sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Em busca da identidade perdida

Primos distantes ou gêmeos separados na maternidade?
Provavelmente, antes de seu redesign de logotipo, a revista Época devia ter algum contrato com a alemã Focus, mas ainda assim causa certa estranheza isso jamais ter sido veiculado de maneira clara. Já a Manchete sempre foi declaradamente inspirada na Paris-Match. Cabe a questão: quantas de nossas revistas emulam publicações estrangeiras e jamais soubemos?

(ATUALIZAÇÃO) Sim, a Época é uma franquia da Focus e os detalhes podem ser vistos aqui. Ok, explicado, mas ainda sinto falta de uma maior divulgação dessas informações.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Sobre prêmios e premissas



Argos, infantes, arte e artesanato 
Desde julho tenho sido soterrado por novidades, convites, novas ideias e projetos diversos. Mesmo aqueles que não funcionaram como o esperado geraram novos frutos, cada um colaborando para sedimentar uma teoria que acalento há décadas. É o seguinte: sabe aqueles trabalhos que você faz por amor, sem esperar nada em troca e que geram expressões de espanto e afirmações do tipo “não sei como você vai ganhar dinheiro com isso”? Pois é, pode demorar, mas eles retornam como títulos, dinheiro e, algumas vezes, prêmios.

Um dos trabalhos mais divertidos dos últimos anos foi participar como jurado do 59º Prêmio Esso de Jornalismo, analisando dezenas de projetos de todo o Brasil, incluindo diagramação, ilustração e infografia, nas categorias de Criação Gráfica para jornais e revistas. Se no ano passado foi uma honra participar da comissão da 10ª Bienal Brasileira de Design Gráfico, considero ter sido convidado para comissão julgadora do Prêmio Esso 2014 a coroação de 27 anos de carreira como designer.

Mas o melhor ainda estava por vir. Em 2013, a Editora Buriti me perguntou se eu não gostaria de colaborar com um conto curto para uma de suas antologias temáticas de fantasia chamada Caçadores de Bruxas. Como estava apertadíssimo, envolvido com as tradicionais 200 tarefas simultâneas, pensei que deveria vasculhar a velha gaveta mental em busca de uma memória empoeirada. Encontrei um conceito aproveitável num cantinho cheio de teias de aranha, local apropriado para bruxas e demais criaturas.

Era um mix inusitado entre feitiçaria e fotografia, que datava de minha adolescência e que ganhou forma durante a época de faculdade, adequando a velha superstição da captura da alma pela reprodução da imagem. A reescritura da história, cujo título sempre foi Viragem, fazendo alusão à arte de colorir fotos em preto e branco com sépia ou azul, foi tão rápida quanto agradável e me deu a oportunidade de brincar com conceitos que eu mal conhecia na época, como semiótica e geomancia. O resultado foram nove páginas e 1/4, muito pouco para estes tempos de tetralogias de mil páginas, mas o conto foi publicado.

Tentando ignorar os erros de revisão
Qual não foi minha surpresa ao, um ano depois, receber a informação que esse conto de certa forma ingênuo e freudiano sobre a impotência, e consequente inveja, dos homens diante das mulheres absurdamente impactantes – cunhando um termo que gosto de chamar de “inveja da vagina” – tinha sido selecionado como finalista do Prêmio Argos, o único dedicado à literatura de gênero fantástico no Brasil.

Jamais passou por minha cabeça que levasse o prêmio, principalmente porque a concorrência era avassaladora: o finalista do Prêmio Nebula, Christopher Kastensmidt, o talentoso Carlos Orsi, a saudosa Maria Helena Bandeira, a dupla competente formada por Luiz Felipe Vasques e Daniel Bezerra, e o recém-chegado A. Z. Cordenonsi, todos com trabalhos (bem) maiores que o meu. Compareci ao Planetário da Gávea acompanhado de meu filho mais velho, Pedro Henrique, e essa foi a melhor decisão que tomei no dia, pois a expressão dele ao ouvir meu nome como vencedor foi o melhor dos presentes.

Agora o Argos para Melhor Conto de 2014 está aqui, em minha sala, com todo o destaque que merece. Porque posso até me surpreender com a vitória, mas gosto de acreditar que às vezes, mesmo contra todas as premissas, o resultado despretensioso da imaginação do adolescente merece o respeito e o reconhecimento do homem de cinquenta anos.

