiática que repete imagens violentas como se o matador fosse um Minotauro correndo pelos corredores do labirinto de Creta, exterminando suas vítimas eternamente. Tornam-se fantasmas em vídeo, que voltam para agredir seus ex-carrascos explicando seus planos e motivos como vilões bidimensionais de histórias em quadrinhos impressas em preto, branco e vermelho.



Devemos fugir desses rostos pixelados ou, ao contrário, observá-los sempre que possível para aprender como combatê-los? Adiantaria escondermos as fotos de Adolf Hitler? Apagar o nazismo e seus malefícios consertaria o mundo? Olhar para o lado, fingir não enxergar nada mais é do que tentar esconder os fatos. Sem dúvida é mais confortável não ver a miséria, mas fechar os olhos nunca ajudou ninguém a viver melhor. Houve quem reclamasse da hiperexposição post mortem do assassino de Realengo, mas talvez a repetição sensacionalista (sensacionalista sim, porque também temos de admitir nosso voyerismo sádico) do close up do monstro nas páginas dos jornais e nas TVs nos permitam reconhecer os inimigos, e o pior é que cada um deles, com seu tom monocórdico, olhar frio e expressão nula, caras de lua nas telas quadradas, são o nosso reflexo, o inverso dos sonhos.

sábado, 10 de setembro de 2011

O futuro não é mais como era antigamente


Octavio Aragãopor Octavio Aragão (publicado originalmente no jornal Achei USA)


(...) é através dos assim chamados filmes de nostalgia que o processamento propriamente alegórico do passado tornou-se possível; é porque o aparato formal dos filmes de nostalgia nos treinou a consumir o passado em termos de imagens sofisticadas que essas novas formas e colocações mais complexas da ‘pós-nostalgia’ se tornaram possíveis.
Fredric Jameson

É necessário considerar o que deve acontecer como já sucedido, é necessário ver o presente no futuro, porque este nada mais é do que um presente remoto.
Júlio Verne

O passado, apesar de toda a alergia que causa aos menores de trinta anos, está na moda. Mas não se trata de um passado qualquer, conhecido e confortável. Estamos falando aqui de um pretérito mais que perfeito, um tempo tão improvável e imprevisível quanto o mais longínquo futuro. Um século 19 que nunca existiu, mas que teria sido fantástico.

Quando assistimos a um filme que emula um passado fantasioso é como se descobríssemos uma nova possibilidade de futuro, pois o que veio antes torna-se tão atraente quanto o que nos aguarda na próxima esquina. Quem sabe o fato de estarmos no começo da segunda década de um século insondável nos faça olhar para trás em busca de parâmetros comportamentais confiáveis que pautem os anos vindouros usando um mix de iPod (ou iPad, de acordo com o gosto do freguês) com óculos de piloto de biplano.

Talvez isso seja um efeito colateral de um certo achatamento da perspectiva da história recente, que faz com que os últimos cinquenta anos estejam disponíveis a qualquer pessoa, a qualquer hora, sim, mas sem uma identidade própria, sem uma característica que defina cada década, transformando tudo em uma “pasta imagética” onde Frank Sinatra poderia ter sido contemporâneo de Kurt Cobain, consumida por uma geração que acredita que a Segunda Guerra Mundial ainda acontecia em 1978, como um adolescente me perguntou outro dia.

Correndo o risco de parecer um nostágico mais velho do que gostaria, reconheço que sinto certa saudade do tempo em que as poucas emissoras de TV do Brasil não tinham vergonha de exibir filmes de Frank Capra, Vittorio de Sica ou Otto Preminger, tanto à tarde quanto na madrugada. Hoje, apesar do paraíso informacional, a compartimentação da programação nos obriga a assistir a um canal a cabo especializado no que se acostumou a chamar de “cult”, algo parecido com uma lata na qual se joga qualquer coisa que difira do padrão não muito claro das etiquetas, como única opção e mesmo assim corre-se o risco de ver muito material que não merece ser “cultuado” nem pelo mais simplório fã de novelas mexicanas (afinal, num certo sentido, elas também são cult, não é mesmo?).

