quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O coronel Raga, por Jean Okada

A mão biônica do coronel ciborgue
A ilustração acima é uma absoluta surpresa. Ontem, visitando o blog do ilustrador e quadrinista Jean Okada, descobri que ele não apenas gosta das cenas de Rainha das Estrelas publicadas semanalmente, mas também que decidiu retratar um dos personagens. O que posso dizer além do óbvio? Valeu, Jean, e volte amanhã, pois teremos mais uma cena inédita.

Ah, e não esqueçam de curtir a página de Rainha das Estrelas no Facebook para concorrer a um exemplar do livro Space Opera 2, da Editora Draco, e a uma ilustração inédita de outro personagem carismático da história, dessa vez pelas mãos de Manoel Magalhães.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Um lugar no futuro - trecho inédito de Rainha das Estrelas

  Esta semana abro o post com um comentário nostálgico do colega e grande amigo Osmarco Valladão sobre o processo de crianção e desenvolvimento dos personagens de Rainha das Estrelas, com destaque para Raga, que ganha logo abaixo mais uma cena editada do conto publicado na antologia Space Opera 2 (sim, Raga sofreu muito, coitado).

   “Na época (1982), uma de nossas diversões favoritas era fazer caricaturas uns dos outros travestidos de personagens de filmes. Assim, o rosto comprido e impassível de Marcos Braga se tornava nossa versão de Drácula ou do Senhor Spock. Zé Antonio, sempre envolvido com belas damas, se tornava nossa versão de James Kirk ou Rick Deckard. Em algum momento, movidos não sei por quais musas (Antártica ou Brahma), essas caricaturas começaram a pedir por suas próprias identidades e histórias... então foram mais "musas", mais conversas delirantes, mais caricaturas (caricaturas, não, agora eram concept designs) e mais anotações. E a gente se divertindo muito durante todo esse processo. Daí para frente, é como o Octavio Aragão está contando...”

  Construí o coronel ciborgue mesclando boa parte do que o Osmarco falou acima às minhas próprias considerações sobre militares, baseado em minha vivência com meu pai, que também foi coronel e usava uma prótese mecânica. Como seria a vida de um sujeito honrado e patriota como Raga? E sua relação com a mulher? Quais seus afetos e afiliações políticas? Um pouco disso, da história sociopolítica de Ryoh e Veracroce, além de uma vênia a Dostoiévski, seguem logo abaixo.


Raga, num esboço feito recentemente por mim.


    Raga bebericava uma caneca de rum, hábito adquirido em sua estada com os piratas há vinte anos. Envergava um velho e confortável conjunto esportivo cor de pelo de rato que o deixava ainda mais alto e ameaçador que o normal. Apesar da situação de urgência no trabalho, optara por passar ao menos um dia em companhia da mulher e das meninas. Afinal, se não fosse por uma vida agradável, para que lutar tanto? Aguardava duas ligações pelo PorTel, mas enquanto não chegavam aproveitava o silêncio na casa, com as crianças dormindo. A esposa, como sempre antes de uma ação de peso, escondia-se atrás de um livro qualquer, mantendo o volume nas raias do inaudível, e acabara dormindo. Desta vez, enquanto o marido pesquisava a árvore genealógica dos Delenda, Moira lia um romance de um autor anterior à grande diáspora, anterior à Coroa, anterior a Ryoh e a Veracroce. Contava a história de um pobre estudante que decidiu matar a velha e antipática proprietária de seu alojamento, que lhe servia como encarnação de tudo que havia de errado no mundo.

    Dependendo do mundo, Raga concordaria que havia muita coisa a ser consertada ou impedida. O cenário sócio-político de Ryoh, por exemplo, viveu dias melhores, pouco depois do assentamento, quando os colonos tomaram conta do planeta. A ânsia pelo retorno aos dias gloriosos de um passado imperial, junto ao ufanismo que combinava com a chegada ao novo planeta, os fez abandonar as tradições republicanas e abraçar um novo tipo de monarquia. Como resultado, os parcos registros dessa época apontavam que em cinco gerações as coisas pioraram, com corruptos e doentes mentais se alternando no trono, tendo como primeiro ápice a insana Cordélia Delenda, logo a megera que voltava ao controle agora. Mas isso não significaria que homens de visão teriam de se corromper. Sempre havia a possibilidade de empreender planos calculados em busca do progresso e da saúde da Nação, fosse uma monarquia ou a desacreditada república.