(ATUALIZAÇÃO) Esqueci de dizer que meu romance Reis de Todos os Mundos Possíveis também estava concorrendo como Melhor Romance, mas perdi – com justiça – para o amigo Fábio M. Barreto e sua história de FC pós-apocalítica Filhos do Fim do Mundo.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

As (quase infinitas) possibilidades dos quadrinhos

Se me perguntassem qual tema tem sido mais constante entre meus orientandos de graduação, o termo que viria em primeiro lugar, com larga vantagem para o segundo, seria “jornalismo em quadrinhos”.

A influência de Joe Sacco, o papa dos jornalistas quadrinistas, autor de Palestina e Gorazde, e de Marjane Satrapi, autora do icônico álbum biográfico Persépolis, parece inesgotável nos jovens estudiosos da nona arte (mas não era a oitava? O que terá acontecido desde 1984, quando os alunos da EBA - UFRJ lançaram o fanzine de quadrinhos Arte 8? Esses quadrinhos vivem levando banda). Os já clássicos Will Eisner e Art Spiegelmann também são bem cotados, mas ninguém mais parece interessado em basear suas pesquisas em Um Contrato Com Deus ou Maus, talvez por já terem se tornado obviedades muito referendadas – na verdade, pode ser que devessem ser lidas com maior atenção, indo além das qualidades pioneiras, mas isso já é outro post – ou mesmo Robert Crumb, muito ligado a um recorte tempo-cultural específico dos anos 60.

O fato é que, diante dessas aparentemente novas alternativas para o uso da narrativa em quadrinhos, os pesquisadores e alguns profissionais da ilustração tem arregaçado as mangas não mais sujas de nanquim procurado diferentes formas de expressão, algumas vezes esbarrando em construções que, se não absolutamente originais, ao menos demonstram um entusiasmo contagiante.

Esse é o caso dos panfletos romântico-sócio-idealistas das Pocket Comix, de Renato Lima. Mantendo o diálogo com um público majoritariamente feminino na faixa dos vinte e poucos anos, Lima retrata, em quadros únicos que mesclam narrativas com múltiplos desenhos de estilo urgente, baseado em grafite e Photoshop, e textos em legendas que criam um certo distanciamento poético, não apenas o ambiente urbano onde essas pessoas habitam, como seus dilemas emocionais, e se aproxima dos leitores usando as redes sociais como plataforma.

A resposta das Pocket Comix tem sido massiva a ponto do projeto ser indicado ao HQ Mix de 2014, na categoria Web Quadrinho.

A narrativa emocional, onírica e social das Pocket Comix

Mas um experimento diferente foi tentado pelo ilustrador e quadrinista pelotense Fábio Ochôa quando divulgou sua até agora única resenha literária em quadrinhos. Usando um estilo solto, a pincel, e abusando de elementos metalinguísticos, Ochôa analisou de maneira criativa e opiniática o romance O Fortim, de F. Paul Wilson, mesclando suas impressões de pontos representativos da história, tais como retratos dos personagens e cenas climáticas, tudo sem perder o humor corrosivo e a objetividade.

O quadrinista disseca o romance em seis páginas de quadrinhos rápidos cuja força e originalidade são resultado direto da velocidade perceptível com que o material foi produzido, mas nem por isso descuida da qualidade narrativa, variando as técnicas diagramáticas, às vezes dividindo uma página em 12 quadros, ou deixando as figuras soltas, sem um cenário, mas cercadas por textos que, sem restrições, voam como nuvens de insetos ou surgem em balões, criando uma leitura “em camadas”. Ora o texto representa diálogos do narrador com eventuais interlocutores, ora descreve as opiniões do crítico em primeira pessoa.

A resenha crítico-humorística de Fábio Ochoa


Pena que Ochôa não tenha dado continuidade a esse estilo de resenha. Acredito que, obedecendo à máxima que reza que toda crítica acrescenta significado e importância ao objeto, muitas obras se beneficiariam de tais análises, independente de suas qualidades intrínsecas. Eu compraria um livro de críticas literárias em quadrinhos feito por ele e usaria em sala de aula.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

O principal motivo pelo qual gosto do logo Rio 450...



...é o diálogo com a obra e o estilo de J. Carlos. 

E essa sempre foi uma das melhores caracterizações do “espírito carioca”. 

