segunda-feira, 14 de abril de 2014

Palpites e pitacos: uma entrevista perdida sobre a ficção científica brasileira

Eis uma conversa encontrada em meus back ups, datada de 2004, com a pesquisadora da UERJ, Fabiana Câmara, sobre ficção científica, com ênfase na produção brasileira de minha geração. Claro que muita coisa aconteceu desde então, mas creio que a maior parte do que escrevi, por incressa que parível, ainda é minha opinião sobre o gênero e autores, o que significa que, na verdade, quem não evoluiu fui eu..

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Quando começou a ler FC?
Como acredito que os cânones da FC são parte inerente da cultura de massa, tive meus primeiros contatos com conceitos como viagens interplanetárias, viagens no tempo, clonagem ou pecepção extra-sensorial nos desenhos animados e HQs.

Em termos literários, considero A Chave do Tamanho, de Monteiro Lobato, o primeiro romance de FC que li na vida, em 1973, aos nove anos. Apesar de um clima de fantasia que daria arrepios em Júlio Verne, a visão de Lobato de uma humanidade miniaturizada subitamente jogada num universo hostil e buscando a readaptação é de um sense of wonder comparável às grandes obras de Wells (O Alimento dos Deuses), Matheson (O Incrível Homem que Encolheu) e Wyndham (Day of The Triffids). Outro dia li O Presidente Negro, outro romance de FC escrito em 1926 pelo mesmo autor, e fiquei apavorado com suas simpatias por ideias como eugenia e superioridade racial, mas isso não desmerece o valor dos livros infanto-juvenis, produzidos anos depois.

O segundo romance de FC que li, em 1974, foi Sabotagem no Planeta Vermelho, do francês Chistian Grénier, seguido de Xisto no Espaço, da brasileira Lúcia Machado de Almeida, ambos romances juvenis. Ou seja, meu primeiro contato com FC não foi com a vertente anglo-saxônica, mas com seu braço latino, nem sempre bem visto. Fausto Cunha, por exemplo, em seu ensaio sobre FC brasileira, critica a série onde foi publicado o livro de Grénier, considerando-o parte de uma produção de baixa qualidade literária. 

Pouco mais tarde, em 75, tive contato com Eu, Robô, de Asimov, e um livro que influenciaria toda minha vida: o fix-up Uma Sombra Passou Por Aqui (The Illustrated Man), de Ray Bradbury, também conhecido como O Homem Ilustrado. Bradbury passou a assombrar minhas redações de colégio e só perdeu o posto de meu autor preferido depois que li Histórias Extraordinárias, de Edgar Alan Poe, no ano seguinte. O último impacto relacionado à FC literária digno de nota de minha adolescência foi a coletânea de contos Sombras da Noite, de Stephen King, em 1979. Resumindo, pode-se dizer que fui influenciado pelos contos de língua inglesa e pela estrutura do romance juvenil brasileiro.

Qual foi seu primeiro contato com a FCB?
Como disse, considero A Chave do Tamanho meu primeiro contato com a FC literária de qualquer nacionalidade, mas colocando isso de lado, o primeiro romance de FCB que li foi Padrões de Contato, de Jorge Luis Calife, entre outras coisas por causa da capa, uma ilustração do casal Ingrid Von Steurer e GIlberto Zavarezzi, colegas meus da Escola de Belas Artes. Por causa desse romance, passei muitos anos sem me interessar pela produção nacional de FC.

Calife tem seu valor, sem dúvida, mas só me reaproximei da FC nacional quando comecei a frequentar as reuniões do CLFC do Rio de Janeiro e conheci trabalhos de Bráulio Tavares, Carlos Orsi Martinho, Fábio Fernandes, José Fernandes e Gerson Lodi-Ribeiro publicados no Somnium, o fanzine do clube. Quando li A Espinha Dorsal da Memória, coletânea de Bráulio Tavares, o conto O Inimigo Interno, de Fábio Fernandes, e uma aventura de horror contemporãneo de Carlos Orsi, onde ele misturava publicidade de jeans e magia, pensei "ah! Agora sim, tem algo realmente diferente na FC feita por brasileiros". Com o advento da versão nacional da Isaac Asimov Magazine, fiquei pasmo com a qualidade de contos como Complexo de Narciso, de Ivanir Calado, e A Ética da Traição, de Lodi-Ribeiro.

