quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Philip K. Dick - Mundo de Papel, por Lúcio Manfredi



Minha descoberta de Philip K. Dick tem uma história e uma pré-história.
Desde pequeno, a minha relação com o mundo sempre foi marcada por uma certa ambivalência. A realidade não me parecia ter realidade suficiente. Eu sentia que, a qualquer momento, o mundo poderia fugir sob os meus pés e eu mesmo me parecia tão irreal ou semi-real quanto esse mundo cuja evanescência me perturbava muito antes que eu soubesse o que quer dizer "evanescência".

Entre os três e os nove anos, essa sensação de falta de solidez nas coisas fazia com que todas as noites eu tivesse pesadelos horríveis, dos quais acordava gritando sem parar, e até os doze anos, eu era simplesmente incapaz de me lembrar do meu próprio rosto. Precisava olhar no espelho sempre que quisesse saber como eu era. Muitos anos mais tarde, vim a saber que os psicólogos denominam esse estado de espírito de ‘desrealização’ ou ‘despersonalização’, mas prefiro a designação muito mais poética de Julio Cortázar: "o sentimento de não estar de todo".

Não é de Cortázar, porém, que eu quero falar, mas de Philip K. Dick.

Eu tinha 12 anos quando chegou aos cinemas a versão original de Blade Runner. Nunca tinha ouvido falar de Ridley Scott e não fazia a menor idéia de quem era Philip K. Dick. Mas já era apaixonado por ficção científica, o que, para mim, nessa época, significava antes de mais nada Asimov e Clarke.

O spot do filme que passava na tevê me deixou galvanizado, especialmente aquela imagem clássica do aerocarro subindo nos céus de uma Los Angeles chuvosa e em trevas permanentes. Corri para o jornal para ver os horários e sessões, e meu entusiasmo foi recebido com a proverbial ducha de água fria.

Blade Runner era proibido para menores de dezoito anos (ou era dezesseis? A memória já vai ficando para trás, junto com os milhares de neurônios que a gente começa a perder diariamente após os trinta). Dois anos mais tarde, isso não teria sido um problema: eu já teria descoberto que sempre é possível driblar a censura e entrar num filme proibido, especialmente nos cinemas do centro. Mas ainda não sabia disso quando Blade Runner estreou e o filme adquiriu para mim uma espécie de aura mítica, um paraíso proibido, fora do alcance dos meus olhos mortais.

Pouco tempo depois, ao passar por uma banquinha de livros nas imediações de Perdizes (ou era em Pinheiros? a memória, etc.), dei de cara com o romance que tinha dado origem ao filme: O Caçador de Andróides, de Philip K. Dick, com aquela capa horrenda que a Francisco Alves costumava colocar em seus livros. A capa não importava. Era a história do filme, o filme ao qual eu não podia assistir. Comprei o livro e comecei a ler no metrô mesmo, a caminho de casa. Não, não foi uma revelação. Os céus não se abriram, os mortos não saíram de suas tumbas e eu não tive nenhuma epifania. Sim, era uma história fascinante, suficientemente próxima da ficção científica à qual estava acostumado para eu gostar do que estava lendo e, ao mesmo tempo, diferente o bastante do que eu conhecia para me animar a buscar outros livros do autor. Mas não foi um livro que mudou a minha vida.