Ou, ao menos, o que ele deveria ser.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

A queda e o remake de um logotipo: o caso da revista Cabelos & Cia

Em 2001, eu era editor de arte das revistas de informática da Ediouro, a saber Internet.br, Internet Business e Webguide. Dividindo a redação conosco, havia a equipe da revista Cabelos & Cia, especializada em... bem... cabelos. A capa, sempre repetindo o mesmo padrão, com um rosto de celebridade exibindo um corte de cabelo diferenciado, não comprometia. Seu logotipo era simples, mas efetivo, usando a família Falstaff, de boa legibilidade e cujas terminações afiladas remetem às pontas de cabelos.

A boa legibilidade da revista em 2001


Quando cheguei à empresa, a revista já era considerada bom de vendas e dona de um nicho próprio, bem situada entre o público. Mudanças, se necessárias, seriam meramente, sem trocadilho, cosméticas. Porém, ainda assim, ao final do ano, devido a uma parceria com uma editora de São Paulo especializada em revistas, clamou-se internamente por uma mudança de projeto gráfico nas revistas, o que incluiu a Cabelos & Cia, que logo mudou de nome para um longo e pouco prático Cabelos, Beleza & Cia.

O logo, repentinamente agigantado, sofreu – sim, essa é a palavra – uma adequação que me espantou e ainda me causa estranheza, tornando a capa consideravelmente mais poluída.

Letras coladas e logo extended, em 2002

O então diretor executivo da publicação, tomado por uma sanha renovadora, decidiu mudar o logotipo sozinho, alterando a pobre família tipográfica e eliminando os espaços entre letras, juntando C maiúsculo com o a minúsculo, o mesmo a com o b e, golpe mortal, o o com o s. Como resultado, o antes elegante e legível logotipo tornou-se um elemento pesado e confuso no topo da página, criando  o que batizamos na redação de “Efeito Cabelas”. Sim, Cabelas, pois o o colado à serifa do s transformou-se em outra letra, alterando a leitura.

Felizmente, pouco tempo depois o projeto foi novamente alterado, dessa vez com resultados salutares para a capa da publicação. O nome voltou ao original e certeiro Cabelos & Cia, mas dessa vez em uma linha, o que melhorou a compreensão da marca, e o & ganhou uma característica mutante – às vezes opaco, às vezes transparente – que torna o logotipo mais contrastado.

A capa de Cabelos & Cia hoje: equilíbrio.

A fonte voltou à forma original, sem distorções forçadas, e a elegância retornou. Da fase de colação de letras, o C foi associado ao a de maneira mais coerente (apesar das outras junções ainda parecerem um pouco forçadas) e, graças aos deuses do bom design, o o foi separado do s.

No geral, a mudança fez maravilhas pela capa como um todo, aumentando o espaço para mais chamadas em corpos maiores, e ainda sobrou espaço para um slogan (questionável, mas que mesmo assim prejudica pouco o conjunto) acima do logotipo, coisa impensável na versão anterior.

O que aprendemos com isso? Deixe as pobres famílias tipográficas em paz. Não se meta a alterar seus desenhos sem conhecimento de causa ou sua publicação pode sofrer. E, principalmente, está em dúvida e tem um designer por perto? Guarde a soberba no armário e peça uma opinião. Com certeza custa algum dinheiro, mas você lucra no final.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Palpites e pitacos: uma entrevista perdida sobre a ficção científica brasileira

Eis uma conversa encontrada em meus back ups, datada de 2004, com a pesquisadora da UERJ, Fabiana Câmara, sobre ficção científica, com ênfase na produção brasileira de minha geração. Claro que muita coisa aconteceu desde então, mas creio que a maior parte do que escrevi, por incressa que parível, ainda é minha opinião sobre o gênero e autores, o que significa que, na verdade, quem não evoluiu fui eu..

***

Quando começou a ler FC?
Como acredito que os cânones da FC são parte inerente da cultura de massa, tive meus primeiros contatos com conceitos como viagens interplanetárias, viagens no tempo, clonagem ou pecepção extra-sensorial nos desenhos animados e HQs.

Em termos literários, considero A Chave do Tamanho, de Monteiro Lobato, o primeiro romance de FC que li na vida, em 1973, aos nove anos. Apesar de um clima de fantasia que daria arrepios em Júlio Verne, a visão de Lobato de uma humanidade miniaturizada subitamente jogada num universo hostil e buscando a readaptação é de um sense of wonder comparável às grandes obras de Wells (O Alimento dos Deuses), Matheson (O Incrível Homem que Encolheu) e Wyndham (Day of The Triffids). Outro dia li O Presidente Negro, outro romance de FC escrito em 1926 pelo mesmo autor, e fiquei apavorado com suas simpatias por ideias como eugenia e superioridade racial, mas isso não desmerece o valor dos livros infanto-juvenis, produzidos anos depois.