Quando começou a escrever e quais as principais influências?
Comecei cedo, aos, sei lá, nove anos, com textos curtos e muito apoio do meu pai. Geralmente pegava temas de redações escolares e desenvolvia em textos maiores em casa. Esse hábito durou até recentemente, quando reciclei algumas idéias da época do Segundo Grau no conto Os Olhos de Quem Vê, publicado no Megalon Especial 2000. Minha estreia profissional, porém, ocorreu apenas em 1998, com Eu Matei Paolo Rossi, publicado na antologia Outras Copas, Outros Mundos, da Editora Ano Luz.

As influências são difíceis de determinar, mas posso analisar alguns de meus textos.

• Íris Lettieri no Céu, de 2001, publicado no fanzine Hiperespaço: trata-se de um sonho transcrito quase ipsis-literis onde vejo ecos das crônicas de Carlos Eduardo Novaes;

• Armageddom em Madureira, de 2003, na edição especial do Hiperespaço: disseram que esse conto tem influências de Stephen King, mas na verdade é puro Ray Bradbury, com pitadas da mais reles Marvel Comics. O título e o plot inicial - o fim do mundo no subúrbio do Rio - veio diretamente de outro sonho, mas o conteúdo foi bastante alterado;

Os Olhos de Quem Vê, 2000, Megalon Especial: a base foram os contos "apaixonados" de Edgar Alan Poe, com suas mulheres diáfanas, fascinates e irremediavelmente mortas, mas há algo das obras de Richard Matheson, Bid Time Return (Em Algum Lugar do Passado) e I Am Legend (Eu Sou a Lenda);

Eu Matei Paolo Rossi, de 1989, publicaod na antologia Outras Copas, Outors Mundos: afirmaram que baseei o contexto desse conto no curta-metragem Barbosa. Pois bem, até hoje jamais assisti ao filme. As raízes de EMPR estão, mais uma vez, em Carlos Eduardo Novaes e Richard Matheson;

Um Museu de velhas Novidades, 2000, em Intempol: aqui sim, Stephen King é a influência principal, mas ainda há elementos de dezenas de fontes diferentes, de seriados de televisão a romances de Ian Fleming, de letras de canções de Cazuza a paráfrases de Nietzsche;

• Trevo, 2000, em Phantástica Brasiliana: Bradbury, Bradbury, Bradbury. O Bradbury de O Lixeiro e As Frutas no Fundo da Fruteira.

• A Mão Que Cria - romance de 2006, inicialmente concebido como uma novela para o site Hyperfan, em 2003: a mistura de Anno Dracula, de Kim Newman, e Os Portais de Anúbis, de Tim Powers, deu nessa novela fanfic Steam/Cyberpunk.

A que deve a situacão da FCB no panorama literário brasileiro atual?
Em primeiro lugar, vamos estabelecer que FC é, como o Rock'n Roll, um misto de produção cultural e atitude multimídia, certo? Ambos são fenômenos policulturais ligados à contemporaneidade. A FC brasileira existe e não existe. Dizer que ela é mal sucedida é fechar os olhos a sucessos televisivos como O Clone, e até a facção mais hard ganha inegável receptividade quando Calife lança seus trabalhos por editoras de renome, como Record e Nova Fronteira. Se pararmos para pensar, perceberemos que autores de porte – que jamais seriam considerados "de gênero" pelos críticos, público e até por si próprios – flertaram com a FC. João Ubaldo Ribeiro escreveu O Sorriso do Lagarto, para mm, uma clara referência/reverência à Ilha do Dr Moreau, de H. G. Wells; Novaes lançou nos anos 80 o romance futurista A Próxima Novela; Marcelo Rubens Paiva, em Blecaute, fez uma versão nacional dos romances sobre fim do mundo e, como eles, muitos outros venderam bem seus trabalhos de ficção especulativa, mas recusaram o rótulo de FC (assim como Margareth Atwood faz). O problema, então, fica claro: assim como os músicos de rock pesado que participaram do primeiro Rock In Rio recusavam título de "metaleiros", os autores mainstream não aceitam ser classificados em um gênero conhecido por sua alta população de discos voadores, foguetes e alienígenas verdes. Esquecem, claro, que o gênero é mais amplo que isso e abrange romances de peso como Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, 1984, de George Orwell, Anthem, de Ayn Rand, A Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, ou Não Verás País Nenhum, de Ignacio de Loyola Brandão. Logo, é óbvio que a FCB existe, afinal, muitos autores mainstream escreveram dentro do gênero e há montes de exemplos de telenovelas, filmes e até discos que bebem na mesma fonte. 

