quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Nomes Tem Poder, Parte 2: do jargão profissional ao fetichismo da mesóclise

"Logos em grego quer dizer conhecimento e também palavra. Typos quer dizer padrão e também grafia. Portanto, (logotipo significa) grafia da palavra ou palavra padrão. Agora, (logomarca, que se traduz como) palavra marca ou conhecimento marca quer dizer o quê? Coisa nenhuma"
ESCOREL, A. L.

O Efeito Multiplicador do Design


Uma discussão no Facebook, iniciada por essa citação feita por mim ao livro de Ana Luiza Escorel, uma das maiores pesquisadoras de design do Brasil, revelou um conflito que me parecia resolvido há anos, relacionado à grande discórdia léxica do mundo da comunicação visual (ao menos no que tange a Terra Brasilis): logomarca seria um sinônimo aceitável para o termo logotipo?

A esse respeito, eu mesmo já havia escrito um artigo para este blog em 2014, que acreditava colocar um ponto final na discussão, mas me deparei com outra linha argumentativa, que, ao lançar mão de uma visão contemporânea da gramática, validaria a utilização do termo logomarca como um neologismo validado pelo uso e pelo entendimento por parte dos leigos. Em resumo, se o vulgo usa e compreende o termo logomarca e se ele cumpre sua função sígnica em relação ao que se quer nomear, realizando de maneira coerente uma comunicação, então é válido e deveria ser aceito como um termo senão oficial, pelo menos oficioso

Indo um pouco além, e agora cito a frase de um ex-aluno meu que me questionou a respeito, "se a palavra consta nos dois repertórios fazendo referência ao mesmo objeto, a comunicação é efetuada". Eu poderia concordar com isso se – e claro que haveria um "se" – a relação entre o termo e o que visa representar fosse precisa ou, no mínimo, clara. A qual objeto se refere o termo logomarca? Ao código linguístico de uma empresa ou produto? Ao seu fonema? À sua representação por escrito? Ao símbolo muitas vezes abstrato que o representa, prescindindo de letras ou sons? Ou é um termo que representa tudo isso junto? Esse é o grande problema. Não é um termo que resolva uma questão,  muito pelo contrário, ele incita a mais perguntas, cria mais dúvidas. E tudo que o designer quer é sanar dúvidas.

"Logomarca pode ser até um termo mais eficiente, porque engloba ao mesmo tempo marca, logotipo, simbolo, etc"

Na verdade, não. Não há como ser eficiente sem um léxico claro e direto. Vamos usar o exemplo da medicina, que sempre me é tão caro: imagine um cirurgião que, ao necessitar fazer uma incisão em um paciente, peça o escalpelo. Ou pior, crie um novo termo, um "incisor", em lugar de "bisturí". As chances de se criar um ruído, e, em consequência, um problema maior que o original são infinitas. 

A definição do termo, pela Wikipedia
Da mesma maneira, ao ser solicitado a criar uma logomarca, como saber a que o cliente se refere? É um pedido que gera um escrutínio ainda maior da parte do designer, visando identificar a necessidade real de seu cliente. Às vezes, um logotipo se basta. Outras vezes, acrescentar um símbolo é necessário. Usar o mesmo termo para múltiplos elementos não ajuda em nada, configurando maior perda de tempo e, em consequência, dinheiro.

O terceiro ponto digno de nota na discussão é muito mais sério, em meu ponto de vista, e diz respeito à imposição de uma autoridade, uma "dinâmica de poder", quase sempre por um viés autoritário, um julgamento de valor da parte daqueles que dominam o jargão em detrimento daqueles que não tem a mesma destreza.  E o exemplo que me foi dado referia-se ao uso da mesóclise por uma figura pública contemporânea.

"Julgamentos de valor nessa seara costumam refletir uma dinâmica de poder... tipo o fetichismo da mesóclise ao abordar o discurso do presidente, mesmo que ela tenha sido amplamente abandonada no uso cotidiano"

Isso é um fato. Realmente, há uma dinâmica do poder dentre médicos, economistas e advogados que, graças à utilização de um jargão próprio, afastam aqueles que não são seus "iguais". Porém, não é esse o caso dos designers. Exatamente por sua posição fragilizada na hierarquia das profissões, principalmente no Brasil, os designers não possuem o peso que outras atividades socialmente estabelecidas há séculos dispõem. Pelo contrário: o jargão dos designers, longe de visar afastar o público, busca aproximação e confluência, com clareza raramente vista em outras áreas. 