O segundo romance de FC que li, em 1974, foi Sabotagem no Planeta Vermelho, do francês Chistian Grénier, seguido de Xisto no Espaço, da brasileira Lúcia Machado de Almeida, ambos romances juvenis. Ou seja, meu primeiro contato com FC não foi com a vertente anglo-saxônica, mas com seu braço latino, nem sempre bem visto. Fausto Cunha, por exemplo, em seu ensaio sobre FC brasileira, critica a série onde foi publicado o livro de Grénier, considerando-o parte de uma produção de baixa qualidade literária. 

Pouco mais tarde, em 75, tive contato com Eu, Robô, de Asimov, e um livro que influenciaria toda minha vida: o fix-up Uma Sombra Passou Por Aqui (The Illustrated Man), de Ray Bradbury, também conhecido como O Homem Ilustrado. Bradbury passou a assombrar minhas redações de colégio e só perdeu o posto de meu autor preferido depois que li Histórias Extraordinárias, de Edgar Alan Poe, no ano seguinte. O último impacto relacionado à FC literária digno de nota de minha adolescência foi a coletânea de contos Sombras da Noite, de Stephen King, em 1979. Resumindo, pode-se dizer que fui influenciado pelos contos de língua inglesa e pela estrutura do romance juvenil brasileiro.

Qual foi seu primeiro contato com a FCB?
Como disse, considero A Chave do Tamanho meu primeiro contato com a FC literária de qualquer nacionalidade, mas colocando isso de lado, o primeiro romance de FCB que li foi Padrões de Contato, de Jorge Luis Calife, entre outras coisas por causa da capa, uma ilustração do casal Ingrid Von Steurer e GIlberto Zavarezzi, colegas meus da Escola de Belas Artes. Por causa desse romance, passei muitos anos sem me interessar pela produção nacional de FC.

Calife tem seu valor, sem dúvida, mas só me reaproximei da FC nacional quando comecei a frequentar as reuniões do CLFC do Rio de Janeiro e conheci trabalhos de Bráulio Tavares, Carlos Orsi Martinho, Fábio Fernandes, José Fernandes e Gerson Lodi-Ribeiro publicados no Somnium, o fanzine do clube. Quando li A Espinha Dorsal da Memória, coletânea de Bráulio Tavares, o conto O Inimigo Interno, de Fábio Fernandes, e uma aventura de horror contemporãneo de Carlos Orsi, onde ele misturava publicidade de jeans e magia, pensei "ah! Agora sim, tem algo realmente diferente na FC feita por brasileiros". Com o advento da versão nacional da Isaac Asimov Magazine, fiquei pasmo com a qualidade de contos como Complexo de Narciso, de Ivanir Calado, e A Ética da Traição, de Lodi-Ribeiro.

Quando começou a escrever e quais as principais influências?
Comecei cedo, aos, sei lá, nove anos, com textos curtos e muito apoio do meu pai. Geralmente pegava temas de redações escolares e desenvolvia em textos maiores em casa. Esse hábito durou até recentemente, quando reciclei algumas idéias da época do Segundo Grau no conto Os Olhos de Quem Vê, publicado no Megalon Especial 2000. Minha estreia profissional, porém, ocorreu apenas em 1998, com Eu Matei Paolo Rossi, publicado na antologia Outras Copas, Outros Mundos, da Editora Ano Luz.

As influências são difíceis de determinar, mas posso analisar alguns de meus textos.

• Íris Lettieri no Céu, de 2001, publicado no fanzine Hiperespaço: trata-se de um sonho transcrito quase ipsis-literis onde vejo ecos das crônicas de Carlos Eduardo Novaes;

• Armageddom em Madureira, de 2003, na edição especial do Hiperespaço: disseram que esse conto tem influências de Stephen King, mas na verdade é puro Ray Bradbury, com pitadas da mais reles Marvel Comics. O título e o plot inicial - o fim do mundo no subúrbio do Rio - veio diretamente de outro sonho, mas o conteúdo foi bastante alterado;

Os Olhos de Quem Vê, 2000, Megalon Especial: a base foram os contos "apaixonados" de Edgar Alan Poe, com suas mulheres diáfanas, fascinates e irremediavelmente mortas, mas há algo das obras de Richard Matheson, Bid Time Return (Em Algum Lugar do Passado) e I Am Legend (Eu Sou a Lenda);