Porém, é igualmente óbvio que ela não existe, pois poucos admitem que suas produções estão dentro do que eles crêem ser ficção cient‚fica. Eis porque, quando autores que assumem suas ligações com o gênero como Bráulio Tavares e Ivanir Calado, apresentam seus trabalhos às grandes editoras, evitam o rótulo "FC", e eis também o motivo do repúdio dos editores àqueles que, despudorados, apresentam seus textos como ficção científica "pura e dura". Por outro lado, é necessário percebermos que há uma veia dentro da literatura brasileira que não apresenta nenhum preconceito contra a FC ou qualquer outro gênero: a infanto-juvenil. Júlio Emílio Bráz, Sylvio Gonçalves, além do próprio Ivanir Calado não tiveram problemas em lançar livros de temática claramente FC voltados para crianças e adolescentes. E isso, é bom lembrar, remonta aos tempos de Monteiro Lobato.

Voltando à questão, a situação da FC no mercado editorial brasileiro, talvez melhore quando os autores mainstream forem mais informados a respeito do gênero e os escritores de gênero menos limitados em seus gostos. Trata-se de ignorância numa rua de mão dupla.

Por que gêneros como Realismo Mágico e Policial teriam maior projeção?
Porque a FC é uma literatura de criação de universos e os outros, não necessariamente. O policial se aproxima do mainstream em sua construção de personagens (Ruben Fonseca, que ninguém duvida ser um escritor de gênero, seria, caso existisse uma tabela assim, um autor mainstream que lança mão de maneirismos do romance policial) enquanto a fantasia, graças à popularidade dos RPGs e à perenidade dos contos de fadas, não precisa ir muito longe na hora de descrever seus ambientes, afinal, todo mundo sabe como uma *faerieland padrão* deve parecer, com seus dragões, gnomos, magos, ogros e guerreiros mezzo-medievais. A FC, por outro lado, durante anos priorizou a originalidade na construção de universos em detrimento da profundidade de personagens, mola mestra da literatura "séria". Quando certos romances crescem na elaboração de personagens, como em O Sorriso do Lagarto, a crítica tende a não classificá-lo dentro do gênero (é sério, logo, não é FC). Ora, se levarmos em consideração que a FC não se restringe mais a uma literatura tecnológica e juvenil, englobando subgêneros como o Cyberpunk, Steampunk, Ribofunk e Alternate History, veremos que é quase impossível para um autor contemporãneo escapar de um ou outro truque do vasto arsenal do gênero ou mesmo a seu sense of wonder. Romances como V., de Thomas Pynchon, que lida com a possibilidade de uma imortal influenciando a sociedade durante todo o s⁄culo XX; Sobre Heróis e Tumbas, de Ernesto Sabato, com seu grupo de cegos illuminatti, ou Todos os Nomes, de José Saramago, onde uma biblioteca tesseract serve como base a uma distopia totalitária que estoca informação sobre todos os cidadãos, são típicos casos de literatura considerada mainstream mas que, a olhos treinados, são claramente FC. Por essas e outras, desde que me envolvi com FC literária, cunhei a frase "Tudo É FC", como uma maneira de valorizar o  gênero, transformando-o em espelho da produção atual.

Quais os principais autores de FCB, por subgênero, dos anos 80 até hoje? E as principais obras?
Agora correrei o risco de ofender alguns, mas vamos lá. Tenho de citar o Calife como o mais conhecido autor hard do Brasil, mas não entro no mérito de seus romances e contos. Bráulio Tavares é o melhor estilista de todos, criando uma narrativa de sabor regional, e seu Espinha Dorsal da Memória é indispensável. Fábio Fernandes é o mais completo, cuja temática varia do mais tradicional space opera ao cyberpunk radical. O dificílimo de encontrar Interface com o Vampiro é daqueles livros que ficam marcados na memória. O mais prolífico é Carlos Orsi Martinho, e sua antologia de estréia, Medo, Mistério e Morte, mescla horror, dark fantasy e FC como poucos. Gerson Lodi-Ribeiro tem, em minha opinião, seus melhores textos na seara da Alternate History, sendo a antologia O Vampiro de Nova Hollanda o melhor exemplo de seu trabalho. O versátil Ivanir Calado, escritor e artista plástico, trabalha muito bem com FC de cunho juvenil, mas o romance A Mãe do Sonho, menos FC e mais Dark Fantasy, é capaz de um sense of wonder dos melhores ao mesclar mitos amazônicos a um ambiente contemporãneo. Max Mallmann é um romancista competentíssimo, ágil e ligado a seu tempo. Se Síndrome de Quimera concoreu ao prêmio Jabuti, o romance seguinte, Zigurate, é um típico exemplo de boa FC pulp/brasileira. Fausto Fawcett é sensacional e seu trabalho que mais merece reconhecimento é, claro, Santa Clara Poltergeist, precursor do Cyberpunk brasileiro, com uma mistura multimídia de disco/livro/clipe.