Por exemplo, o verbo "repaginar" diz respeito à alteração da ordem de páginas em uma publicação – e apenas isso. No entanto a apropriação do termo pela publicidade e a moda, transformou o verbo, originalmente simples, direto e funcional, em outra coisa de significado muito menos claro. Hoje se pode "repaginar" um guarda-roupas, uma fachada, um projeto de vida... ou seja, não há nenhuma intenção de imposição de poder no uso do jargão do design, apenas melhorar a comunicação, o que me parece muito mais socialista que o uso de uma mesóclise fora de contexto.

Assim, claro que a língua evolui, claro que neologismos, como já disse o hoje tão perseguido Monteiro Lobato, devem correr livres, pois "sem eles não há renovação", porém, no caso do jargão do design, o fetichismo vem de fora, vem da apropriação indébita com intuitos questionáveis que, em consequência, podem causar ruídos e colocar em risco senão alguns lucros, pelo menos a relevância de uma profissão ainda tão pouco respeitada no Brasil.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O design dos filmes [1]

Divagando sobre design e cinema: adoro Aliens - O Resgate, mas tenho um zilhão de problemas com o design de produção desse filme, que vão desde o contador de tiros do fuzil – inútil, já que está posicionado fora do alcance visual do usuário – até o piso em placas modulares da nave dos Marines, em uma área que fica exposta à gravidade zero, que até uma criança consegue arrancar com as mãos nuas.

Ah, designers...



domingo, 8 de janeiro de 2017

Cinco filmes de Ficção Científica que você jura que não são Ficção Científica (mas são)

A definição de Ficção Científica consegue ser quase tão fluída e arredia quanto a de "Design", "Rock'n Roll" ou mesmo "Cultura". Há quem diga que são histórias onde a tecnologia assume um papel preponderante ("retire os elementos de FC e veja se a história se mantém. Em caso positivo, não é FC"), há os que focam na questão racionalista (tudo tem de ser meticulosamente explicado e crível por métodos que se aproximam do científico), sites especializados arriscam – "gênero cujos conteúdos se baseiam em supostos feitos científicos ou técnicos que poderiam acontecer no futuro" – e até a Wikipedia acha que sabe do que está falando: "gênero literário desenvolvido no século XIX, que lida principalmente com o impacto da ciência, tanto verdadeira como imaginada, sobre a sociedade ou os indivíduos". 

Todas essas definições podem ser consideradas corretas, mas, vamos lá: 


A – Retiremos os elementos de FC de, digamos, Star Trek e o que temos? Uma série sobre aventureiros militarizados visitando novas civilizações, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve", só que em um navio, no século XVIII. Tudo, absolutamente tudo, se mantém, incluindo as orelhas pontudas do Sr Spock, clara referência a personagens orientais clichezados como Fu Manchu ("Perigo Amarelo", olha aí). Star Trek deixa de ser FC por causa disso? Não. Nem um pouco.


B – Credibilidade científica. Sei... então vamos retirar H. G. Wells do jogo, porque não era isso que o escritor britânico amigo de Lênin buscava, mas metáforas onde a FC entrava como grande ferramenta narrativa, sem lá muitas explicações coerentes (alguém entendeu como Griffin virou o Homem Invisível?  Como funciona a Cavorita? Ou mesmo a Máquina do Tempo?). Nah, mas Wells é indubitavelmente FC, assim como a mãe de todo o subgênero, Mary Shelley, escritora mais do que displicente na hora de "explicar" como a vida despertou o corpo da criatura, em Frankenstein.


C – Feitos tecnológicos que possam acontecer no futuro. Nem toda a FC acontece no futuro. Algumas das melhores acontecem no passado, como por exemplo, dentre uma miríade de romances, Darwinia, de Robert Charles Wilson, que se passa no século 19, e a saga Clan of The Cave Bear, situada na pré história. Mais uma vez, nada disso deixa de ser FC por não se passar em um hipotético futuro.


D – O impacto da ciência sobre sociedades ou indivíduos. Hmm... essa é mais capciosa, mas vamos lá: qual ciência? Os mais afoitos, certamente, se aferrariam às exatas, as míticas engenharia fogueteira robozeira, química ribofunkeira recombinante ou mesmo biologia bacteriológica biorrítmica. Mas e a sociologia, a psicologia ou até a História com H maiúsculo? Todos lembramos da série Fundação, certo? Para além dos foguetes e dos milagres tecnológicos, qual a grande sacada da obra de Asimov? Aquilo que ele chamou de "psico-história', que misturava matemática estatística, sociologia, psicologia e história em uma ciência que estudaria (e anteciparia) o comportamento humano. Sociologia... História... Psicologia (que até hoje nem é considerada como ciência propriamente dita)... tudo isso é material farto para histórias de Ficção Científica dignas desse excelso nome.