A revelação e a epifania, no entanto, vieram com o livro seguinte de Dick que me caiu nas mãos: Os Três Estigmas de Palmer Eldritch, na edição de bolso das Publicações Europa-América. Já nem me lembro onde foi que o comprei. Minhas recordações desse livro têm início com o instante exato em que abri a primeira página e comecei a ler. Estava de novo no metrô, voltando de onde quer que eu o tenha adquirido. Reconheci imediatamente o estilo do autor, a maneira peculiarmente irônica com que Dick construía suas frases, a forma como ele invertia os lugares-comuns, como, por exemplo, ao mostrar pessoas que procuravam os psiquiatras, não para se curar, mas para ficarem doentes. Era divertido, era atraente, dava vontade de continuar lendo, mas não muito mais que isso. Até chegar ao terceiro capítulo, quando os colonos ingerem uma droga e entram no mundo de Perky Pat. Um arrepio de unheimlich me subiu pela espinha. Eu conhecia aquela sensação. Aumentei o ritmo da leitura. Barney Mayerson e depois Leo Bulero presos no mundo de Palmer Eldritch, aquele mundo alucinatório que você *sabe* que não é real e do qual, mesmo assim, não consegue escapar. A figura aterrorizante de Palmer Eldritch, tão semelhante aos fantasmas que povoavam meus próprios pesadelos de infância. Sim, eu conhecia aquele mundo. Era o meu mundo.

Daí para a frente, tratei de procurar e ler com voracidade tudo o que conseguia encontrar desse autor. Fui descobrindo coisas sobre ele, a experiência mística de 2-3-74, seus surtos esquizofrênicos e ataques de paranóia, a faculdade de filosofia interrompida (como eu mesmo faria alguns anos mais tarde), sua morte em 1982, no mesmo ano em que eu tentara em vão assistir Blade Runner... Foi graças a Philip K. Dick que eu tomei contato com o gnosticismo, uma forma de filosofia religiosa que, mais do que qualquer outra, resume a minha atitude perante o mundo. Dick também me levou a Jung, outra influência determinante no curso da minha vida. E, evidentemente, marcou a minha maneira de escrever. Certa vez, um amigo que conhecia todos os meus contos e estava lendo O Homem do Castelo Alto comentou que agora entendia porque eu gostava tanto dos livros de Philip K. Dick: existiam semelhanças notáveis (palavras dele) na maneira de nós dois vermos o mundo. Ainda considero o melhor elogio que já recebi como escritor...

Para muitos leitores, o primeiro encontro com seu autor favorito é um evento que muda o curso de suas vidas. Para mim, depois de descobrir Philip K. Dick, a realidade continuou sendo exatamente como era antes - incerta, evanescente e nada confiável. Mas, agora, eu sabia que não estava sozinho.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Sobre cores, critérios e consequências

Cidade: Vitória.
Ano: 2007.

Eu era professor de Projeto de Design na UFES desde o ano anterior e achei que seria uma boa ideia dar aos alunos uma visão mais próxima da realidade de um mercado de trabalho. Como era novo na cidade, aproveitava meus passeios pelo Centro para anotar nomes e contatos de empresas cujas fachadas apresentassem identidades visuais que eu considerasse dignas de um redesign.

Uma vez em sala, separava a turma em grupos e mandava cada equipe contactar os possíveis clientes,oferecendo uma assessoria de identidade visual, com redesign de branding. Seria um projeto acadêmico, logo, sem ônus real para o cliente, a não ser que, de acordo com um contrato que estipulava os serviços prestados, o cliente desejasse aplicar o projeto em seu estabelecimento.aí, a coisa mudaria de figura e se tornaria algo mais sério, de acordo com as minutas de contrato exemplificadas no manual da ADG.

Deu para entender? O cliente só coçaria o bolso caso decidisse implementar o projeto, no mais, seria algo puramente acadêmico. Porém, havia uma cláusula pétrea: os créditos de produção e criação seriam -- sempre -- devidos aos alunos de cada equipe, mesmo em caso de não implementação. Durante dois anos fiz o mesmo tipo de projeto, com resultados sempre satisfatórios, tanto para mim, enquanto professor, quanto para a turma e, na vasta maioria dos casos, para os clientes, mas nunca, nenhum, jamais foi levado adiante. Ao menos não diretamente.

Vou contar um caso específico: um dia, próximo à rodoviária, dei com uma loja de artigos de pesca, cuja identidade visual era a que se vê abaixo.