    Resgatando o romance do colo adormecido, Raga passou os olhos sobre um trecho. Conhecia o texto e não conseguia se identificar com o protagonista, apesar de compreender seus motivos. Achava que matar a velha usurária poderia ter sido desculpável se fosse um gesto racional, em lugar do resultado de um delírio movido por auto comiseração. Por exemplo, em prol da Coroa, Raga não pensaria duas vezes em praticar atos extremos, até subversivos. Ao observar a família adormecida, recordava os momentos de excesso que testemunhara nos aposentos reais. Os planos relativos à utilização da imagem de Anton Argo, ainda um símbolo de resistência e integridade para muitos habitantes do Eixo Central, visavam originalmente o enriquecimento de Ryoh, mas agora, depois dos últimos fatos, não descartava a possibilidade de alternativas que contrariassem a vontade da Coroa. Até então, mesmo com os desvarios típicos dos Delenda, achava que poderia contornar os problemas e fazer o necessário, porém começava a perceber que sua vontade em prol do bem comum e os desejos reais eram um casamento em crise.

    Na penumbra da sala, com a luz do livro iluminando a face e projetando sombras oblíquas no teto, Ahmed Alexandrovitch Raga ajeitou-se no sofá grande o suficiente para acomodar ao casal, rejeitou a ideia de desconectar o braço cibernético (melhor estar preparado para a ação imediata) e tomou a decisão. Precisava de Anton Argo ao seu lado, e não necessariamente de Cordélia Delenda, fosse lá em que corpo estivesse. Encenaria uma peça, daria a entender que estava levando Argo para a morte e ganharia tempo até reunir forças para o objetivo final, a sobrevivência de Ryoh perante as novas potências em ascensão, como Shan-Pah e Belo. No futuro não haveria lugar para alguém como Cordélia Delenda.

    Apaziguado com sua consciência, voltou ao romance:

    –  Boa noite, Alíona Ivanovna – leu – Trago-lhe um penhor. Mas entremos... vamos para a luz.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O Rato roeu a roupa do rei de Ryoh - uma cena editada de Rainha das Estrelas

 Quase todos os personagens principais de Rainha das Estrelas foram baseados em amigos, colegas e conhecidos, às vezes mesclando caracterísitcas de várias pessoas, outras vezes exagerando personalidades ao ponto da caricatura. Três deles, porém, na minha opinião, transcenderam e ganharam tridimensionalidade. Mamba Mauzh, o gênio da engenharia e das relações humanas, duas coisas aparentemente incompatíveis, Raga, o militar que se considera honrado, mas que muitas vezes está diante de dilemas éticos e nem sempre escolhe a opção mais simpática, e Argo, cujas ações motivaram e delinearam o cenário, mas jamais aparece, sempre descrito pelo ponto de vista dos outros.

Mauzh é o sujeito cujo carisma se sobrepõe à ética. Raga é o oposto, só gostamos dele quando compreendemos sua fidelidade a um código inquebrantável. E Argo, nosso Roque Santeiro, é aquele que foi sem nunca ter sido.

No trecho abaixo, bastante diferente daquele publicado na antologia Space Opera, os três são apresentados pelo ponto de vista de um quarto personagem, Ronston, o segundo vértice do triunvirato criminoso conhecido como O Grupo. Compor Mauzh, Raga e Argo por intermédio do olhar parcial de Ronston foi um belo exercício.


Interstellar Queen sobrevoa fazenda. Por S. Cowley



  Ronston recebeu a confirmação por seu PorTel alternativo, que usava apenas para negócios extra Grupo. A imagem de Amélia Fornin apareceu, olhos fundos de quem não dormiu. Ronston bloqueou o sinal de vídeo para que a moça não visse seu rosto, liberou o comunicador e esperou pelo relatório.