E por enquanto, dentro de meus limites, parcos conhecimentos e leituras, é só.

terça-feira, 25 de março de 2014

Marcas, logos, símbolos e como batizamos nossos filhos

1 – OS NOMES E OS BOIS

Carlos Horcades, em seu livro A Evolução da Escrita – História Ilustrada, afirma que a grafia da letra “A” já aparecia há 1500 anos antes de Cristo, em inscrições proto-sinaicas (ou seja, produzidas por uma cultura anterior à hebraica) representando uma cabeça de boi, com olhinhos e tudo (é só inverter o A para perceber a semelhança que ainda existe com uma cabeça de touro, as hastes representando os chifres). “Alp” era a palavra canaita que significava “boi” e, em consequência, o grafismo passou a ter a mesma nomenclatura. Os hebreus, posteriormente, mudaram a palavra para “Aluf”, mas o símbolo se manteve, apesar de sofrer algumas rotações.

Logo, os fenícios e, em seguida, os gregos, aprenderam o alfabeto proto-canaíta, que adotava elementos de diversas culturas, e renomearam a letra como “Alef” e, depois, “Alpha”. Para os egípcios, era “Ápis”. O mesmo aconteceu com outros grafismos , tais como o “H”, originalmente um pictograma representativo de uma cerca. Ou seja, o nosso “A” nada mais é que uma cabeça de boi e isso devia ser tão importante para todos daquela época que a letra não apenas ganhou proeminência no alfabeto ocidental, como imortalizou-se. Isso significa que, mesmo que não saibamos mais o motivo pelo qual originalmente grafamos o “A”, sua importância subsiste.


Da escrita proto-canaíta aos caracteres atuais

Primeira conclusão parcial: é importante grafar corretamente para que o significado – algo maior que o simples nome – se perpetue e a comunicação ocorra sem ruídos. Um “A” é um “A” e não pode ser qualquer outra coisa. Parece uma afirmação óbvia, mas não é, como veremos adiante.

Agora, outra questão, um pouco mais contemporânea. Nomes tem função. Leonardo não se chamava “Da Vinci” à toa. Ele era originário de Vinci, região de Florença. Sobrenomes indicam filiação ou origem geográfica e servem até hoje como uma maneira de identificar os antecedentes de um indivíduo. Por incrível que possa parecer, os prenomes também servem para uma identificação rápida ou mesmo uma classificação de cunho mais pessoal, enfatizando características físicas (ou desejos dos pais em relação ao futuro dos filhos). O meu nome, por exemplo, era usado originalmente apenas em crianças que fossem o oitavo filho. E que me desculpem os amigos chamados “Cláudio”, mas esse nome surgiu para evidenciar um defeito físico, pois significa “manco”, em latim. Louras batizadas como “Bruna” são uma contradição, já que esse é o termo usado para designar “escura”. É por isso que cada vez mais vemos jovens casais sendo aconselhados a pesquisar as origens etimológicas dos nomes de seus futuros filhos.

Voltando ao meu nome, podemos “traduzi-lo” assim: Octavio – Oitavo *filho* (falso) Carvalho  – Cristão novo *ex-judeu* (verdadeiro em relação aos meus antepassados) Aragão – Originário do reino de Aragão (também verdadeiro em relação aos antepassados) Júnior – Que tem o nome igual ao do pai (verdadeiro). Fico triste em perceber que apenas meu prenome, logo aquele pelo qual sou mais conhecido, seja uma mentira.

O mesmo acontece em outras situações. Quando um aprendiz toma contato com as características daquele que será seu ofício, é apresentado a uma série de técnicas e procedimentos que representam o cerne de sua profissão. Cada instrumento tem um nome. Cada processo também, pois imaginem o que poderia acontecer se um advogado trocasse as definições das leis. Ou se um cirurgião substituísse o nome de um forceps pelo de um bisturí em plena mesa de operações.