Eu Matei Paolo Rossi, de 1989, publicaod na antologia Outras Copas, Outors Mundos: afirmaram que baseei o contexto desse conto no curta-metragem Barbosa. Pois bem, até hoje jamais assisti ao filme. As raízes de EMPR estão, mais uma vez, em Carlos Eduardo Novaes e Richard Matheson;

Um Museu de velhas Novidades, 2000, em Intempol: aqui sim, Stephen King é a influência principal, mas ainda há elementos de dezenas de fontes diferentes, de seriados de televisão a romances de Ian Fleming, de letras de canções de Cazuza a paráfrases de Nietzsche;

• Trevo, 2000, em Phantástica Brasiliana: Bradbury, Bradbury, Bradbury. O Bradbury de O Lixeiro e As Frutas no Fundo da Fruteira.

• A Mão Que Cria - romance de 2006, inicialmente concebido como uma novela para o site Hyperfan, em 2003: a mistura de Anno Dracula, de Kim Newman, e Os Portais de Anúbis, de Tim Powers, deu nessa novela fanfic Steam/Cyberpunk.

A que deve a situacão da FCB no panorama literário brasileiro atual?
Em primeiro lugar, vamos estabelecer que FC é, como o Rock'n Roll, um misto de produção cultural e atitude multimídia, certo? Ambos são fenômenos policulturais ligados à contemporaneidade. A FC brasileira existe e não existe. Dizer que ela é mal sucedida é fechar os olhos a sucessos televisivos como O Clone, e até a facção mais hard ganha inegável receptividade quando Calife lança seus trabalhos por editoras de renome, como Record e Nova Fronteira. Se pararmos para pensar, perceberemos que autores de porte – que jamais seriam considerados "de gênero" pelos críticos, público e até por si próprios – flertaram com a FC. João Ubaldo Ribeiro escreveu O Sorriso do Lagarto, para mm, uma clara referência/reverência à Ilha do Dr Moreau, de H. G. Wells; Novaes lançou nos anos 80 o romance futurista A Próxima Novela; Marcelo Rubens Paiva, em Blecaute, fez uma versão nacional dos romances sobre fim do mundo e, como eles, muitos outros venderam bem seus trabalhos de ficção especulativa, mas recusaram o rótulo de FC (assim como Margareth Atwood faz). O problema, então, fica claro: assim como os músicos de rock pesado que participaram do primeiro Rock In Rio recusavam título de "metaleiros", os autores mainstream não aceitam ser classificados em um gênero conhecido por sua alta população de discos voadores, foguetes e alienígenas verdes. Esquecem, claro, que o gênero é mais amplo que isso e abrange romances de peso como Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, 1984, de George Orwell, Anthem, de Ayn Rand, A Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, ou Não Verás País Nenhum, de Ignacio de Loyola Brandão. Logo, é óbvio que a FCB existe, afinal, muitos autores mainstream escreveram dentro do gênero e há montes de exemplos de telenovelas, filmes e até discos que bebem na mesma fonte. 

Porém, é igualmente óbvio que ela não existe, pois poucos admitem que suas produções estão dentro do que eles crêem ser ficção cient‚fica. Eis porque, quando autores que assumem suas ligações com o gênero como Bráulio Tavares e Ivanir Calado, apresentam seus trabalhos às grandes editoras, evitam o rótulo "FC", e eis também o motivo do repúdio dos editores àqueles que, despudorados, apresentam seus textos como ficção científica "pura e dura". Por outro lado, é necessário percebermos que há uma veia dentro da literatura brasileira que não apresenta nenhum preconceito contra a FC ou qualquer outro gênero: a infanto-juvenil. Júlio Emílio Bráz, Sylvio Gonçalves, além do próprio Ivanir Calado não tiveram problemas em lançar livros de temática claramente FC voltados para crianças e adolescentes. E isso, é bom lembrar, remonta aos tempos de Monteiro Lobato.

Voltando à questão, a situação da FC no mercado editorial brasileiro talvez melhore quando os autores mainstream forem mais informados a respeito do gênero e os escritores de gênero menos limitados em seus gostos. Trata-se de ignorância numa rua de mão dupla.

