quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Argonauta - cena especialmente criada para Rainha das Estrelas, por José Antônio Oliveira

  Foi com um misto de surpresa e alegria que, na semana passada, fui surpreendido pelo texto abaixo,  escrito pelo designer e professor universitário José Antônio Oliveira, a respeito de uma ação “solo” de Anton Argo, o comandante de Rainha das Estrelas.


José Antônio “Argo” Oliveira

  Um dos aspectos da série é que, quando Osmarco Valladão a desenvolveu, há exatos trinta anos, partia de características de alguns colegas de faculdade para construir as personalidades dos membros da tripulação da nave pirata. O destemido comandante Argo foi baseado em mais de um aspecto do próprio José Antônio, que agora retoma o personagem que, de certa maneira, é seu por direito. Num acesso de criatividade, Zé Antônio desenvolveu as bases familiares de Argo e sua gênese, atribuindo até amizades insuspeitas com outro personagem, o Coronel Ahmed Raga.

  Assim, sejam bem vindos ao momento em que Argo planta a semente de uma eventual vingança contra todos que decidirem tomar o poder.


***

Interstellar Queen, por Lee Wright Madison

  O som era persistente. Como um zumbido. A consciência foi voltando aos poucos. Apesar do sono era preciso despertar. A mão instintivamente procurou o sensor de interrupção. Ao abrir os olhos, a porta da câmara de animação suspensa ainda não havia destrancado. Mesmo sendo cristalina a sensação era de claustrofobia. Como sempre. O ar da nave era o mesmo da caixa, mas ele inalou fundo tentando conter a ânsia de vômito. Como sempre. Mesmo estando só na nave, se sentia ridículo, nu. Precisava de uma ducha e café. Foram semanas em estase, mas isso não aplacava o cansaço, a falta de sono anterior e a irritação. Era animação suspensa (quem foi o cretino que deu esse nome?) e não sono. O brilho na tela que fazia as vezes de janela pareceu despertá-lo. Lá estava o sol. 

  Não o Sol, mas um igualzinho àquele que a humanidade abandonou há milênios. O lendário e distante Sistema Solar primordial, o berço da humanidade, era proibido, e tudo que havia nele de importante fora saqueado ou transplantado para outros planetas. Ou assim diziam as autoridades.

  Anton Argo iniciou os procedimentos de aterrissagem. Mas, mesmo que houvesse outra opção, ele iria em frente. Aos 23 anos descobriu que os pais, irmão, tios e primos eram seres humanos maravilhosos, que eram tudo... menos seus parentes. Sempre gostaria deles, mas a descoberta sobre sua origem quebrou alguma coisa em sua mente. Fruto da mais avançada engenharia genética, combinada com biônica e implantes de memórias, fora um dos mais acalentados projetos dos Laboratórios, nome que se usava para aquela divisão da Coroa que, oficialmente, nunca existiu, mas respondia pelas mais inovadoras experiências. Como seria de esperar, ética não fazia parte do currículo dos profissionais selecionados para trabalhar ali. 

   Argo era um estrategista perfeito, um guerreiro destemido, líder carismático, idealizado para comandar tropas. Mas a consciência do que era e de quem era tornou-o um rebelde, incapaz de aceitar autoridades, debochado, cético e cínico. Foi preciso simular a própria morte para se liver desse passado e reaparecer tempos depois, comandando aquela que seria a mais lendária das naves da guerra contra Biktúpia, a Rainha das Estrelas.

  Montou, juntamente com seu parceiro de academia, Ahmed Raga, a mais ousada, corajosa - e divertida - tropa de rebeldes. Se autodenominaram piratas. Tornaram-se mitos e, quando foram traídos e dispersos, ele morreu novamente. E mais uma vez não era verdade.