Em tempo: sabiam que o primeiro nome da Internet seria "psicohistória"? Esse era o nome que Tim Berners-Lee queria para o projeto World Wide Web, pois seria o receptáculo de todo o conhecimento da humanidade. Não rolou, mas isso não impediu o surgimento dessa nova ciência em nossa realidade, vejam só...





Mas divirjo, o fato é que há muitas obras que se enquadram no gênero mesmo sem as questões apontadas acima. Elenquei cinco filmes bastante populares que são indubitavelmente FC, mas que não são facilmente classificados como tal aos olhos do grande público.


1) A GUERRA DO FOGO (1981)

Uma grupo de caçadores neolíticos sai em jornada de resgate do bem mais precioso de sua tribo: uma chama.
No caminho, descobrem como lidar com outras tribos, animais e, finalmente, mas não menos importante, o amor. 

Por que é FC? Porque tudo é uma grande suposição de como as coisas aconteceram – baseada no trabalho de grandes nomes da ciência e da especulação científica. Por exemplo, a linguagem dos homens primitivos utilizada no filme (completamente funcional, diga-se de passagem) foi  criada por ninguém menos que Anthony Burgess, o autor de Laranja Mecânica.










2) O SHOW DE TRUMAN (1998)
A vida de um homem é o projeto de um produtor de TV. Tudo na vida de Truman é calculado dentro de uma trama televisiva, visando manipular os afetos – e a publicidade – do planeta. Truman é o homem mais famoso do mundo, mas, para azar dele, só desconfiou que sua vida é uma farsa meticulosamente elaborada há um dia. 

Por que é FC? Porque se trata da extrapolação da sociedade do espetáculo até seu limite mais extremo (do qual, pelo visto na última década, graças aos reality shows, não estamos muito distantes).









3) O 13º GUERREIRO (1999)

No ano 922, um embaixador árabe é enviado para conhecer e contactar... vikings. Até aí, tudo bem, mas os problemas começam quando o grupo de exploradores é chamado para ajudar uma aldeia nórdica a combater misteriosas criaturas noturnas e carniceiras.

Por quê é FC? As ameaças combatidas pelo grupo de aventureiros não tem nada de sobrenatural. Contar a natureza dos "monstros" estragaria a surpresa, mas basta dizer que genética e antropologia fazem parte conceitual desse filme baseado na obra de Michael Crichton, autor de O Enigma de Andrômeda, Jurassic Park e diretor do primeiro filme Westworld








4) RASTRO DE MALDADE (2016)


Nos últimos anos do século 19, uma cidade no oeste dos EUA sofre ataques do que seria uma tribo de índios ainda não identificada. Infelizmente, as flechas estranhas e os corpos macerados são apenas o primeiro passo em uma jornada de horror onde nada é o que parece.

Por que é FC? Da mesma maneira que o filme anterior, mas de maneira ainda mais efetiva, a base dessa história é uma extrapolação sobre a antropologia.











5) ALGUM LUGAR NO PASSADO (1980)


O romance entre o teatrólogo da segunda metade do século 20 e a atriz nascida no século 19 só acontece depois que o diretor recebe um relógio de presente de uma misteriosa senhora, se apaixona por um retrato da diva e viaja no tempo para encontrá-la. Uma vez no passado, deixa o relógio com a amada, pedindo que ela o reencontre no futuro, estabelecendo um ciclo infinito (e, de lambuja, a história de amor definitiva).

Por quê é FC? Todo o processo aparentemente maluco de viagem no tempo por auto hipnose pode ser considerado uma interpretação criativa do conceito do Gato de Shrodinger, um dos preceitos da mecânica quântica. O físico Edwin Schrodinger explicou o comportamento "ilógico" das partículas subatômicas usando uma metáfora que incluiria um gato e uma caixa indevassável. Na situação proposta por ele, o gato inserido na caixa ficaria à mercê de partículas radioativas. Se tais partículas circulassem pela caixa, o gato morreria e, caso não circulassem, ele permaneceria vivo. Certo, mas do ponto de vista subatômico, ambas as possibilidades coexistem simultaneamente (perdoem o redundância, mas nesse caso é importante) e o gato estaria vivo e morto. Vejam bem, não "vivo ou morto", mas "vivo e morto". As duas opções seriam válidas até o momento em que decidíssemos abrir a caixa e, então, a realidade convergiria para apenas um estado, aí sim, "vivo" ou "morto". Repetindo: antes de abrirmos a caixa, as duas opções são reais. Depois de abrirmos a caixa, apenas uma existe. Fui claro? Então voltemos ao filme.