Por que gêneros como Realismo Mágico e Policial teriam maior projeção?
Porque a FC é uma literatura de criação de universos e os outros, não necessariamente. O policial se aproxima do mainstream em sua construção de personagens (Ruben Fonseca, que ninguém duvida ser um escritor de gênero, seria, caso existisse uma tabela assim, um autor mainstream que lança mão de maneirismos do romance policial) enquanto a fantasia, graças à popularidade dos RPGs e à perenidade dos contos de fadas, não precisa ir muito longe na hora de descrever seus ambientes, afinal, todo mundo sabe como uma *faerieland padrão* deve parecer, com seus dragões, gnomos, magos, ogros e guerreiros mezzo-medievais. A FC, por outro lado, durante anos priorizou a originalidade na construção de universos em detrimento da profundidade de personagens, mola mestra da literatura "séria". Quando certos romances crescem na elaboração de personagens, como em O Sorriso do Lagarto, a crítica tende a não classificá-lo dentro do gênero (é sério, logo, não é FC). Ora, se levarmos em consideração que a FC não se restringe mais a uma literatura tecnológica e juvenil, englobando subgêneros como o Cyberpunk, Steampunk, Ribofunk e Alternate History, veremos que é quase impossível para um autor contemporãneo escapar de um ou outro truque do vasto arsenal do gênero ou mesmo a seu sense of wonder. Romances como V., de Thomas Pynchon, que lida com a possibilidade de uma imortal influenciando a sociedade durante todo o s⁄culo XX; Sobre Heróis e Tumbas, de Ernesto Sabato, com seu grupo de cegos illuminatti, ou Todos os Nomes, de José Saramago, onde uma biblioteca tesseract serve como base a uma distopia totalitária que estoca informação sobre todos os cidadãos, são típicos casos de literatura considerada mainstream mas que, a olhos treinados, são claramente FC. Por essas e outras, desde que me envolvi com FC literária, cunhei a frase "Tudo É FC", como uma maneira de valorizar o  gênero, transformando-o em espelho da produção atual.

Quais os principais autores de FCB, por subgênero, dos anos 80 até hoje? E as principais obras?
Agora correrei o risco de ofender alguns, mas vamos lá. Tenho de citar o Calife como o mais conhecido autor hard do Brasil, mas não entro no mérito de seus romances e contos. Bráulio Tavares é o melhor estilista de todos, criando uma narrativa de sabor regional, e seu Espinha Dorsal da Memória é indispensável. Fábio Fernandes é o mais completo, cuja temática varia do mais tradicional space opera ao cyberpunk radical. O dificílimo de encontrar Interface com o Vampiro é daqueles livros que ficam marcados na memória. O mais prolífico é Carlos Orsi Martinho, e sua antologia de estréia, Medo, Mistério e Morte, mescla horror, dark fantasy e FC como poucos. Gerson Lodi-Ribeiro tem, em minha opinião, seus melhores textos na seara da Alternate History, sendo a antologia O Vampiro de Nova Hollanda o melhor exemplo de seu trabalho. O versátil Ivanir Calado, escritor e artista plástico, trabalha muito bem com FC de cunho juvenil, mas o romance A Mãe do Sonho, menos FC e mais Dark Fantasy, é capaz de um sense of wonder dos melhores ao mesclar mitos amazônicos a um ambiente contemporãneo. Max Mallmann é um romancista competentíssimo, ágil e ligado a seu tempo. Se Síndrome de Quimera concoreu ao prêmio Jabuti, o romance seguinte, Zigurate, é um típico exemplo de boa FC pulp/brasileira. Fausto Fawcett é sensacional e seu trabalho que mais merece reconhecimento é, claro, Santa Clara Poltergeist, precursor do Cyberpunk brasileiro, com uma mistura multimídia de disco/livro/clipe.

E por enquanto, dentro de meus limites, parcos conhecimentos e leituras, é só.

terça-feira, 25 de março de 2014

Marcas, logos, símbolos e como batizamos nossos filhos

1 – OS NOMES E OS BOIS

Carlos Horcades, em seu livro A Evolução da Escrita – História Ilustrada, afirma que a grafia da letra “A” já aparecia há 1500 anos antes de Cristo, em inscrições proto-sinaicas (ou seja, produzidas por uma cultura anterior à hebraica) representando uma cabeça de boi, com olhinhos e tudo (é só inverter o A para perceber a semelhança que ainda existe com uma cabeça de touro, as hastes representando os chifres). “Alp” era a palavra canaita que significava “boi” e, em consequência, o grafismo passou a ter a mesma nomenclatura. Os hebreus, posteriormente, mudaram a palavra para “Aluf”, mas o símbolo se manteve, apesar de sofrer algumas rotações.