Segunda conclusão parcial: cada instrumento e qualquer atividade desenvolvidos pelo homem tem um nome que, geralmente, indica suas utilidades, objetivos ou manejos, sob pena de potencial desastre.

Isso posto, não é curioso que, de todas as profissões existentes, o design, que lida com a confecção de artefatos e elementos comunicacionais, seja a mais vilipendiada no que diz respeito à nomenclatura?

Ouço diversos designers chamando a uma família tipográfica, coleção de tipos desenhados com formas assemelhadas por obedecerem a um mesmo módulo construtivo e projetual, de “tipologia”. Não que isso cause grandes problemas de comunicação, pois geralmente o interlocutor deduz que o outro está se referindo à forma das letras apresentadas em um determinado texto, mas vejamos o que diz o dicionário Michaelis:

Tipografia1. Arte de compor e imprimir com tipos. 2. Estabelecimento onde essa arte é praticada. 3. A seção da oficina onde se realiza o trabalho de composição (de tipos).

Tipologia – 1. Caracterização dos tipos humanos, dos seres vivos ou de realidades quaisquer consideradas num estudo. 2. Descrição geral desses tipos em cada caso.

Deduzimos então que o termo mais apropriado, ao nos referirmos a uma família de textos compostos seria “tipografia”, pois “tipologia” diria respeito ao estudo ou à descrição dos tipos, não à sua representação gráfica. Um tipógrafo compõe e imprime tipos, enquanto um tipólogo os estuda.

2 – O TIPO DA MARCA

Então chegamos àquela eterna diatribe entre designers e publicitários: a paridade entre os termos “logotipo” e “logomarca”. Afinal, o que é o certo? Há quem diga que logomarca não existe, que é uma apropriação indevida de dois termos inconciliáveis e que leva ao erro. Alguns insistem que são sinônimos e que, na verdade, logomarca, por sua abrangência, faz mais sentido. Tem até quem estabeleça características facilmente detectáveis para as logomarcas, como Daniel Portillo Serrano. Prefiro me ater às definições do mestre Gilberto Strunck, que, em 2007, durante uma palestra no evento SDesign, em Vitória, deu um exemplo que considero definitivo (e tem funcionado perfeitamente bem para mim desde então).

Pegue sua carteira de identidade. A “marca” seria a inscrição de seu nome com uma tipografia genérica, apenas o registro de como se deve escrever a nomenclatura. É sempre bom recordar que, quando registramos uma marca, é apenas isso que o INPI exige a princípio: um nome.

No verso, na parte inferior, você tem seu nome escrito com sua caligrafia, uma assinatura, e isso seria seu logotipo: seu nome escrito de uma maneira personal e imutável. E isso que dizer, fechando uma ponta solta lá de cima, que o “A” escrito numa caligrafia específica, como a inicial de Aragão, por ser uma assinatura, carrega mais significados que um “A” grafado com outras tipografias.

À esquerda, existe a impressão de seu polegar direito, a impressão digital, comumente usada para que até um analfabeto registre um documento. Ela seria o correspondente ao seu símbolo: um registro único e intransferível de uma imagem que, para sempre, representará sua identidade.

E a fotografia, já me perguntaram, seria o quê? Gosto de acreditar que, assim como nas pinturas medievais, a malfadada foto 3x4 que todos odiamos, com suas regras sobre ausência de sombras e inexpressividade do modelo, seria um ícone: uma representação idealizada do indivíduo, visando um tipo de reconhecimento universal do rosto.

Símbolo, logotipo e... ícone?


Assim, seguindo essa lógica, não haveria uma “logomarca”, até porque a interpretação de “logo + marca” não seria “letra + imagem”, como querem alguns, mas “conceito + significado” (“marca” viria, no caso, do termo germânico marka). Claro que podem dizer que “marca”, num sentido mais aportuguesado, é “risco”, “desenho”, “rabisco”, mas aí a coisa complica, porque não bateria com o sentido definido pelo próprio INPI, instituição responsável pelo registro de “marcas” e “marcas figurativas”, que, espertamente, incluem “desenhos, figura ou qualquer forma estilizada de letra e número, isoladamente”. Para o INPI existem apenas essas nomenclaturas, o que deve facilitar o trabalho deles, mas não nos ajuda na classificação dos elementos. Para eles “marca” é “nome” e todo o resto é “marca figurativa”.