Todo o Sistema Solar, e principalmente a Terra,  era zona proibida pelos governos dos planetas humanos, o que incluía Veracroce, desde a Grande Diáspora. Oficialmente, quem se expusesse à sua atmosfera, morreria em poucas horas. Uma morte pavorosa, deteriorante, dolorosa. O pequeno planeta já não era mais azul, consumido por pestes e calamidades desde o derretimento das calotas polares. O equador se tornou a única região possível de abrigar vida, o que não eliminava a possibilidade de morrer instantaneamente, vítima dos quinze graus negativos, temperatura vigente na época do antigo verão.  Muitas das relíquias, símbolos de liberdade, documentos importantes na evolução social do homem, obras de arte que moveram povos, textos capazes de influenciar nações foram acondicionados em naves especiais e realocados em santuários espalhados pelos novos planetas. Veracroce também tinha sua cota de raridades e Argo conseguiu a localização de uma delas, em pleno território dos Quequiés.

   Logo a Terra Prometida apareceria no visor e, em pouco tempo, ele procuraria algo que enfraqueceria o poder dos Delenda ou de qualquer outra autoridade que viesse depois da morte dos tiranos. 

   Então só restaria o medo. O que, afinal, não era grande coisa.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Dois contra a Coroa – uma cena perdida de Rainha das Estrelas


  Anton Argo, o lendário comandante da Rainha das Estrelas, nasceu como uma paródia. Ele era originalmente um capitão Kirk, pegador, esperto, jogador de poker, e herdeiro do nome do capitão Argo, do anime Patrulha Estelar, além de uma referência a Jasão, líder dos Argonautas, o primeiro supergrupo da história da literatura. 

Argo (com “s”): esboço de O. Valladão (1982)

  Exatamente por seu caráter icônico, Argo quase nunca aparece diretamente na primeira história de Rainha das Estrelas, publicada em Space Opera 2. Trata-se de um símbolo, um ídolo inatingível e, como tal, irretratável. Vemos Argo como um fantasma assombrando os outros personagens e, na primeira história, a participação dele, apesar de decisiva e radical, é quase sempre vista de longe. 

  Mas no futuro, Argo voltará. Para mim, Argo é Danton, grande nome da Revolução Francesa, nêmesis de Robespierre (que, no meu entender, é representado pelo coronel Raga, em Rainha das Estrelas). Danton era mulherengo, um político astuto, que negociava com jacobinos e girondinos (e até com a monarquia), um advogado talentoso que também entendia de estratégia econômica.

  O que Argo apronta no cenário de Rainha das Estrelas vai muito além de meramente uma revolução. Ele sedimenta o poder em torno de si próprio, mas sem assumir o papel central, por meio de um estratagema cruel e arriscado. Ele pagará preços altos por sua ousadia, como o Danton de nossa realidade, mas nem por isso desistirá de seus intentos.

  No texto abaixo ele é visto como parte da construção de Mamba Mauzh, mas sua influência é clara e permeia toda a narrativa. E sim, a origem dele, completa, aparecerá em breve.

Influências: mercenários, Danton, Kirk e... Argo

    Anton Argo foi o primeiro amigo de verdade, daqueles que não exigiam nada em troca, mas que também não eram passíveis de manipulação por lisonja. Maury o encontrara algumas vezes e até trocou um dos conversores eólicos de seu autogiro, mas nunca trocaram palavra. Ainda assim, Argo, com sua jaqueta de couro clorado e as botas de cano longo próprias para terrenos inóspitos, parecia conhecer o rapaz e ofereceu ajuda.

     Maury decidiu que não poderia manter o nome de batismo por causa da perseguição da Coroa. Claro que não demoraria para ligarem o rapaz que roubou o motor da máquina da Coroa à mortandade na casa de Francis Rotta. Precisava de outra identidade e o nome parecia óbvio.

    Tornou-se Mamba e foi apresentado ao mundo de Argo, no qual dinheiro era o resultado do somatório de sangue frio, improviso e representação. Para alguém acostumado a depender da lábia, fez carreira contrabandeando de tudo, desde cápsulas de silício das praias do planeta Edo – que diluídas em uma solução especial, eram utilizadas como estupefaciante – até relíquias das Monjas Rubras, como vibradores sagrados e lubrificantes bentos.

    O sobrenome Mauzh, corruptela em uma das línguas antigas do nome do único mamífero que compartilhou a Grande Diáspora com os seres humanos, veio do hábito de armazenar um pouco de tudo que negociava. Cinco por cento de qualquer produto era armazenado nos fundos de um galpão, a primeira de várias Tocas do Rato.