Ao se descobrir irremediavelmente apaixonado pelo retrato da atriz que teve seu auge no início do século 20, Richard, o diretor, decide se fechar em um quarto de hotel no qual ele sabia que a atriz havia habitado. Cercado de móveis da época, vestido em uma roupa do período e sem nenhum indício que o remetesse à sua realidade presente, Richard induz a própria mente a um estado de transe. Após algumas tentativas, Richard abre os olhos no mesmo local, mas em outro tempo. Seu corpo, porém, continua deitado no século 20, enquanto "outro corpo" levanta da cama e "vive" no passado. Ou seja, Richard tornou-se o "gato de Schrodinger"estando, ao mesmo tempo, em dois espaços/tempos (porque, em termos quânticos, espaço = tempo). Enquanto sua imersão induzida não é interrompida por estímulos externos advindos de seu tempo de origem, Richard permanece – efetivamente – no passado, mas no momento em que uma moeda contemporânea aparece em seu campo de visão, o efeito é como se alguém abrisse a tampa da caixa do gato de Shrodinger e, em consequência, ele volta ao presente, ou seja, apenas uma realidade torna-se possível. Eis como um dos filmes mais românticos e "água com açúcar" de todos os tempos (pun intended) torna-se uma obra ímpar de Ficção Científica. Mas também não seria de se estranhar, já que o autor do romance original é Richard Matheson, criador de pérolas da FC como o romance Eu Sou a Lenda e o conto A Caixa, ambos também adaptados para o cinema.


Finalizando, o elemento importante para definir o subgênero da Ficção Científica não me parece ser a presença tecnológica, a determinação futurista ou mesmo o estabelecimento de com qual ciência estamos lidando, mas o potencial extrapolativo – eita, palavra feia – de uma questão (será possível viajarmos no tempo? Neandertais teriam sobrevivido por mais tempo que pensamos? Como terá sido a descoberta do amor em decúbito frontal?) desenvolvido em forma ficcional. O melhor nome, então, talvez fosse "ficção extrapolativa", como alguns já tentaram oficializar, mas convenhamos que soa mal ao ouvido, parece pretensioso e inacessível. Por outro lado, a definição "ficção que desenvolve o potencial extrapolativo de uma questão ligada ao desenvolvimento humano" me parece bastante satisfatória. 

domingo, 27 de novembro de 2016

Se o olhar matasse...

Durante a missa de sétimo dia de meu cunhado, percebi que era um estranho no ninho, cercado por aproximadamente uma centena de senhoras brancas na faixa dos 70/80 anos. Devia haver uns dez membros do sexo masculino e apenas, sim, me dei ao trabalho de contar, quatro pessoas negras. O padre, um homem caucasiano de 38 anos (como sei? Era aniversário dele e o exército de senhorinhas entoou um entusiasmado "Parabéns Pra Você", com direito ao abanar de mãos estendidas, um baile funk da terceira idade), gerenciava a cerimônia com um mix equilibrado de solenidade e piadinhas pontuais. Showman profissa, repetindo o score na ponta da língua para o público cativo. Era o Stephen Tyler do cristianismo.
Enquanto pensava em como Freud faria uma festa – ou um baile funk, fica à sua escolha – com tudo aquilo, percebi dois olhos me fulminando. A uns quinze metros de distância, a senhora, cabeça quase totalmente virada sobre o ombro direito, me encarava com um ar de curiosidade e ofensa, boca meio aberta, muda, cabelos soltos, levemente desgrenhados. Como se perguntasse como eu me atrevia a estar ali, conspurcando o solo sagrado.


"Ah, besteira", pensei, "Paranóia de minha parte, sempre me achando o centro das atenções".
Sorri e desviei o olhar, prestando atenção na Missa, um sermão cuja descrição nada acurada de Jesus Cristo o aproximava de uma fusão senso comum de Sergio Moro, Clark Kent e Rei Arthur.
Vinte minutos de missa e os olhos ainda queimavam. A senhorinha prestou zero atenção à pregação, cabeça virada, cabelos emoldurando a boca pendente. Com sorte, ela foi dali direto ao confessionário.
Mas creio que saí no lucro: ganhei um personagem para uma futura história de horror.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Eventos e mais eventos.

Depois de falar sobre Neil Gaiman e Sandman no Sexto Colóquio de Filosofia e Quadrinhos, no IFCS, UFRJ, chegou a vez de palestrar sobre Jornalismo em Quadrinhos na Maison de France, dentro do evento FOCO HQ, no dia 24 de novembro, às 11h.

Será uma bela oportunidade para conversar sobre artistas do quilate de Joe Sacco, Marjane Satrapi, Allan Alex e diversos outros (indo até Angelo Agostini, Raphael Bordallo Pinheiro e demais quadrinistas do século 19).

As inscrições podem ser feitas pelo e-mail mediteca@maisondefrance.org.br