Conclusão: nomes tem poder. É necessário que dominemos a todos, compreendamos suas origens e decodificações, assim como controlamos os processos de criação, confeção e reprodução. Ao contrário do que muitos acreditam, não basta “saber fazer” design, repetindo conceitos baseados em “ouvi dizer” e senso comum. Se você não percebe o que faz em essência, não está cumprindo o seu papel como designer, mas apenas produzindo uma “casca”, um trabalho sem racionalização e, possivelmente, sem conteúdo. Ou pelo menos sem um conteúdo percebido por você, o designer, logo quem deveria ter controle sobre o material comunicacional que realiza.

Afinal, um pai que não compreende o sentido do nome do filho não sabe quem ele realmente é.

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BIBLIOGRAFIA:

Horcades. C. M. – A Evolução da Escrita – História Ilustrada. Senac Rio, Rio de Janeiro – RJ. 2004
Michaelis – Dicionário Escolar Língua Portuguesa. Melhoramentos, São Paulo – SP. 2008
Portal INPI – http://www.inpi.gov.br/portal/acessoainformacao/artigo/marca_1351691433930 – Acessado em 25 de março de 2014
Serrano. D, P. Qual a diferença entre Logotipo e Logomarca? – In http://www.portaldomarketing.com.br/Artigos3/Qual_e_a_diferenca_entre_Logotipo_e_Logomarca.htm – Acessado em 25 de março de 2014

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Evento Agaquês e curso Master de design narrativo e arte sequencial

Olhem só que supimpa a iniciativa do Dr. Carlos Hollanda, baita ilustrador e professor de design, em reunir uma turma de respeito para instituir um curso inédito no Rio de Janeiro (e, creio, no Brasil, mas não tenho certeza).



Será ótimo participar dessa empreitada, mas antes, no dia 1* de fevereiro, participarei do evento Agaquês, falando sobre quadrinhos junto com gente muito boa, como Patati, Denis Melo, Hamilton Kabuna, Ana Recalde e Pachá Urbano, todo mundo junto e misturado, quadro a quadro. Será pertinho de minha casa, na Praça São Salvador, a partir das 18:00h. Apareçam!




sábado, 28 de dezembro de 2013

A voz do dano

Na última semana, graças ao programa The Voice, um tipo de show de calouros apresentado pela Rede Globo,  muito se falou sobre, basicamente, o que é cantar bem. Percebo duas linhas de comentários, uma guiada pelo senso comum, que abraça donos de vozeirões que atingem notas altíssimas e distribuem vibratos, e outros que, apesar de eventuais deficiências e limites, constróem (ou não) um estilo de interpretação que se apropria dos elementos periféricos, como microfones, amplificadores e até moduladores, tanto para corrigir, quanto para criar uma assinatura vocal.
Os torcedores dos vozeirões, grupo ao qual pertencem muitos dos sertanejos, gospel e quase todos os cantores da Era do Rádio, não criticam os, digamos assim, estilistas, mas os fãs de intérpretes como João Gilberto, Nara Leão e até Roberto Carlos (vejam só!), descem a proverbial ripa naqueles que consideram como bregas. Quem tem razão? Talvez todos. Ou ninguém.

Pelo que percebo há anos, os candidatos a celebridades que se apresentam no The Voice, no Ídolos ou mesmo no Programa Raul Gil são, em grande maioria, profissionais da noite, com carreira em boites e demais casas noturnas. Li em algum artigo, cuja procedência não recordo, ser compreensível que eles soltem a voz nas estradas, cantando forte e bem alto, porque consideram que tem uma chance de mostrar serviço, chamar atenção. Isso, claro, acaba fazendo com que soem em grande parte muito parecidos, pois sobra pouco espaço para a interpretação da música escolhida. Ou seja, para o que se propõem, naquele momento específico e inicial de classificação, essa parece a estratégia adequada. O problema é que a estratégia se mantém durante toda a competição e o erro se evidencia durante a fase dos duelos, quando, muitas vezes, o que deveria ser um espaço para exploração de novos territórios estilísticos, acaba se tornando uma corrida tronitruante de vozes muito parecidas. Por isso, canções diferentes em forma e intenção soam rigorosamente iguais.

É sempre bom destacar que há exceções. Minha preferida é Dani Moraes, que competiu tanto em Ídolos, quanto em The Voice. Essa interpretação de Me Chama é, na minha opinião, matadora.



