quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Minha vida em filas (ou "por que as pessoas não podem ficar em silêncio?")

Eu (daqui por diante, denominado apenas como "O") – A senhora está na fila?
Senhora com cara de ameixa (daqui por diante, denominada como "SCA") – [Olhada de cima em baixo] Estou.
O – Obrigado.
Senhora com Guri Levado do Diabo (daqui por diante, identificada como "SGLD") – Para, Joãozinho. Vai cair daí, menino. Sossega. Já viu isso, senhor? Não para!
O – Tudo bem. Quando chegar a adolescência vai sumir de vista. Mal vejo o meu de 15.
SCA – Neto?
O – Não, filho.
SCA – Neto, né?
O – Não. Filho.
SCA – Filho?
O – [Sorriso reto, tipo faca de churrasco] Fi. Lho.
SGLD – Como assim, o senhor não vê seu filho? Para, Joãozinho. Olha que vou chamar seu pai.
O – Ah, ele se tranca no quarto. Às vezes mal sei quando ele está em casa.
SGLD – Mas que absurdo. Meu marido não deixava as filhas fazerem isso.
O – Ah, é mesmo? [Sorriso ganhando contornos de foice da bandeira da Rússia]
SGLD – Elas começaram com essa conversa de televisão no quarto e ele logo falou "vamos acabar com isso! Quero todo mundo comigo, na sala, vendo o Jornal Nacional". Pronto, acabou a palhaçada.
O – Claro, elas deixaram de fazer o que queriam e passaram a ouvir a litania de São Roberto Marinho. Tem certeza que essa foi uma tática interessante para reunir a família?
SGLD – [Olhos arregalados, gagueira] E-era o que tinha na época, eram os anos 70. P-para com isso, Joãozinho, menino danado.
O – Eu sei. Estive lá. Mas ninguém me obrigava a assistir nada, não senhora. Ainda acho que os guris hoje têm opções melhores com todos esses blogs e sites e o Youtube.
SGLD – Ãh… bom, por esse lado, talvez… mas não está certo deixar os filhos sozinhos.
O – Concordo, tem tanta coisa que não está certa, né? Mas cada um vive a vida como pode ou quer [abre o livro, volta a cabeça para as páginas. SGLD sai correndo atrás do moleque. Desaparece no horizonte de eventos]
SCA – O senhor está lendo o quê?
O – [Levanta a cabeça leeeentameeeente. Sorriso como a lua em solstício de inverno. Bota marcador entre as páginas. Fecha o livro. Entrega o volume de mais de 700 páginas nas mãos enrugadas de SCA, que não sabe o que fazer com o livro pesado]
SCA – [Observa a capa, onde se lê em letras garrafais amarelas sobre fundo verde "A Verdadeira História da FICÇÃO CIENTÍFICA] Sobre o que é?
O – [Sorriso afiado como a guilhotina que decapitou Robespierre] Está na capa, senhora.
SCA – Ah… Ficção científica [devolve o livro como se corresse o risco de alguma contaminação].
O – Obrigado [abre o livro, volta a cabeça para as páginas]
SCA – O senhor ja leu todo?
O – [Levanta a cabeça leeeentaaaaaaaaameeeeeeenteeeeeeee. Sorriso como uma segadeira automática em dia de colheita em pleno verão. Bota marcador entre as páginas. Fecha o livro] Senhora, como pode observar, o marcador está no meio do livro. No. Meio.
SCA – Ah. É mesmo. Desculpe.
O – Sem problemas [Abre o livro, volta a cabeça para as páginas].
SCA – Meus parabéns, viu? Com um avô inteligente assim, aposto que o NETO adora ler.