   Em dois anos, as Tocas eram mais de dez e os lucros da dupla Argos-Mauzh acompanhavam o progresso. Sem falar na operação que catapultou a fama da dupla: o assalto ao comboio interestelar de Edo, quando embaralharam as comunicações dos aeroespaçoportos e invadiram cinco cargueiros espaciais, roubando toda a carga de cereais destinada a cinco países de Veracroce debaixo do nariz da Coroa de Ryoh e dos outros governos planetários. Com tantos grãos, nunca o mercado negro foi tão branco.

    Depois disso, no meio da fartura ilegal, Raga apareceu por lá, na Toca original, com uma proposta irrecusável. Também trazia soldados, armas especiais e um bando de prisioneiros, homens de diversas colônias penais de Ryoh e além. Dentre os facínoras, um se destacava pela magreza, a pele muito branca e os óculos especiais.

    Foi assim que Mamba Mauzh conheceu Singapura Sling.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A ira do Deus da Colheita - uma cena perdida de Rainha das Estrelas

  A origem de Mamba Mauzh, segundo Osmarco Valladão, reside nas páginas de Moby Dick. O visual tatuado, a constituição física de um gigante. A religião totêmica. Ele é uma resposta ao Queequeg, o selvagem arpoador de dentes serrados do romance de Herman Melville. À essa imagem poderosa, coube a mim construir um passado digno e decidi que, em primeiro lugar, Mamba deveria ser um título e não apenas um nome. 

  Imaginei que nada mais brasileiro que a capacidade de batucar um sambinha em qualquer superfície, em qualquer situação. Se Veracroce é o Planeta Brasil e Ryoh, o Rio de Janeiro, Mamba Mauzh deveria ser originário de algum estado como Bahia ou Alagoas, mas preferi deixar indefinida sua origem, destacando a malemolência, a qualidade de ser um bamba do ritmo, a alma da festa. Samba, bamba... mamba.

   Estava definido o motivo do nome. Restava posicioná-lo no cenário de Rainha das Estrelas. Eu sabia que ele era considerado um mago da mecânica, mas precisava definir como teria chegado a esse ponto de genialidade. Pensei que o melhor seria juntá-lo a Argo, o comandante dos piratas, o mais rápido possível (curiosamente, em sua versão de Star Trek, J. J. Abrams mostrou algo parecido entre o jovem capitão James Tiberius Kirk e o engenheiro Montgomery Scott) e fazer com eles uma dupla de ação que antecederia a tripulação da Rainha das Estrelas. 

  Fiz do futuro engenheiro um pária, joguei-o na rua, nas oficinas, cumprindo à risca a regra de Stephen King: se quer construir um bom personagem, faça-o sofrer. Mamba Mauzh virou meu David Copperfield, mas sem a choradeira. 

  Se vivesse na Inglaterra vitoriana do romance de Dickens, provavelmente Mauzh passaria a perna no vilão Uriah Heep e, sorrindo, fugiria com o dinheiro roubado.

Abaixo, uma cena da versão de Moby Dick (1998), onde se apresenta Queequeg, a grande influência visual para Mamba Mauzh.



***

    O nome não era Mamba e a história do apelido é digna de ser repetida. O último de uma ninhada de quize, Mamba Mauzh sempre foi diferente dos irmãos, voltado ao poder das coisas, ao porquê do mundo. Essa atitude, numa família de quequiés, afeitos ao culto à natureza, à imutabilidade de tradições e às tatuagens tribais, foi motivo de represálias.

    Dizem que os quequiés nasceram de uma resposta ao consumo exacerbado que destruiu boa parte do mundo pré-diáspora. Seus fundadores teriam decidido nunca tirar do ambiente mais do que necessitassem, nunca questionar as decisões do acaso, viver com o que o destino os provisse. Para o pequeno Maury isso nunca foi uma atitude inteligente e, em consequência, apanhou durante toda a infância, não dos pais, mas de todo o resto. Foram anos dedicados ao aprendizado do funcionamento das máquinas proibidas, que roubava dos visitantes, dos turistas, dos atravessadores que negociavam com os pais e outros agricultores da faixa verde que separava as Áreas Amarela e Vermelha.