Outro ponto interessante a se levar em consideração é que, por exemplo, cantores de ópera atingem tons altos, com técnica e, principalmente, interpretação. Eles compreendem que toda canção conta uma história, com personagens, cenários e conflitos. O caso é que as canções populares também. O “narrador” de Óculos, dos Paralamas do Sucesso, não parece ser o mesmo que canta Conceição, imortalizada por Cauby Peixoto. Ou até poderia ser, mas exigiria uma adequação estilística da parte do – atenção – intérprete (fiz um exercício de imaginação agora e pensei em Herbert Vianna – dono de uma voz pequena – cantando Conceição, com uma pegada reaggae. Olha, creio que ficaria ótimo, da mesma maneira que o estilo de Cauby funcionaria para uma releitura de Será, da Legião Urbana).

A técnica e a verve não são deméritos. Um cantor técnico pode, caso queira, interpretar diferentes papéis, modulando o timbre, o tom, o alcance. Gal Costa, uma cantora de capacidade ímpar, consegue encarnar um punch a lá Janis Joplin e, em outros momentos, incorpora a docilidade da Bossa Nova. Se quisesse, Ivete Sangalo faria o mesmo, mas a maioria dos cantores que poderia se arriscar em áreas diferentes prefere repousar em suas respectivas zonas de conforto.

Indo na contra-mão dos críticos, não é porque gostamos do estilo, das composições e da presença de palco de determinado artista que ele, necessariamente, canta bem. “Cantar bem” significa, utilizando a mais famosa frase da Bauhaus, adequar forma e função (sim, não consigo deixar o design de fora por muito tempo). Um exemplo? Todos adoramos Milton Nascimento, certo? Grandes composições, talento inigualável, musicalidade ímpar. No passado, ele e Beto Guedes gravaram Norwegian Wood, dos Beatles, dando uma roupagem adequada a seus estilos, usando e abusando de falsetes. Foi um passo arriscado, mas ok, funcionou e muito bem. Nunca vi, porém, essa música interpretada ao vivo (abaixo o original e a gravação de Milton).




No entanto, quando Milton foi convidado a cantar Love of My Life, do Queen, o resultado foi um pouco diferente.



Talvez, se tivesse desenvolvido um arranjo mais adequado a seu estilo de interpretação, como fez com a canção dos Beatles, quem sabe o resultado não seria melhor? Mas, ainda assim, considero que Milton foi mais apropriado que a dupla Elton John e Axl Rose, que tiveram que se desdobrar para interpretar Bohemian Rapsody.


Sou capaz de apostar uma grana que Cauby, tão detonado nesse artigo, teria se saído melhor, sem causar danos à memória de Freddie Mercury. Afinal, ele já cantou rock (e junto com Roberto Carlos, quem diria!).



Em tempo: sabem quem foi a grande inspiração de Elis Regina, a cantora mais perfeita do Brasil? A breguíssima, e dona de uma voz poderosa, Angela Maria.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

E o Pós-Doc acabou!

Foi ontem. Foi ótimo.

Cheguei em cima da hora na Faculdade de Letras, no Campus da Ilha do Fundão, quinze minutos antes das 14 horas, quando, a princípio, deveria começar a apresentação de minha pesquisa Visões do Futuro do Pretérito – A ficção científica nos quadrinhos brasileiros, orientada pela professora Heloísa Buarque de Hollanda, no PACC, da UFRJ.

Claro que me perdi. Claro que, ao chegar à sala, tudo que havia preparado para funcionar meticulosamente falhou. Não havia conexão Wi-Fi, nada de cabo para conectar o MacBook à rede ou ao datashow. Tudo parecia fadado ao caos.

Mas nada como um backup para salvar o dia. Descobri uma versão anterior de um arquivo em PDF com algumas das imagens mais antigas e lá fui eu, na base do conhecimento do material e da presença de palco, discursar para um público seleto de quase 30 pesquisadores acadêmicos de todo o Brasil.

Falei por mais de uma hora, das 14:20h às 15:45h, sobre a proto FC nas páginas ilustradas de O Tico Tico, em 1905, o mítico Kaximbown, de Max Yantok, e seu diálogo com a obra de Júlio Verne, os infográficos humorísticos de Juó Bananére, os cinco ícones da FC (alienígenas, robôs, a nave espacial, a cidade e a terra devastada) aplicados à iconografia das HQ nos lisérgicos anos 60, as HQs de Laerte e Luiz Gê, usando elementos de FC para delinear a sociedade brasileira, seus modos e medos, culminando com os trabalhos recentes de Edgar Franco, Gian Danton & Jean Okada, Danilo Beyruth, Osmarco Valladão & Manoel Magalhães e Fábio Cobiaco.