[Toca o sinal do colégio. Todas as velhinhas correm como lebres para entrar ao mesmo tempo pela porta por onde apenas uma, com sorte, passará com vida. Fecha o livro. Esquece de marcar a página]

sábado, 18 de agosto de 2018

Sobre navios em órbitas gravitacionais e outras questões graves

Corrosão é um romance corajoso. Daqueles que não têm medo de mesclar astro e metafísica como poucas vezes vi na FC feita no Brasil (e sei do que estou falando). As descrições das atividades à bordo para a “caça à baleia” têm a acuidade de Melville acrescidas à poética de um Bradbury em contos como Os Frutos Dourados do Sol. E isso porque não falei da personalidade da IA, tão bem construída quanto qualquer personagem de carne e osso (ou tinta e papel. Ou fótons e bytes). Não há necessidade de destrinchar os meandros da história. Melhor deixar o leitor com a seguinte imagem impressa (ênfase em “impressa”) no cérebro: há um navio fantasma em órbita. Suas caldeiras inativas guardam um mistério que espera pela maturidade das inteligências da Terra, sejam à base carbono ou silício, e apenas quando alcançarem o equilíbrio terão a chave da charada. Pela mescla de maturidade e temática, técnica e maestria, Ricardo Labuto Gondim é o grande nome da FCB desta década. E, já que tempo e espaço são o mesmo, também das que foram e virão.


Agora cabe uma pequena explicação, pois não costumo fazer resenhas de livros. Por que não faço? Simples: sou um cara que escreve umas histórias aí, de FC, horror, aventura e até policiais, mas com certeza não sou -- e nem pretendo -- ser um crítico.  Pois, vejam, um dos grandes problemas da Ficção Científica Brasileira é a indigência crítica. Isso é um sintoma histórico. Já tivemos autores que posavam de críticos, lançando mão de pseudônimos para agredir colegas e se auto-elogiarem. Também houve aqueles que, movidos por sentimentos questionáveis, organizaram linchamentos virtuais de obras. E também tivemos falsos ideólogos, manipuladores de discursos, que em outra situação seriam dignos de aplausos, para enxovalhar desafetos. Tudo isso regado, na melhor das hipóteses, por falta de embasamento, e na pior, por ausência de caráter.

Toda crítica é parte integrante da obra à qual se refere, acrescenta camadas interpretativas, colabora para sua sobrevivência, mas exige uma maturidade, uma isenção, um critério, uma base que a maioria dos críticos contemporâneos não possui. A avalanche de blogs, vlogs, triques e traques que proliferam hoje acaba se tornando mero truque para pedido de livros gratuitos. A FCB, principalmente, teria muito a ganhar com uma "Barbara Heliodora para chamar de sua", alguém com conhecimento de causa e respeitabilidade. Infelizmente, acho improvável que surja alguma nos próximos anos, já que a totalidade de nossos críticos almeja se tornar escritor e escritora. 

Porém, perdoem-me pela digressão. O que importa é que Corrosão é um excelente romance e Ricardo Labuto Gondim é um dos grandes. Todos a bordo.



sábado, 23 de dezembro de 2017

2017: um ano "duro"


Uma de minhas superstições mais idiotas diz respeito a anos ímpares. É idiota, porque meu pai morreu em 1980 e meus filhos nasceram em 2003 e 2009, respectivamente, logo, não faz o menor sentido. Mas é uma superstição, diabos, não se baseia em lógica, mas em um tipo meio primitivo de intuição. E, caramba, se houve um ano "duro" foi este, em vários sentidos. Mas vamos ao que interessa: a tradicional retrospectiva dos últimos doze meses.



Desde 2013, venho me dedicado a uma função que, mais uma vez, amplia o número de atividades que descobri ser capaz de fazer com algum desembaraço, ou seja, tradução de histórias em quadrinhos. Se até o ano passado a única que tinha visto a luz do dia tinha sido a primeira parte de Promethea, de Alan Moore e J. H. William III, em 2017 elas saíram da casca como uma ninhada de passarinhos de bico aberto e invadiram as livrarias: Apenas um Peregrino, de Garth Ennis e Carlos Esquerra; Elric, de Moorcock, Blondel, Cano, Poli, Reicht, Telo e Bastiche; Tom Strong, também de Alan Moore e Chris Sprouse, e o segundo volume de Promethea, tudo isso disputando a atenção do público consumidor de quadrinhos nas prateleiras. E mais, muito mais virá. Agradecimentos efusivos a Fabiano Denardin e Julio Monteiro de Oliveira pelas infinitas oportunidades que me deram.