Os motivos pelos quais escolhi esse logotipo como candidato para redesign foram 1) o símbolo super detalhado, que poderia causar problemas quando reduzido e aplicado em produtos diversos e 2) a fonte desnecessariamente distorcida. Uma vez em sala de aula, um grupo escolheu cuidar desse projeto. Lá foram os meninos e meninas atrás do "cliente" e, tudo acertado, o contrato assinado, começamos o projeto. Depois de um período, o resultado foi o que se pode inferir a partir dessa prancha de construção do logotipo (que foi a que me restou depois de tanto tempo).


Como podemos perceber, as mudanças foram amplas, tanto em rediagramação, quanto em simplificação. A ideia era fazer com que o símbolo fosse tanto um peixe, quanto uma representação do sol, sobre a linha do oceano, representado pelo nome em si, em uma única linha horizontal. 

Preparamos a apresentação para o cliente e lá foram eles e elas, outra vez, para a visita definitiva. O resultado? Um sonoro "não, obrigado". E os motivos foram, basicamente, a mudança cromática. O cliente não acreditava que seus clientes não gostassem da cor escolhida para o símbolo. Obviamente, a equipe não deu o braço a torcer, apresentando os motivos da escolha e argumentando que, caso fosse absolutamente necessário, poderiam estudar outra palheta cromática. A resposta foi outro "não", dessa vez, definitivo. O redesign da marca não seria aplicado, obrigado por sua proposta, foi um prazer conhecê-los, adeus.

Levei esse caso para a vida e, ainda agora, o utilizo como bom exemplo de construção de  identidade visual em minha aulas na UFRJ, como aconteceu, por exemplo, hoje. Mas, dessa vez, houve uma diferença. Meus alunos atuais pediram para que eu pesquisasse a marca, para que vissem as diferenças entre as duas versões com mais clareza e, qual não foi minha surpresa ao dar com a imagem abaixo, na página da empresa.
Sim, isso mesmo. Esse é o logo atual. Houve um redesign, afinal de contas, e a cor -- que tanto incomodava -- ficou de fora, assim como a participação dos designers que criaram a rediagramação (e a proposta como um todo).  Nem vou comentar o acréscimo do fio de contorno ou a letra "C" alterada sem motivo aparente, mas focar no fato que, talvez, o problema do design no Brasil seja uma questão cultural. Parece óbvio que se reconhece o valor de um redesign, mas não os designers propriamente ditos. Por que se recusar a ceder até mesmo o crédito a quem é devido? Por que refazer a identidade visual seguindo critérios preestabelecidos sem chamar -- até por uma questão de agradecimento -- os responsáveis pelo primeiro redesign? 

Essas são questões que precisamos resolver e identificar urgentemente, caso queiramos sedimentar a credibilidade de nossos profissionais de criação.



quarta-feira, 14 de novembro de 2018

100 livros basilares

Em uma rede social, meu parceiro e ex-aluno Manel Fogo sugeriu que eu compusesse uma lista de livros que considero indispensáveis. Aqui está ela. uma mistura de escolhas emocionais e indicações que considero úteis para ilustrar quem sou em termos de gostos e admirações.

Não entraram livros teóricos ou filosofia, isso fica para uma próxima lista. Aqui estamos falando de ficções.