    Um dia, a oportunidade perfeita apareceu na forma de um multidebulhador trazido por representantes da Coroa, que tentavam convencer os quequiés a potencializar a produção. Não fosse pela intervenção do pai de Maury, os engenheiros agrícolas da Coroa teriam sido mortos e oferecidos ao deus da colheita com cara de tubérculo ali mesmo. Enquanto seu pai dialogava com a turba, tentando salvar a vida dos Primevos e evitar um massacre posterior da parte dos dentes vermelhos, Maury convenceu dois dos irmãos mais novos a ajudá-lo a roubar o motor do multidebulhador.

    Maury passou duas semanas mergulhado nos segredos da peça mecânica até que um dos meninos abriu a boca a respeito da aventura ocorrida no dia do quase linchamento.

    – Você desonrou a Marca da Hombridade que traz em seu rosto desde o nascimento – proferiu o Pai de Maury – Fui eu que marquei sua pele quando completou três meses e o fato de você a macular também me torna indigno.

    Foi o suficiente para Maury ser expulso de casa, mas antes teve de conversar com os irmãos e convencê-los a ficar com uma mentira apaziguadora. Depois, já com a bagagem arrumada, sentiu remorso. De uma maneira ou de outra, acabava manipulando as pessoas que amava. A mãe permaneceu em silêncio enquanto desaparecia sob o umbral da porta. Nunca mais a viu.

    Na estrada, tomou o caminho do pequeno aeroporto, triste, mas cheio de ideias envolvendo motores, combustíveis, baterias e velocidades absurdas. A falta de um registro oficial impediu que assumisse um cargo como aprendiz no aeroporto. O chefe da equipe de reparos, sujeito gordo e falastrão, mas com bom olho para talentos, convidou-o a integrar a equipe de sua oficina particular, que atendia aos aerocarros e autogiros dos Primevos da região.    

    Foram bons dez anos com Francis Rotta, que além de mecânica, ensinou tudo que sabia a respeito de música e fez de Maury um Mamba, alguém capaz de dominar qualquer tipo de ritmo.

    – És um talento, rapaz – disse uma vez, numa noite de bebedeira. Maury tocava um conjunto de percussão polirrítmica e era a alma da festa. A comemoração acabou ao amanhecer e Maury dormiu junto ao instrumento.

    Quando acordou, a vida tinha mudado outra vez.

    – Levanta, cara – disse o homem que Maury viria a conhecer como Anton Argo, ajoelhado ao lado de sua cabeça que ainda zunia por efeito dos tambores – Alguém armou para você.

    Ao redor deles, todos os participantes da festa jaziam mortos, como se o deus vingativo de seus pais tivesse resolvido fazer uma colheita.

domingo, 11 de novembro de 2012

Storyboard animado inspirado em Interstellar Queen, de Stephen Cowley

O amigo e cineasta Roman Bruni experimentou uma pequena animação sobre a ilustração Interstellar Queen, de Stephen Cowley, uma das influências da Rainha das Estrelas. É rapidinho, mas divertido.



E é sempre bom recordar que a promoção Rainha das Estrelas - Space Opera 2 continua! É só curtir a fanpage de Rainha das Estrelas para concorrer a um livro Space Opera 2, da Editora Draco, e a uma ilustração de Manoel Magalhães (de The Long Yesterday, O Instituto e do recentíssimo O Coronel, que sairá pela editora Nemo). Corre lá!

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O Proscrito - uma cena perdida de Rainha das Estrelas

    Alguns personagens de Rainha das Estrelas sofreram mudanças estéticas, psicológicas ou, em um caso específico, gráficas. Originalmente, Conrad Lohd, o talentoso filho rebelde de um oficial da Coroa, chamava-se Lord Conrad. Tratava-se, como se pode perceber, de homenagem de Osmarco Valladão ao escritor Joseph Conrad e seu mais famoso personagem, Lord Jim.