 – Fiz o que pediu – disse Amélia com voz embargada – A esta altura Mamba Mauzh deve estar preso ou morto.

    – Eu seria idiota se acreditasse nisso – Ronston estava apreensivo, mas anos naquela vida ensinaram-lhe a manter a voz neutra – Ainda não confirmei a ação de meu pessoal, mas tenho certeza que nada será fácil.

    – E minha filha? Está a salvo?

    – Tudo depende do resultado da ação. Desligue agora, mas mantenha-se atenta, se precisar de você entro em contato.

    Recostou-se na poltrona forrada com pele de neocobra e remexeu os papéis sobre a mesa. Desde quando o Grupo tinha se tornado tão burocrático? Onde estavam os dias de ação e pilhagem, quando saqueavam os cofres da Coroa e estripavam gente da Classe Dominante todos os fins de semana? Quando foi que perderam a Área Vermelha? Como deixaram indivíduos do naipe de Mamba Mauzh entrarem no Grande Jogo?

   Ronston sabia as respostas. O Grupo cresceu tanto que precisava virar um tipo de empresa, de organização estruturada para sobreviver à demanda de seus clientes, os negociantes de armas e de gente. O Grande Jogo deixou de ser físico e passou a ser mental, matemático. Nada mais de conquista, mas negociação, economia e política, como os expedientes utilizados pela Coroa que eles tanto abominavam.

   Mamba Mauzh era o homem certo para eles no momento de transição. Talentoso com máquinas e números, capaz de liderar equipes e de incrementar a produção com projetos bélicos. Com ele, o Grupo deixou de ser um empreendimento de saque e passou a ter um lado criativo. Vários projetos desenvolvidos pela divisão de Mauzh foram comprados e implementados por engenheiros da própria Coroa. O Grupo conheceu a prosperidade.

   Contudo, Ronston era da velha guarda e sabia que conforto enferruja. Respeitava Mauzh pelo talento, mas jamais compartilhou de seus ideais românticos. Preparou-se para o momento em que o Rato roesse a corda. A notícia da prisão de Anton Argo foi o que fez Mauzh sair da toca e a reunião imediata dos piratas remanescentes deixou bem claras as afiliações de seu colega.

    Há vinte anos os comandos chefiados por Argo auxiliaram a Coroa, desbaratando uma tentativa de ataque a Ryoh da parte de um general megalomaníaco do Reino de Cah-Nayny, e o resultado foi que a Coroa lucrou e os idiotas que realmente fizeram o trabalho duro foram debandados. O rei de Cah-Nayny jurou fidelidade à Coroa de Ryoh e Raga, antes um tipo de consultor da Família Real, virou um manda-chuva com ares de Primeiro Ministro.

    Os piratas – era assim que eles gostavam de ser chamados – ganharam da Coroa um velho cargueiro e, graças aos talentos de Mauzh e alguns outros, a banheira virou uma máquina voadora batizada com o nome questionável de Rainha das Estelas. Foi a Rainha que invadiu Cah-Nayny, enfrentou as tropas do general Diós Scenicko e sofreu a traição de Raga.

    O então o major Raga instou a tripulação de piratas à rendição assim que reentrou o território da Coroa. Argo, antecipando o rival, assumiu o controle, pediu a Mauzh que realizasse um de seus milagres mecânicos e, depois de esvaziar a Rainha, atacou sozinho a nau capitânea da Coroa, a Maré Alta, onde Raga se encontrava. As duas naves caíram em chamas no oceano. Bastante ferido, Raga escapou. O corpo de Argo jamais foi encontrado, mas apesar disso o comandante dos piratas ficou imortalizado na memória afetiva da população como o último dos rebeldes, alguém que desafiava não apenas a Coroa, mas qualquer poder instituído.

    Talvez por isso a Coroa tenha caçado a tripulação da Rainha. Os que escaparam às correntes e à execução saíram de cena e o Grupo viu nisso uma chance de ampliar seus quadros. Depois de muita investigação, identificaram alguns dos sobreviventes. O mais importante era Mamba Mauzh,  responsável por transformar uma chaleira voadora em uma das mais impressionantes aeronaves de combate da história de Veracroce. Com o auxílio dele poderiam fazer tremer os reis de Ryoh.