1 - Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley
2 - Drácula, Bram Stoker
3 - V, Thomas Pynchon
4 - O Tempo e o Vento, Érico Veríssimo
5 - Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis
6 - O Caso dos Dez Negrinhos, Agatha Christie
7 - O Homem Ilustrado, Ray Bradbury
8 - Moby Dick, Herman Melville
9 - Capitães da Areia, Jorge Amado
10 - Um Estudo em Vermelho, Arthur Conan Doyle
11 - A Chave do Tamanho, Monteiro Lobato
12 - Jubiabá, Jorge Amado
13 - O Aleph, Jorge Luis Borges
14 - A Ilha do Doutor Moreau, H. G. Wells
15 - Dom Quixote, Miguel de Cervantes
16 - A Odisseia, Homero
17 - Quincas Borba, Machado de Assis
18 - Os Sertões, Euclides da Cunha
19 - O Falcão Maltês, Dashiell Hammett
20 - A Ilíada, Homero
21 - Crime e Castigo, Dostoiévski
22 - Demian, Herman Hesse
23 - Hyperion, Dan Simmons
24 - Madame Bovary, Flaubert
25 - A Guerra dos Mundos, H. G. Wells
26 - Vinte Mil Léguas Submarinas, Julio Verne
27 - O Conde de Monte Cristo, Alexandre Dumas
28 - A Eneida, Virgílio
29 - Duna, Frank Herbert
30 - O Fim da Infância, Arthur C. Clarke
31 - Fundação, Isaac Asimov
32 - O Pêndulo de Foucault, Umberto Eco
33 - Frankenstein, Mary Shelley
34 - Histórias Extraordinárias, Edgar Allan Poe
35 - O Médico e o Monstro, Robert Louis Stevenson
36 - Seis Personagens à Procura de Um Autor, Pirandello
37 - O Leopardo, Lampedusa
38 - O Nome da Rosa, Umberto Eco
39 - As Crônicas Marcianas, Ray Bradbury
40 - Os Três Estigmas de Pálmer Eldritch, Philip K. Dick
41 - Viagem ao Centro da Terra, Julio Verne
42 - Zona Morta, Stephen King
43 - Obras Completas de Shakespeare
44 - Os Três Mosqueteiros, Alexandre Dumas
45 - O Homem do Castelo Alto, Philip K. Dick
46 - Quase Memória, Carlos Heitor Cony
47 - A Máquina Diferencial, Sterling & Gibson
48 - Os Meninos da Rua Paulo, Férenc Molnar
49 - A Outra Volta do Parafuso, Henry James
50 - O País de Outubro, Ray Bradbury
51 - Dom Casmurro, Machado de Assis
52 - O Decameron, Giovanni Bocaccio
53 - O Assassinato de Roger Ackroyd, Agatha Christie
54 - 2001, Uma Odisseia no Espaço, Arthur C. Clarke
55 - Fahrenheit 451, Ray Bradbury
56 - Cem Anos de Solidão, Garcia Marquez
57 - A Metamorfose, Kafka
58 - Nas Montanhas da Loucura, H. P. Lovecraft
59 - O Incrível Homem Que Encolheu, Richard Matheson
60 - Noites na Taverna, Álvares de Azevedo
61 - O Coração das Trevas, Joseph Conrad
62 -O Processo, Kafka
63 -Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa
64 - O Poderoso Chefão, Mário Puzo
65 - O Relato de Arthur Gordon Pym, Edgar Allan Poe
66 - O Alimento dos Deuses, H. G. Wells
67 - 1984, George Orwell
68 - O Retrato de Dorian Grey, Oscar Wilde
69 - A Ilha do Dia Anterior, Umberto Eco
70 - O Livro de Areia, Jorge Luís Borges
71 - A Reforma da Natureza, Monteiro Lobato
72 - Ivanhoé, Walter Scott
73 - A Laranja Mecânica, Anthony Burgess
74 - Os Irmãos Karamazov, Dostoiévski
75 - O Signo dos Quatro, Arthur Conan Doyle
76 - A Invenção de Morel, Bioy Casares
77 - A Morte de Arthur, Thomas Malory
78 - O Iluminado, Stephen King
79 - Os Trabalhadores do Mar, Victor Hugo
80 - Eu Sou a Lenda, Richard Matheson
81 - Os Machões Não Dançam, Norman Mailer
82 - Pearls From Peoria, Philip José Farmer
83 - The Years of Rice and Salt, Kim Stanley Robinson
84 - As Aventuras do Sr Pickwick, Dickens
85 - Todos os Nomes, José Saramago
86 - Terrarium, Barreiros & Silva
87 - O Vale do Medo, Conan Doyle
88 - Ubik, Philip K. Dick
89 - Tarzan of The Apes, Edgar Rice Burroughs
89 - Valis, Philip K. Dick
90 - Pebble in The Sky, Ursula K. leGuin
91 - Orlando, Virgínia Woolf
93 - O Sol Por Testemunha, Patricia Highsmith
94 - A Divina Comédia, Dante
95 - A Máquina do Tempo, H. G. Wells
96 - O Pica-pau Amarelo, Monteiro Lobato
97 - Lord Jim, Joseph Conrad
98 - Assassinato no Expresso do Oriente, Agatha Christie
99 - A História do Cerco de Lisboa, José Saramago
100 - David Copperfield, Dickens