 
Muita discussão posterior com uma plateia envolvida e interessada nos aspectos pouco usuais da classificação de (sub)gêneros, na nomenclatura (space opera, cyberpunk, história alternativa etc), e – principalmente – na definição de ciência (seria História uma ciência, afinal? E as “ciências sociais”?). Muito Fredric Jameson, Robert Scholes e, claro, Mary Elisabeth Ginway, cujos livros sobre a ficção científica literária brasileira guiaram o corpus teórico de minha pesquisa.

Aliás, quando me perguntaram se havia alguma publicação minha sobre esse tema, com muito orgulho respondi “sim, uma pequena parte foi publicada nessa antologia norte americana chamada Latin American Science Fiction: Theory and Practice” e mostrava o livro de capa dura organizado pela Libby e pelo acadêmico J. Andrew Brown, publicado pela editora Palgrave MacMillan no final do ano passado.

O diploma da pós em Estudos Culturais e a antologia acadêmica


E assim consegui juntar duas de minhas paixões, HQs e FC, num mesmo trabalho de pesquisa. Agora só falta mesmo acrescentar o rock’n roll à mistura.

Quem sabe num futuro possível?

domingo, 22 de setembro de 2013

Apresentação da pesquisa de Pós Doc, na Faculdade de Letras - UFRJ


Caríssimos, no dia 26, quinta-feira, nas dependências da Faculdade de Letras - UFRJ, no campus da Ilha do Fundão, apresentarei minha pesquisa de pós doc sobre ficção científica nas histórias em quadrinhos brasileiras, supervisionada pela professora Heloísa Buarque de Hollanda, a partir das 14:00h. Segue a programação.

Programação:   
26 de Setembro

13h30 Abertura

14h /14h45 – Apresentação de relatório final Octavio Carvalho de Aragão Junior: “Visões do futuro do pretérito, a ficção científica nos quadrinhos brasileiros”. Supervisão: Heloisa Buarque de Hollanda

Sinopse: a pesquisa busca uma ponte entre a produção de narrativas ficcionais de temática cientificista e os desenhos humorísticos desenvolvidos no Rio de Janeiro, Brasil, no final do século XIX por artistas como Angelo Agostini e Bordalo Pinheiro e na primeira metade do século XX, e as narrativas do mesmo gânero produzidas na contemporaneidade. Tais historietas publicadas em periódicos semanais impressos em litografia, destinavam-se a informar e divertir, repercutindo o olhar da época, muitas vezes desinformado e caricatural, sobre as influências das novidades da ciência no cotidiano do então império e especulando como seria o futuro. Ainda discorreremos a respeito da linguagem dessas revistas ilustradas e publicadas até a década de 1930, que antecipavam elementos que se desenvolveriam no século seguinte e colaboravam, mesmo que inadvertidamente, para popularizar conceitos tecnológicos e imagens ainda distantes da realidade do país, sempre mescladas a conceitos de construção de uma identidade brasileira. Quanto à produção atual, destacaremos os trabalhos de dois autores, Luiz Gê e Laerte, que incorporam e dialogam com elementos da ficção científica em histórias em quadrinhos filosóficas, e os alguns dos artistas dos anos 2000, como Danilo Beyruth, Gian Danton, Manoel Magalhães e Fábio Cobiaco.

14h45 / 15h45- Debate em formato Call for Problems. 
15h45 / 16h- Intervalo

16h /16h45 – Apresentação de relatório final Maria Beatriz da Rocha Lagôa: “Um estudo sobre temas de História da Arte nos meios digitais”. Supervisão: Heloisa Buarque de Hollanda

Sinopse: "Projeto gráfico que visa o apoio didático de alguns temas de História da Arte, conjugando-se à capacidade de memória, agenciamento e interatividade que o meio digital oferece. Na exposição dos temas é proposto o entrecruzamento de informações em sites, textos, imagens, vídeos e filmes, passíveis de serem apreendidos em dispositivos que permitam a mobilidade e o fácil ingresso em um ambiente múltiplo e participativo".

16h45/ 17h45. – Debate em formato Call for Problems.
Local: Faculdade de Letras / Fundão*