Logo, os fenícios e, em seguida, os gregos, aprenderam o alfabeto proto-canaíta, que adotava elementos de diversas culturas, e renomearam a letra como “Alef” e, depois, “Alpha”. Para os egípcios, era “Ápis”. O mesmo aconteceu com outros grafismos , tais como o “H”, originalmente um pictograma representativo de uma cerca. Ou seja, o nosso “A” nada mais é que uma cabeça de boi e isso devia ser tão importante para todos daquela época que a letra não apenas ganhou proeminência no alfabeto ocidental, como imortalizou-se. Isso significa que, mesmo que não saibamos mais o motivo pelo qual originalmente grafamos o “A”, sua importância subsiste.


Da escrita proto-canaíta aos caracteres atuais

Primeira conclusão parcial: é importante grafar corretamente para que o significado – algo maior que o simples nome – se perpetue e a comunicação ocorra sem ruídos. Um “A” é um “A” e não pode ser qualquer outra coisa. Parece uma afirmação óbvia, mas não é, como veremos adiante.

Agora, outra questão, um pouco mais contemporânea. Nomes tem função. Leonardo não se chamava “Da Vinci” à toa. Ele era originário de Vinci, região de Florença. Sobrenomes indicam filiação ou origem geográfica e servem até hoje como uma maneira de identificar os antecedentes de um indivíduo. Por incrível que possa parecer, os prenomes também servem para uma identificação rápida ou mesmo uma classificação de cunho mais pessoal, enfatizando características físicas (ou desejos dos pais em relação ao futuro dos filhos). O meu nome, por exemplo, era usado originalmente apenas em crianças que fossem o oitavo filho. E que me desculpem os amigos chamados “Cláudio”, mas esse nome surgiu para evidenciar um defeito físico, pois significa “manco”, em latim. Louras batizadas como “Bruna” são uma contradição, já que esse é o termo usado para designar “escura”. É por isso que cada vez mais vemos jovens casais sendo aconselhados a pesquisar as origens etimológicas dos nomes de seus futuros filhos.

Voltando ao meu nome, podemos “traduzi-lo” assim: Octavio – Oitavo *filho* (falso) Carvalho  – Cristão novo *ex-judeu* (verdadeiro em relação aos meus antepassados) Aragão – Originário do reino de Aragão (também verdadeiro em relação aos antepassados) Júnior – Que tem o nome igual ao do pai (verdadeiro). Fico triste em perceber que apenas meu prenome, logo aquele pelo qual sou mais conhecido, seja uma mentira.

O mesmo acontece em outras situações. Quando um aprendiz toma contato com as características daquele que será seu ofício, é apresentado a uma série de técnicas e procedimentos que representam o cerne de sua profissão. Cada instrumento tem um nome. Cada processo também, pois imaginem o que poderia acontecer se um advogado trocasse as definições das leis. Ou se um cirurgião substituísse o nome de um forceps pelo de um bisturí em plena mesa de operações.

Segunda conclusão parcial: cada instrumento e qualquer atividade desenvolvidos pelo homem tem um nome que, geralmente, indica suas utilidades, objetivos ou manejos, sob pena de potencial desastre.

Isso posto, não é curioso que, de todas as profissões existentes, o design, que lida com a confecção de artefatos e elementos comunicacionais, seja a mais vilipendiada no que diz respeito à nomenclatura?

Ouço diversos designers chamando a uma família tipográfica, coleção de tipos desenhados com formas assemelhadas por obedecerem a um mesmo módulo construtivo e projetual, de “tipologia”. Não que isso cause grandes problemas de comunicação, pois geralmente o interlocutor deduz que o outro está se referindo à forma das letras apresentadas em um determinado texto, mas vejamos o que diz o dicionário Michaelis:

Tipografia1. Arte de compor e imprimir com tipos. 2. Estabelecimento onde essa arte é praticada. 3. A seção da oficina onde se realiza o trabalho de composição (de tipos).

Tipologia – 1. Caracterização dos tipos humanos, dos seres vivos ou de realidades quaisquer consideradas num estudo. 2. Descrição geral desses tipos em cada caso.

Deduzimos então que o termo mais apropriado, ao nos referirmos a uma família de textos compostos seria “tipografia”, pois “tipologia” diria respeito ao estudo ou à descrição dos tipos, não à sua representação gráfica. Um tipógrafo compõe e imprime tipos, enquanto um tipólogo os estuda.