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Minha vida em filas (ou "por que as pessoas não podem ficar em silêncio?")

Eu (daqui por diante, denominado apenas como "O") – A senhora está na fila?
Senhora com cara de ameixa (daqui por diante, denominada como "SCA") – [Olhada de cima em baixo] Estou.
O – Obrigado.
Senhora com Guri Levado do Diabo (daqui por diante, identificada como "SGLD") – Para, Joãozinho. Vai cair daí, menino. Sossega. Já viu isso, senhor? Não para!
O – Tudo bem. Quando chegar a adolescência vai sumir de vista. Mal vejo o meu de 15.
SCA – Neto?
O – Não, filho.
SCA – Neto, né?
O – Não. Filho.
SCA – Filho?
O – [Sorriso reto, tipo faca de churrasco] Fi. Lho.
SGLD – Como assim, o senhor não vê seu filho? Para, Joãozinho. Olha que vou chamar seu pai.
O – Ah, ele se tranca no quarto. Às vezes mal sei quando ele está em casa.
SGLD – Mas que absurdo. Meu marido não deixava as filhas fazerem isso.
O – Ah, é mesmo? [Sorriso ganhando contornos de foice da bandeira da Rússia]
SGLD – Elas começaram com essa conversa de televisão no quarto e ele logo falou "vamos acabar com isso! Quero todo mundo comigo, na sala, vendo o Jornal Nacional". Pronto, acabou a palhaçada.
O – Claro, elas deixaram de fazer o que queriam e passaram a ouvir a litania de São Roberto Marinho. Tem certeza que essa foi uma tática interessante para reunir a família?
SGLD – [Olhos arregalados, gagueira] E-era o que tinha na época, eram os anos 70. P-para com isso, Joãozinho, menino danado.
O – Eu sei. Estive lá. Mas ninguém me obrigava a assistir nada, não senhora. Ainda acho que os guris hoje têm opções melhores com todos esses blogs e sites e o Youtube.
SGLD – Ãh… bom, por esse lado, talvez… mas não está certo deixar os filhos sozinhos.
O – Concordo, tem tanta coisa que não está certa, né? Mas cada um vive a vida como pode ou quer [abre o livro, volta a cabeça para as páginas. SGLD sai correndo atrás do moleque. Desaparece no horizonte de eventos]
SCA – O senhor está lendo o quê?
O – [Levanta a cabeça leeeentameeeente. Sorriso como a lua em solstício de inverno. Bota marcador entre as páginas. Fecha o livro. Entrega o volume de mais de 700 páginas nas mãos enrugadas de SCA, que não sabe o que fazer com o livro pesado]
SCA – [Observa a capa, onde se lê em letras garrafais amarelas sobre fundo verde "A Verdadeira História da FICÇÃO CIENTÍFICA] Sobre o que é?
O – [Sorriso afiado como a guilhotina que decapitou Robespierre] Está na capa, senhora.
SCA – Ah… Ficção científica [devolve o livro como se corresse o risco de alguma contaminação].
O – Obrigado [abre o livro, volta a cabeça para as páginas]
SCA – O senhor ja leu todo?
O – [Levanta a cabeça leeeentaaaaaaaaameeeeeeenteeeeeeee. Sorriso como uma segadeira automática em dia de colheita em pleno verão. Bota marcador entre as páginas. Fecha o livro] Senhora, como pode observar, o marcador está no meio do livro. No. Meio.
SCA – Ah. É mesmo. Desculpe.
O – Sem problemas [Abre o livro, volta a cabeça para as páginas].
SCA – Meus parabéns, viu? Com um avô inteligente assim, aposto que o NETO adora ler.