    Jim, herói relutante, homem de ação que não se sentia a vontade no papel de ídolo, era excelente template para o personagem, mas, quando assumi a história, percebi que ele tinha muito dos protagonistas de Alexandre Dumas, um mix de Edmond Dantés, D’Artagnan e Aramis.

    Assim, para deslocar a referência direta e imediata, optei por inverter os nomes. Conrad virou nome de batismo, enquanto Lohd tornou-se nome de família, porque, além de uma proximidade gráfica com o termo
Lord,  a fonética o avizinhava aos nomes afrancesados de Dumas (leio Lohd como Lâ-d, com o h pronunciado como um r aspirado).

    Conrad Lohd, infelizmente, quase desapareceu na versão impressa de
Rainha das Estrelas, mas no trecho a seguir conhecemos um pouco de seu passado, pecados e caráter multifacetado. Como todo bom herói de Dumas, Lohd é movido por paixões variadas, nem todas dignas de admiração, mas, como Lord Jim, em momento algum deixa que isso macule a percepção de seu papel do mundo.

Lord Jim, Conde de Monte Cristo e Aramis, bases para Conrad Lohd

    Conrad Lohd era um piloto excelente, mas não teve paciência de construir uma carreira militar na Academia da Coroa. Aos doze anos, sob o olhar complacente do pai, talentoso comandante da força aérea, assumiu o manche de um velho supersônico e realizou um pouso perfeito do ponto de vista técnico. Foi o que o estragou para sempre.

    Passou boa parte da vida escolar em detenção por fugir do internato para noites de bebedeira. Depois de várias tentativas, uma noite, com a ajuda de dois colegas, roubou um hipersônico durante a madrugada. O barulho da decolagem alertou a todos e logo o jovem Lohd recebia ordens para voltar à base.

    A barreira do som foi a primeira de várias coisas rompidas naquela madrugada. Ao retornar, Lohd calculou mal a velocidade e desceu os trens de pouso muito tarde. Sem as rodas, a aeronave bateu com a barriga na pista e deslizou a 300 km/h, quebrando a asa direita e desviando em direcção à torre de controle. Em defesa de Lohd, pode-se dizer que ele tomou todas as atitudes recomendadas em situações desse tipo, manobrando os flaps e segurando o avião no manche, mas a ausência dos cabos de aço que, em situação normal estariam estendidos na pista, impediu que o gancho de segurança localizado na parte traseira da aeronave reduzisse a velocidade.

    O resultado foi contado em trinta corpos carbonizados, incluindo três de seus instrutores e o velho comandante Lohd, que foi chamado para tentar trazer o filho à razão. O menino de 14 anos foi preso, julgado e condenado.

    Houve quem exigisse a morte, mas a mãe levou o julgamento às massas, transformando-o num show, alugando e ocupando diversos espaços na OmniWeb e forçando a revisão da sentença. Conrad Lohd, assim como aconteceria depois com Ockham da Casa de Erin, virou um ícone midiático. Transformou-se em ídolo popular graças às hordas adolescentes bombardeando todos os meios de comunicação com vírus intitulados Salvem Nosso Lohd.

    Com a sentença comutada para banimento, Conrad Lohd mudou-se para a Área Amarela, mas com muito mais conforto que qualquer outro exilado. Um apartamento amplo no vigésimo andar de uma torre com vista para o belo Parque Rômulus, que ainda guardava alguma flora pré-colonização.

    Lohd teve uma boa vida durante quatro anos até que a morte de sua mãe acabou com o dinheiro. A necessidade de cobrir seus gastos com mulheres e autogiros fez com que voltasse à paixão original e passou a oferecer serviços de carga e transporte para quem pagasse melhor. Cinco missões arriscadas, do tipo que ninguém aceitaria, foram o suficiente para chamar a atenção de Anton Argo, que montava uma equipe para efetuar ataques cirúrgicos a cargueiros da Coroa. Foi o convite que definiu a escolha da nova carreira de Conrad Lohd.

    O filho proscrito da Classe Dominante tornou-se um dos famosos piratas de Ryoh.