Mas não foi só isso, né? Houve a segunda edição da SIQ – Semana Internacional de Quadrinhos da UFRJ, que organizo ao lado de Amaury Fernandes e que reuniu um grupo invejável de produtores de arte sequencial em maio e setembro, com as presenças de ícones mundiais, como Chantal Montelier e Trina Robbins. Foi insano, mas muito me orgulho desse evento, que se encaminha para sua terceira edição em 2018 (sim, estamos trabalhando nisso).

A equipe da SIQ ladeando Trina Robbins.

O que mais? O que mais? Ah, sim, claro… finalmente coloquei o ponto final em meu terceiro romance, A Mão Que Pune – 1890, uma história steampunk que funciona como uma prequel ao livro de 2006, A Mão Que Cria. Não, sem previsão de publicação ainda, senhoras e senhores, mas vamos tratar disso no ano que vem. No mais, um monte de contos, artigos e publicações acadêmicas diversas, orientações no mestrado do PPGTLCOM, gravações de videologs sobre quadrinhos com o amigo PH e a continuidade de projetos que ainda estão em andamento, como a HQ Psicopompo, com Carlos Hollanda e Osmarco Valladão.


Sim, foi um ano duro pacas em diversos níveis, mas plantei sementes que, com certeza, germinarão a partir de janeiro. Esperem e verão (ou inverno, outono, primavera…).

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Quanto mais eu rezo, mais plágios descarados aparecem

2013: uma cooperativa de quadrinistas brasileiros se reune e cria a QUAD, veiculando material de alta qualidade gráfica e cujo logotipo é apresentado abaixo.




OK, há alguns problemas de legibilidade, principalmente no "A", mas é indubitavelmente um logo original.

2015: uma rede de cinemas novaiorquina, curiosamente chamada "QuadCinemas", lança a "nova" identidade visual…



Pois é, né? Igual, igual, IGUAL.

Saída óbvia? Meter um processo na cara dos meliantes, certo? Não, errado. Parece, pelo que soube, que o criador do logo original considera uma "coincidência" e, pior, em caso contrário, para o designer brasileiro é um elogio ser copiado de maneira desavergonhada por uma empresa americana que, com certeza, deve estar faturando os tubos em cima da criação dele.

Minha opinião? Na melhor das hipóteses, uma ingenuidade. Na pior, uma vergonha. E por que levo isso tão a ferro e fogo? Porque não se trata de um caso particular, mas nacional. O designer que se permite roubar dessa maneira abre precedentes inaceitáveis para toda uma classe.

Como não sou o pai da criança, apenas me resta – como designer e quadrinista – denunciar esse absurdo e divulgar o mais que puder. Porque não há elogio na cópia, há desrespeito, há descaso, há ofensa. E nessas horas a lógica capitalista é muito útil. Exija seu respeito em verdinhas. Bata onde dói mais: no bolso.