[Toca o sinal do colégio. Todas as velhinhas correm como lebres para entrar ao mesmo tempo pela porta por onde apenas uma, com sorte, passará com vida. Fecha o livro. Esquece de marcar a página]

sábado, 18 de agosto de 2018

Sobre navios em órbitas gravitacionais e outras questões graves

Corrosão é um romance corajoso. Daqueles que não têm medo de mesclar astro e metafísica como poucas vezes vi na FC feita no Brasil (e sei do que estou falando). As descrições das atividades à bordo para a “caça à baleia” têm a acuidade de Melville acrescidas à poética de um Bradbury em contos como Os Frutos Dourados do Sol. E isso porque não falei da personalidade da IA, tão bem construída quanto qualquer personagem de carne e osso (ou tinta e papel. Ou fótons e bytes). Não há necessidade de destrinchar os meandros da história. Melhor deixar o leitor com a seguinte imagem impressa (ênfase em “impressa”) no cérebro: há um navio fantasma em órbita. Suas caldeiras inativas guardam um mistério que espera pela maturidade das inteligências da Terra, sejam à base carbono ou silício, e apenas quando alcançarem o equilíbrio terão a chave da charada. Pela mescla de maturidade e temática, técnica e maestria, Ricardo Labuto Gondim é o grande nome da FCB desta década. E, já que tempo e espaço são o mesmo, também das que foram e virão.


Agora cabe uma pequena explicação, pois não costumo fazer resenhas de livros. Por que não faço? Simples: sou um cara que escreve umas histórias aí, de FC, horror, aventura e até policiais, mas com certeza não sou -- e nem pretendo -- ser um crítico.  Pois, vejam, um dos grandes problemas da Ficção Científica Brasileira é a indigência crítica. Isso é um sintoma histórico. Já tivemos autores que posavam de críticos, lançando mão de pseudônimos para agredir colegas e se auto-elogiarem. Também houve aqueles que, movidos por sentimentos questionáveis, organizaram linchamentos virtuais de obras. E também tivemos falsos ideólogos, manipuladores de discursos, que em outra situação seriam dignos de aplausos, para enxovalhar desafetos. Tudo isso regado, na melhor das hipóteses, por falta de embasamento, e na pior, por ausência de caráter.

Toda crítica é parte integrante da obra à qual se refere, acrescenta camadas interpretativas, colabora para sua sobrevivência, mas exige uma maturidade, uma isenção, um critério, uma base que a maioria dos críticos contemporâneos não possui. A avalanche de blogs, vlogs, triques e traques que proliferam hoje acaba se tornando mero truque para pedido de livros gratuitos. A FCB, principalmente, teria muito a ganhar com uma "Barbara Heliodora para chamar de sua", alguém com conhecimento de causa e respeitabilidade. Infelizmente, acho improvável que surja alguma nos próximos anos, já que a totalidade de nossos críticos almeja se tornar escritor e escritora. 

Porém, perdoem-me pela digressão. O que importa é que Corrosão é um excelente romance e Ricardo Labuto Gondim é um dos grandes. Todos a bordo.



sábado, 23 de dezembro de 2017

2017: um ano "duro"


Uma de minhas superstições mais idiotas diz respeito a anos ímpares. É idiota, porque meu pai morreu em 1980 e meus filhos nasceram em 2003 e 2009, respectivamente, logo, não faz o menor sentido. Mas é uma superstição, diabos, não se baseia em lógica, mas em um tipo meio primitivo de intuição. E, caramba, se houve um ano "duro" foi este, em vários sentidos. Mas vamos ao que interessa: a tradicional retrospectiva dos últimos doze meses.