    O Grupo devia muito a Mauzh. Dinheiro e prestígio. Contudo, a vida corre e as coisas mudam. O tempo de gratidão passou e talvez necessitassem de outra diretriz. Ronston pensava que seria a hora de voltar os olhos para um novo tipo de Poder.

    Foi nesse instante que o PorTel chamou. Era Zander Belua, o melhor assassino do Grupo.

    Mais uma vez Ronston manteve o som, mas desligou o visor.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Promoção “Space Opera - Rainha das Estrelas” (atualizado com preview da ilustração)

Pessoal, assim que chegarmos nos 500 curtir na página de Rainha das Estrelas, em https://www.facebook.com/RdEstrelas, sortearemos um exemplar da antologia Space Opera, recém publicada pela Editora Draco.


E agora a novidade: o ilustrador Manoel Magalhães, de The Long Yesterday, O Instituto e do recentíssimo O Coronel, vai ceder para sorteio uma ilustração de um dos personagens da história (quem será? Quem será?) para o sortudo que ganhar o livro. 

Preview da ilustração por Manoel Magalhães

E agora, ainda não se mexeu? Está esperando o quê para dar um curtir lá?

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O remédio para a traição - uma cena perdida de Rainha das Estrelas

Interstellar Queen, ilustração de Stewart Cowley. Inspiração
   Quando desenvolvia o plot original de Rainha das Estrelas, em 1986, inspirado entre outras coisas pelas ilustrações de Stewart Cowley, Osmarco Valladão pensou em duas instituições eternamente em guerra: a Coroa, o governo, e o Grupo, uma organização criminosa que controlaria o submundo da sociedade do futuro. Tomei a liberdade de imaginar que seria legal interpretar a situação, no que dizia respeito ao Grupo, como nos primórdios da República Romana, com um triunvirato no topo da pirâmide.

   O que move uma boa história é o conflito, e a palavra-chave para entender o triunvirato romano era traição. Assim, o Grupo tornou-se um ambiente perfeito para os personagens ambíguos de Rainha das Estrelas, um bando de veteranos de guerra, contrabandistas e piratas. Promovi Mamba Mauzh, que era um engenheiro-chefe da tripulação original, a uma das três cabeças do Grupo, deixando-o em rota de colisão com os outros dois sujeitos “simpáticos”, Ronston e o Sátiro. Mamba trata de contrabando, Ronston é responsável por grandes assaltos e o Sátiro é o especialista em... bem, coisas diferentes (que os leitores só descobrirão lendo Rainha das Estrelas - Dias de Sangue na Área Vermelha, publicada pela Editora Draco, na antologia Space Opera 2).

  O texto abaixo, inédito, mostra os motivos pelos quais Mamba vira persona non grata para o que restou do Triunvirato e deixa o escritório confortável para tornar-se um fugitivo tanto do Grupo, quanto da Coroa.   
 
 

    Uma das regras básicas do Grupo postula que os melhores reféns são aqueles que não sobrevivem após o recebimento do resgate. Amélia sabia que não sairia viva.

   O problema, porém, não era ela, isso já estava decidido, mas sim o futuro de Aniri, sua filha. Era pela menina que Amélia precisava trair o único sujeito digno na maior organização criminosa de Ryoh, o que, para início de conversa, já soava contraditório.

     Quando recebeu a primeira mensagem com remetente oculto em seu PorTel avisando que o hospital onde Aniri estava internada sofreria uma ataque à bomba, Amélia pensou que poderia ser um trote. Ainda assim transferiu a menina para uma clínica mais próxima de casa. Quando a Ala Oeste do hospital virou pó, teve certeza que estava perdida.
      