2 – O TIPO DA MARCA

Então chegamos àquela eterna diatribe entre designers e publicitários: a paridade entre os termos “logotipo” e “logomarca”. Afinal, o que é o certo? Há quem diga que logomarca não existe, que é uma apropriação indevida de dois termos inconciliáveis e que leva ao erro. Alguns insistem que são sinônimos e que, na verdade, logomarca, por sua abrangência, faz mais sentido. Tem até quem estabeleça características facilmente detectáveis para as logomarcas, como Daniel Portillo Serrano. Prefiro me ater às definições do mestre Gilberto Strunck, que, em 2007, durante uma palestra no evento SDesign, em Vitória, deu um exemplo que considero definitivo (e tem funcionado perfeitamente bem para mim desde então).

Pegue sua carteira de identidade. A “marca” seria a inscrição de seu nome com uma tipografia genérica, apenas o registro de como se deve escrever a nomenclatura. É sempre bom recordar que, quando registramos uma marca, é apenas isso que o INPI exige a princípio: um nome.

No verso, na parte inferior, você tem seu nome escrito com sua caligrafia, uma assinatura, e isso seria seu logotipo: seu nome escrito de uma maneira personal e imutável. E isso que dizer, fechando uma ponta solta lá de cima, que o “A” escrito numa caligrafia específica, como a inicial de Aragão, por ser uma assinatura, carrega mais significados que um “A” grafado com outras tipografias.

À esquerda, existe a impressão de seu polegar direito, a impressão digital, comumente usada para que até um analfabeto registre um documento. Ela seria o correspondente ao seu símbolo: um registro único e intransferível de uma imagem que, para sempre, representará sua identidade.

E a fotografia, já me perguntaram, seria o quê? Gosto de acreditar que, assim como nas pinturas medievais, a malfadada foto 3x4 que todos odiamos, com suas regras sobre ausência de sombras e inexpressividade do modelo, seria um ícone: uma representação idealizada do indivíduo, visando um tipo de reconhecimento universal do rosto.

Símbolo, logotipo e... ícone?


Assim, seguindo essa lógica, não haveria uma “logomarca”, até porque a interpretação de “logo + marca” não seria “letra + imagem”, como querem alguns, mas “conceito + significado” (“marca” viria, no caso, do termo germânico marka). Claro que podem dizer que “marca”, num sentido mais aportuguesado, é “risco”, “desenho”, “rabisco”, mas aí a coisa complica, porque não bateria com o sentido definido pelo próprio INPI, instituição responsável pelo registro de “marcas” e “marcas figurativas”, que, espertamente, incluem “desenhos, figura ou qualquer forma estilizada de letra e número, isoladamente”. Para o INPI existem apenas essas nomenclaturas, o que deve facilitar o trabalho deles, mas não nos ajuda na classificação dos elementos. Para eles “marca” é “nome” e todo o resto é “marca figurativa”.

Conclusão: nomes tem poder. É necessário que dominemos a todos, compreendamos suas origens e decodificações, assim como controlamos os processos de criação, confeção e reprodução. Ao contrário do que muitos acreditam, não basta “saber fazer” design, repetindo conceitos baseados em “ouvi dizer” e senso comum. Se você não percebe o que faz em essência, não está cumprindo o seu papel como designer, mas apenas produzindo uma “casca”, um trabalho sem racionalização e, possivelmente, sem conteúdo. Ou pelo menos sem um conteúdo percebido por você, o designer, logo quem deveria ter controle sobre o material comunicacional que realiza.

Afinal, um pai que não compreende o sentido do nome do filho não sabe quem ele realmente é.

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BIBLIOGRAFIA:

Horcades. C. M. – A Evolução da Escrita – História Ilustrada. Senac Rio, Rio de Janeiro – RJ. 2004
Michaelis – Dicionário Escolar Língua Portuguesa. Melhoramentos, São Paulo – SP. 2008
Portal INPI – http://www.inpi.gov.br/portal/acessoainformacao/artigo/marca_1351691433930 – Acessado em 25 de março de 2014
Serrano. D, P. Qual a diferença entre Logotipo e Logomarca? – In http://www.portaldomarketing.com.br/Artigos3/Qual_e_a_diferenca_entre_Logotipo_e_Logomarca.htm – Acessado em 25 de março de 2014