Lohd, num estudo rápido a pincel, por Octavio Aragão

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O último dia de Cassis - uma cena revisada de Rainha das Estrelas

Trem submarino japonês, inspiração para o transporte da Coroa

  A pequena cena abaixo foi publicada com diversas alterações na versão final de Rainha das Estrelas, lançada pela Editora Draco dentro da antologia Space Opera 2. Além dos dados técnicos relativos ao trem particular do coronel Raga, extrapolados de um projeto de trem submarino japonês, perderam-se os detalhes de um dos coadjuvantes mais potencialmente ricos da história, o major Cassis, braço direito do coronel ciborgue. É com o major que temos uma visão familiar, talvez a única em toda a história, fora os detalhes domésticos do próprio Raga. Blancha, esposa de Cassis, é uma personagem que não pertence a seitas, castas ou camarilhas. Ela é esposa e mãe, mas nem por isso menos atuante ou influente, ao menos em seu círculo. Assim como a minha visão de Raga se baseia em Robespierre, a relação do casal Cassis é próxima (mas não igual) ao drama de Camille e Justine Desmoulins, que viveram papéis centrais durante a Revolução Francesa.

  O Cassis original era um piloto da Rainha das Estrelas, parte da gangue capitaneada por Anton Argo. Na nova versão, ele é um oficial da Coroa treinado por Raga que participou das aventuras anteriores e, por causa de sua relação com os piratas, tornou-se o terceiro mais competente dos oficiais sob o comando do coronel. Abaixo, pode-se ver duas versões do personagem, uma no lápis de Osmarco Valladão, datada de 1983, e outra por mim mesmo. A cara de Che Guevara, com boina e tudo, cria um contraste interessante com o uniforme de gola alta da Coroa, todo certinho. Infelizmente, o que se lê é o prenúncio de sua última missão: transportar um prisioneiro importantíssimo que também está na mira do Grupo, a principal facção criminosa de Ryoh, e dos antigos colegas da tripulação da Rainha. A identidade do prisioneiro é um dos pontos principais da trama e, para saber de quem se trata, só lendo a história completa.

O Cassis contemporâneo e, no detalhe, em 1983, por Osmaco Valladão


   O major Claude Cassis quase sentia pena do prisioneiro. Como se não bastasse ser enviado aos porões do Quartel Insular da Coroa – também conhecido como a Casa de Praia de Raga – de onde ninguém escapava, embarcaria num subtrem que cruzaria parte do oceano, escoltado por uma tropa de elite de soldados da Coroa. O subtrem, que pesava 12.400 toneladas e atingia a velocidade mínima de quinze milhas náuticas, media 166 metros de comprimento por vinte e três metros de largura. Sua capacidade de carga poderia transportar 4.200 toneladas de locomotivas e carros, quarenta cargueiros ou dezoito compartimentos para viajantes além de 1.360 passageiros. Tudo isso seria disponibilizado para o traslado de apenas um prisioneiro. A honra de comandar a operação coube ao próprio Cassis, já que Raga estaria ocupado com os detalhes que definiriam o sucesso da missão.

    Beijar as crianças ao sair de casa foi a coisa mais difícil que Cassis fez na vida. Dessa vez, Blancha não fez questão de despedidas. Apenas acenou pela porta entreaberta do quarto, sem se dignar a virar o rosto ao som dos lábios nas bochechas dos meninos. Estava cansada das promessas, das ausências, da subserviência e, principalmente, da onipresença de Raga em sua casa a qualquer hora. Depois da morte de Tchiba Marchallus, Cassis tornou-se o único apoio do general, peça indispensável e insubstituível de todos grandes planos de Raga para salvar a Coroa de seus inimigos e, na maioria das vezes, de si mesma. Pelo pouco que se importou em ouvir, parecia que a ideia era mais tortuosa e complexa que o normal, visando libertar a nação da dependência da importação de combustível mineral. Se tivesse prestado mais atenção, Blancha teria feito o possível para impedir a partida do marido, mas como quase sempre acontece com casais há muito unidos, as birras ganham mais importância que os motivos que direcionam as vidas extra-familiares dos cônjuges.

    Talvez, se Blancha usasse sua influência sobre Cassis, o subtrem partisse sob as ordens de outra pessoa menos ciosa de seus deveres e dívidas. E talvez estivessem todos vivos agora.