    Dois dias depois do atentado, outras mensagens, aterradoras, chegaram. No mínimo três por dia. Amélia cumpriu as ordens e procurou Mamba Mauzh chorando pela vida da filha presa a uma cama de hospital que não podia pagar (uma mentira deslavada, pois a menina era sustentada pelo pai, ao menos isso o desgraçado fazia). Pediu ao namorado de infância um emprego onde quer que fosse. Claro que ele investigou a história, mas deu com os despistes plantados por seus pares – coisas como fichas médicas adulteradas e planilhas hospitalares falsas – e ofereceu-lhe um emprego como sua secretária. Gastou um tempo explicando o óbvio, que ninguém poderia saber de nada e que, uma vez no Grupo, adeus à vida inocente, para sempre culpado. Ela disse sim.

    Amélia foi perfeita e, em menos de um mês, Mauzh fez dela sua assistente direta. Sabia onde ele estava e organizava a agenda, passando a limpo cada passo, cada ligação, cada contato, enviando relatórios ao fim do dia para seus reais empregadores: os outros membros do Triunvirato.

   Ronston e Confort desconfiavam de Mauzh, não porque passou boa parte da vida como contrabandista, mas por ter sido engenheiro-chefe numa missão em que confraternizou com os soldados de dentes vermelhos da Coroa. Por mais competente e fiel aos ideais do Grupo, havia o receio de uma traição e aplicavam em Mauzh a regra básica número dois.

   A única atitude que previne traições é trair antes.

    Foi por isso que, assim que percebeu a reação de seu chefe à notícia do surgimento de um certo Argos no aeroespaçoporto, Amélia informou imediatamente aos outros dois líderes. Não tinha ideia, entretanto, que fosse algo tão sério a ponto de Ronston e Confort causarem tanta confusão. Mandaram uma tropa de vinte homens para neutralizar Mauzh e seus amigos antes que pudessem arquitetar um plano de resgate.

    Pelo visto, muita gente estava atrás do tal Anton Argos.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Fome sem fim - uma cena de Rainha das Estrelas

Caríssimos, há um mês a editora Draco lançou a antologia Space Opera 2,  que contém, ao lado de obras de alguns dos melhores autores de FC do Brasil, como Fábio Fernandes, Carlos Orsi e muitos outros, uma noveleta chamada Rainha das Estrelas - Dias de Sangue na Área Vermelha. Escrevi o embrião dessa história estelar ainda na faculdade, nos corredores da Escola de Belas Artes, influenciado pelas cenas e personagens criados por meu amigo Osmarco Valladão. Décadas se passaram até que, respondendo ao convite de Hugo Vera, achei que deveria ressuscitar os rascunhos e recompor o universo rocambolesco de Rainha das Estrelas.



O resultado foram muitas páginas de ação ininterrupta que não chegaram aos leitores por questão de espaço. Por isso resolvi publicar cada uma das cenas aqui no blog e aproveitar para convidá-los a ler a versão impressa dessa space opera descabelada.

É bom que os leitores recém-chegados saibam que, em Rainha das Estrelas, a humanidade deixou a Terra há milênios e cada nação humana ganhou um planeta para governar. Veracroce, claro, é o Brasil, e cada uma das antigas cidades, com seus hábitos e costumes, tornou-se um país. Ryoh, território onde se passa a história, é governado há gerações pelo clã Delenda e encontra-se às portas de uma guerra civil, onde militares, o clero e o crime organizado estão em rota de colisão.

A cena abaixo apresenta um dos protagonistas da história, o Coronel Raga, um ciborgue taciturno e militar honrado, responsável pela caça e extermínio dos inimigos da Coroa. Também temos uma visão um pouco mais detalhada do príncipe Lorcas Delenda, último herdeiro da Casa Real e uma personalidade, no mínimo, curiosa.

Bem vindos a bordo, ou, como diria a tripulação da nave que dá título à história, “rum e glória!





    Ahmed Alexandrovitch Raga controlava a situação. O animal estava morto, apenas não sabia.

    Mira ajustada. Silêncio absoluto, mas o bicho ainda não se sentia seguro para a investida. E não seria honroso se não houvesse um ataque. Raga tinha de esperá-lo sair. Uma partida com chances iguais.

    A moita à esquerda do alvo farfalhou, o que acrescentava outro ingrediente ao dilema. Um tempero almiscarado.