Desde 2013, venho me dedicado a uma função que, mais uma vez, amplia o número de atividades que descobri ser capaz de fazer com algum desembaraço, ou seja, tradução de histórias em quadrinhos. Se até o ano passado a única que tinha visto a luz do dia tinha sido a primeira parte de Promethea, de Alan Moore e J. H. William III, em 2017 elas saíram da casca como uma ninhada de passarinhos de bico aberto e invadiram as livrarias: Apenas um Peregrino, de Garth Ennis e Carlos Esquerra; Elric, de Moorcock, Blondel, Cano, Poli, Reicht, Telo e Bastiche; Tom Strong, também de Alan Moore e Chris Sprouse, e o segundo volume de Promethea, tudo isso disputando a atenção do público consumidor de quadrinhos nas prateleiras. E mais, muito mais virá. Agradecimentos efusivos a Fabiano Denardin e Julio Monteiro de Oliveira pelas infinitas oportunidades que me deram.

Mas não foi só isso, né? Houve a segunda edição da SIQ – Semana Internacional de Quadrinhos da UFRJ, que organizo ao lado de Amaury Fernandes e que reuniu um grupo invejável de produtores de arte sequencial em maio e setembro, com as presenças de ícones mundiais, como Chantal Montelier e Trina Robbins. Foi insano, mas muito me orgulho desse evento, que se encaminha para sua terceira edição em 2018 (sim, estamos trabalhando nisso).

A equipe da SIQ ladeando Trina Robbins.

O que mais? O que mais? Ah, sim, claro… finalmente coloquei o ponto final em meu terceiro romance, A Mão Que Pune – 1890, uma história steampunk que funciona como uma prequel ao livro de 2006, A Mão Que Cria. Não, sem previsão de publicação ainda, senhoras e senhores, mas vamos tratar disso no ano que vem. No mais, um monte de contos, artigos e publicações acadêmicas diversas, orientações no mestrado do PPGTLCOM, gravações de videologs sobre quadrinhos com o amigo PH e a continuidade de projetos que ainda estão em andamento, como a HQ Psicopompo, com Carlos Hollanda e Osmarco Valladão.


Sim, foi um ano duro pacas em diversos níveis, mas plantei sementes que, com certeza, germinarão a partir de janeiro. Esperem e verão (ou inverno, outono, primavera…).

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Quanto mais eu rezo, mais plágios descarados aparecem

2013: uma cooperativa de quadrinistas brasileiros se reune e cria a QUAD, veiculando material de alta qualidade gráfica e cujo logotipo é apresentado abaixo.




OK, há alguns problemas de legibilidade, principalmente no "A", mas é indubitavelmente um logo original.

2015: uma rede de cinemas novaiorquina, curiosamente chamada "QuadCinemas", lança a "nova" identidade visual…



Pois é, né? Igual, igual, IGUAL.

Saída óbvia? Meter um processo na cara dos meliantes, certo? Não, errado. Parece, pelo que soube, que o criador do logo original considera uma "coincidência" e, pior, em caso contrário, para o designer brasileiro é um elogio ser copiado de maneira desavergonhada por uma empresa americana que, com certeza, deve estar faturando os tubos em cima da criação dele.

Minha opinião? Na melhor das hipóteses, uma ingenuidade. Na pior, uma vergonha. E por que levo isso tão a ferro e fogo? Porque não se trata de um caso particular, mas nacional. O designer que se permite roubar dessa maneira abre precedentes inaceitáveis para toda uma classe.

Como não sou o pai da criança, apenas me resta – como designer e quadrinista – denunciar esse absurdo e divulgar o mais que puder. Porque não há elogio na cópia, há desrespeito, há descaso, há ofensa. E nessas horas a lógica capitalista é muito útil. Exija seu respeito em verdinhas. Bata onde dói mais: no bolso.

Mas, bom, dos males o menor. Ao menos os plagiários fizeram o favor de corrigir o "A".