Mas, bom, dos males o menor. Ao menos os plagiários fizeram o favor de corrigir o "A".

sábado, 4 de novembro de 2017

Memória, metrô e monstros malucos



– Nossa, seu cabelo ficou ótimo!
– Ah, obrigada.
– Está, lindo! Parece o cabelo da Francesca.
– Quem é Francesca?
– Francesca, aquela do desenho animado…
– Que desenho animado?
– Aquele… ela é uma boneca…
– Boneca? Tipo um travesti? Num desenho animado?
– Não, desculpa, é um desenho antigo… aliás, nem lembro direito se é um desenho… a Francesca é toda sexy, tem um cabelo igual ao seu, mas ela não é humana…
– A Francesca do desenho é uma boneca e não é humana. E o meu cabelo é igual ao dela.
– Peraí, não é isso… a Francesca é linda e ela quer namorar um rapaz, mas os monstros dão em cima dela. Meu Deus, não lembro o nome do desenho…
– Meu cabelo parece o de uma boneca que quer namorar monstros?
– Você não está entendendo, não é isso… é um elogio… seu cabelo está lindo…
– Olha, minha estação é aqui. Tchau, tá? Passe bem.
– Err… mas, olha, é um elogio! Está linda, viu?

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Novidades de Melniboné

Ao final deste mês de outubro, chegará às bancas o primeiro volume de Elric, O Trono de Rubi, álbum em quadrinhos baseado na obra de Michael Moorcock. Com roteiro de Julien Blondel e arte de um time de responsa encabeçado por Didier Poli, essa é considerada a melhor versão em quadrinhos pelo próprio criador do personagem. A edição brasileira é da Mythos e a tradução ficou ao encargo deste que vos tecla.
Eis aqui, em primeira mão, o booktrailer da HQ, que já mostra toda a riqueza do material.




quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Sobre arte, moral, ética e instituições privadas

Arte de Don Heck
Falando em censura/auto censura/bloqueio/etc, por conta da exposição de arte erótica suspensa pelo banco Santander, vamos recordar o que aconteceu com as HQs americanas nos anos 50? Pois então, um psiquiatra renomado decidiu achar um bode expiatório para a delinquência juvenil e resolveu culpar as HQ de horror. Montes de HQs foram queimadas, editoras faliram e os outros editores resolveram se auto censurar, criando um "código de conduta" moralizador para suas publicações.

Isso causou um retrocesso danado na indústria das HQ, do qual ela ainda não se recuperou por completo até hoje (sim, apenas agora as majors voltaram a lucrar muito, graças ao cinema, e algumas publicações voltaram ao mercado, como podemos ver nas imagens postadas por Kelley Jones e replicadas aqui nesta postagem). Se toda essa palhaçada moralista do Dr. Wertham tivesse sido tratada com as gargalhadas que merecia, se ninguém tivesse se auto censurado, se as editoras tivessem tido um mínimo de culhão e fincassem o pé, peitando os totalitários de plantão (que incluíam políticos) as coisas poderiam ter sido melhores para todos os envolvidos. Mas eram editoras, empresas que se borraram nas calças de medo de perder leitores, ou pior, cair nas malhas do macarthismo.

Reedições de clássicos da EC
Ou seja, da maneira que vejo as coisas, todo mundo pode dizer o que bem entender. A arte pode ofender, os ofendidos podem reclamar, o empresário pode se borrar todo e quem reclama de quem reclama também pode achar tudo um absurdo e proclamar sua raiva contra a suspensão da publicação/exposição. 

Agora, o que eu acho? Acho que empresas têm a terrível tendência moralista de se acovardar diante dessas ameaças financeiras. Aí, me vem à cabeça a coragem do Charlie Hebdô em se manter aberto e funcionando mesmo depois de ter sofrido um ataque terrorista e seus membros assassinados dentro da redação. Pagaram um preço alto por suas posturas (que muita gente, incluindo eu mesmo, acho questionáveis, mas nem por isso acho aceitável que alguém seja morto por causa disso).

O Dr Wertham estava correto? Não. Ele podia começar uma caça às bruxas? Ele achava que sim e tinha todo um estudo embasando suas teorias. As editoras poderiam sentir medo? Claro, como empresas tinham todo o direito de temer por seu prejuízo. Deveriam ter feito o que fizeram? Não (e a História prova que não mesmo).

Não parece familiar, respeitando as devidas proporções?

O medo é o assassino da mente, amigos. E aí reside o problema.