    A narina direita de Raga captou o cheiro e a parte artificial de seu corpo adaptou-se à nova ameaça. Isso era injusto. Desativou o sistema automático com um toque da língua em um dente molar. Seria mais correto se dependesse apenas de suas habilidades manuais.

    A moita balançou, mais decidida. Raga manteve a mira no alvo inicial. O dedo repousava sobre o gatilho do fuzil e nada o tiraria dali a não ser a cara do adversário. Tudo era uma questão de quem desistiria primeiro.

    Então começou. O ruído do galope demorou a soar na floresta recém reconstruída. Galope não seria bem o termo, já que as patas se moviam de maneira diferenciada, como se o monstro corresse no sentido humano do termo, só que usando quatro patas. O tapir apontou a tromba dentada que, caso atingisse o alvo, o atravessaria como uma lança.

    Raga pressionou o gatilho. E o velho fuzil Enfield engasgou. A moita lateral abriu-se e deu lugar à cabeça de outro tapir, bramindo. Raga não se permitiu a distração. Abriu o fuzil e recarregou enquanto duas toneladas de carne avançavam.

    Quando voltou à posição de tiro, o primeiro monstro estava a dois passos de distância e o segundo atacava pelo flanco esquerdo. A mira não foi perfeita, mas o disparo atingiu a boca da fera. Apesar de tonto, o atacante não reduziu a velocidade, obrigando Raga a saltar para o lado antes da massa de carne trombar com o outro tapir, que caiu desajeitado.

    No carro lotado de membros da Coroa que assistiam à luta entre o marechal e os tapires, o coronel Cassis fez menção de sair em seu auxílio, mas Raga jogou fora o rifle carregado com projéteis anestésicos e acionou o sistema automático do exoesqueleto. Não tinha programado uma caçada sem armas de fogo, mas aproveitaria a oportunidade. Assumiu posição de ataque e esperou pelo segundo tapir. Assim que o bicho apontou a tromba dentada, Raga posicionou-se a seu lado. Com a mão mecânica agarrou-lhe a orelha e, fixando as pernas reforçadas por hastes metálicas no solo, puxou-o para baixo a ponto de expor o queixo do animal a um chute impulsionado por micro servomotores.

    O segundo tapir caiu a poucos metros de seu companheiro. Raga não se deixou levar pela vaidade. Não havia glória em vencer animais. O verdadeiro prêmio seria disputado em outras áreas. Ainda assim, havia o protocolo e qualquer vitória deveria ser ofertada à Coroa.

    O príncipe Lorcas Delenda, envolto numa elegante camisa estampada que pretendia funcionar como camuflagem de selva, e portando um chapéu de abas largas, aplaudia.

    – É sempre um prazer vê-lo em ação, Ahmed – disse – Às vezes penso que deveríamos erigir templos em honra a Anton Argo por ter jogado um cruzador espacial em você. Sua reconstrução cibernética foi uma benesse imprevista à Coroa.

    Se a piada o ofendeu, Raga não deu sinais de constrangimento. Como não sabia com qual dos Delenda falava, se o vivo ou um dos mais de setenta mortos, limitou-se a baixar os olhos.

    – É uma honra saber que minha atual condição é motivo de júbilo para Vossa Majestade.

    O príncipe ignorou a resposta atravessada e mudou de assunto.

    – E então? Teremos filé de tapir no jantar? Mando minha equipe de cozinheiros preparar os animais?

    – Infelizmente não recomendo, senhor. Os tapires de tromba dentada são muito nervosos. O sangue deve estar poluído por substâncias tóxicas advindas da raiva e do medo, sem falar no teor do sonífero que usei para derrubá-los. Lutaram com bravura, deixe-os viver.

    Lorcas Delenda olhou para o resto de sua comitiva de cinco homens apertada em dois bancos e acenou. Em resposta, saltaram do veículo e correram em direção aos animais adormecidos portando cutelos e escalpeladores.

    – Não precisa se preocupar com nossa saúde, Ahmed, temos antídotos para todo tipo de veneno – e puxando a aba do chapéu para cobrir os olhos, completou:

    – A Coroa tem fome.