Ou seja, não basta saber pesquisar no Google, tem de saber como pesquisar. Igual a todo e qualquer oráculo da antiguidade, de Delfos ao I-Ching, essa hoje indispensável universopédia exige que se pense antes de perguntar e, para isso, é preciso cultura, sob o risco de se obter respostas mais enigmáticas que a questão original. Se o consulente não souber a diferença entre laranjas e bananas, como poderá entender uma resposta que envolva frutas cítricas? Ou ainda, é necessário que se compreenda o que se pode perguntar, como aconteceu, por exemplo, com um aluno que, diante do meu pedido para que produzisse um esboço com lápis e papel, recorreu à internet para saber “como se poderia fazer um sketch”. Isso, infelizmente, não há pitonisa ou mago Merlin que responda, ou o sujeito faz ou não faz.

Enquanto isso, quem sabe fazer, aquele pessoal que conhece as raízes culturais dos produtos de cultura de massa, está arrecadando milhões com remakes e continuações de filmes de trinta anos atrás ou escrevendo roteiros que evocam cenários de séculos passados, mas com entusiasmo juvenil. O estilo nascido da paixão pelo imaginário da InglaterraVitoriana, por exemplo, tem nome. Chama-se steampunk, que significa a junção do “vapor” de locomotivas ou de outras tecnologias retrô envolvendo eletricidade e magnetismo com o espírito anarquista dos punks contemporâneos, como visto no filme O Grande Truque (The Prestige, 2006). Já aqueles que preferem um clima do início do século 20, adotam a alcunha dieselpunk e adoram máquinas e roupas que remetem ao estilo Art Déco, de acordo com o que se pode ver no filme Capitão Sky e O Mundo do Amanhã (Captain Sky and The World of Tomorrow, 2004). Ésempre bom recordar que tudo isso nasceu das cabeças de autores como Bruce Sterling e William Gibson, acostumados a antecipar o futuro em vivemos hoje escrevendo romances que receberam a alcunha de cyberpunk.





E por aí vai o trem, cultivando e construindo uma nova memória afetiva para jovens que têm saudades do que não viveram e que, de uma certa maneira, buscam unir o melhor de todos os mundos possíveis, mas sem abrir mão de um saudável viés anarquista. Eu só gostaria que todo esse revisionismo fosse temperado, como acontece nas versões literárias, com influências dos trabalhos de Charles DIckens ou Machado de Assis, porque o que é bom, mas bom de verdade, perdura.

Definições do Gênero Fantástico de acordo com Tzvetan Todorov

Eis um quadro provisório que montei para estruturar os conceitos e definições do estudioso Tzvetan Todorov no livro Introdução à Literatura Fantástica.
 
Convido os amigos a discutir/acrescentar/desenvolver os tópicos apresentados. Quem sabe não conseguimos responder àquelas perguntas do tipo “isso é Ficção Científica?”, “o que é o Fantástico para você?” ou “qual a diferença entre esse e aquele subgênero?” que sempre nos cercam.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Guidelines para a nova antologia editada por Gerson Lodi-Ribeiro e publicada pela Editora Draco: Solarpunk

Antologia Solarpunk
Guidelines




Depois da Vaporpunk (2010) e da Dieselpunk (2011), 2012 será o ano da Solarpunk!
Ao  contrário  das  duas  antologias  punks  anteriores,  na  Solarpunk  não  julgamos  necessário enfatizar o elemento “punk”.  Julgamos o “solar” mais importante.

Sério?  Como assim?

Simples.  Ao escrever seu trabalho com vistas à submissão para a Solarpunk, o autor não precisa se preocupar  em  exalar  aquele  clima mezzo  noir,  aquele  cheiro  mezzo  pessimista,  referência  de  boa parte da literatura fantástica punk.  Desejamos que o próprio “solar” seja encarado lato sensu: enredos inspirados  no  emprego  não  apenas  da  energia  solar  em  si,  mas  em  formas  de  energia  alternativas, preferencialmente  limpas.    Neste  sentido,  chegamos  a  cogitar  batizar  a  antologia  Greenpunk,  ideia rapidamente  arquivada  pelo  fato  de  abrigar  —  ao  menos  em  aparência  —  certa  contradição  de conceitos.

As tramas tanto podem ser ambientadas  em  cenários  históricos alternativos quanto em futuros próximos ou remotos. Como imaginação está  aí para isto, não  é inconcebível  se  pensar  em enredos solarpunks,  conforme  os  conceitos  esboçados  acima,  ambientados em  cenários  mais  típicos  do horror ou da fantasia. Desta forma, pretendemos reunir na antologia Solarpunk contos e noveletas de ficção científica, história alternativa, horror ou fantasia escritos em bom português, com fins de publicação pela editora Draco em 2012.

Fixamos  os  limites  das  submissões  entre  4.000  e  10.000  palavras. Isto  não  quer  dizer,  em absoluto, que submissões fora deste intervalo serão sumariamente rejeitadas.  Se o trabalho submetido possuir qualidade literária e se enquadrar na temática proposta, essa qualidade pesará muito em nossa apreciação,  ainda  que  o  texto  seja  menor  ou maior  do  que  o  limite  proposto.    No  entanto,  cumpre esclarecer de antemão que olharemos com mais simpatia trabalhos dentro do intervalo citado.

Analogamente,  gostaríamos  de  receber  trabalhos  criativos  e  originais  cujos  enredos  dissessem respeito, direta ou indiretamente, às culturas brasileira e/ou portuguesa, mostrando o impacto social do emprego dessas formas de energia alternativas na(s) história(s) dessa(s) cultura(s). 

Acreditamos que é mais  fácil  escrever  bem  sobre  o  que  conhecemos  melhor. Não  se  trata  de  uma  exigência  estrita. 

Trabalhos que nada tenham a ver com o Brasil ou com Portugal serão apreciados com a atenção devida e poderão ser eventualmente aceitos. Porém, convém frisar nossa predileção irrestrita por textos que sejam lusófonos  de  corpo  (i.e,  escritos  por  autores  portugueses  e brasileiros)  e  de  espírito  (enredo, personagens, ambientação lusófonos).

Considerando o poder infinito da imaginação de nossos autores, a amplitude espaçotemporal da temática proposta é incomensurável. Desde as clássicas velas solares (empregadas ora em viagens a outros sistemas estelares, ora em regatas espaciais dentro da gravitosfera do Sol), dos coletores orbitais e  dos  sistemas  eólicos  avançados,  até  geradores capazes  de  extrair  energia  do  vácuo  quântico  e injetores  de  energia vital,  coletores  de  energia  multidimensionais  ou  saltos  hiperespaciais proporcionados  por  orgasmos,  diríamos  que,  literalmente,  os universos  físicos  e  ficcionais  são  os únicos limites para a mente criativa.

Por falar em limites, nossa deadline é 31 de março de 2012, uma vez que o objetivo primário é lançar a antologia na Fantasticon 2012, no início do segundo semestre do ano que vem.

A  submissão  deve  ser  mandada  somente  em  versão  eletrônica,  formato  rich  text  file  (.RTF), para  o  e-mail glodir@unisys.com.br,  com  cópia  de  segurança  para ericksama@gmail.com

Confirmaremos a recepção de cada trabalho submetido.

Em caso de dúvida, não hesite em nos contatar.

Se  julgar  necessário  discutir  determinada  trama  ou  certa  linha  de  enredo  conosco,  sinta-se  à vontade.  O antologista está aqui para isto.☺


Aguardamos a submissão do seu trabalho.
Gerson Lodi-Ribeiro (antologista)
Erick Sama (editor).
Setembro de 2011.