Hoje é um dia de comemorações, questionamentos e conclusões. Está certo, vamos deixar as conclusões para outra ocasião e focarmos nos dois primeiros quesitos.
Comemoremos a republicação de
The Last of The Guaranys, conto escrito a quatro mãos com Carlos Orsi, numa antologia dedicada ao excelente – e divertidíssimo – escritor Philip José Farmer, desta vez pela
Titan Books, uma casa editorial de renome e alcance mundiais. Por causa das tiragens altas da
Titan, pode ser que
Tales of The Wold Newton Universe transforme essa loucura que mescla Edgar Rice Burroughs com José de Alencar em meu conto mais lido até hoje. Tomara.
A gênese de
The Last of The Guaranys está muito bem contada (em detalhes que eu nem recordava) pelo Carlos, em seu
blog. Nada há a acrescentar, a não ser que o título, grande sacada do meu parceiro, além de remeter ao clássico de James Fenimore Cooper, também joga com as iniciais do romance
Time’s Last Gift, que, segundo a lenda, já era uma piada com
Tarzan, Lord Greystoke, mas isso é firula. O importante mesmo, de verdade, é que o conto foi considerado digno de ser publicado no mercado americano uma segunda vez em menos de um ano.
O que nos leva aos questionamentos. E a uma pequena viagem no tempo. Sim, outra. Ei, isto é um texto meu, vão dizer que não esperavam algum paradoxo espaço-temporal?
Há mais de dez anos, pouco antes do lançamento da antologia
Intempol, participei de um
chat da extinta editora
Writers (ou seria da também descontinuada revista
Quark? A memória me trai, mas não no que importa
), que pretendia antecipar o que hoje é comum em casas editoriais como
Draco e
Tarja, ou seja, a publicação de obras de autores brasileiros de Ficção Científica, Fantasia, Horror etc. Durante a conversa, quando o assunto versou a respeito de “como alcançar o sucesso escrevendo literatura de gênero” (pois é, isso é assunto recorrente, concordam?), comentei que a saída talvez fosse a publicação no exterior, buscando revistas como a
Asimov, a
Analog ou a
Magazine of SF&F. Não apenas fui rechaçado, como apresentaram exemplos do tipo “eu, que sou eu, tento há décadas e jamais consegui uma aprovação nessas revistas. O mercado americano é impermeável. Mas vá lá, tente!”.
Achei boa ideia. Pesquisei, procurei, burilei. Tentei. E aí está, não aparecemos nas revistas supracitadas, mas percebo que fomos direto ao pote, saindo pela
Titan. Creio também que isso exclui da equação qualquer artifício eticamente questionável e ofensivo como
brodagem ou
jabá. Prefiro acreditar que conseguimos graças à insistência, ao aperfeiçoamento e ao propósito. Questiono, então: já que autores como Jacques Barcia, Fábio Fernandes, Gérson Lodi-Ribeiro, Carlos Orsi e até eu conseguimos publicar (e, vejam bem, sendo
pagos por isso, e não o contrário) no maior mercado do mundo, será que não está na hora de testarmos outra vez essa impermeabilidade? Os Estados Unidos não são mais tão reativos a nós, nossos assuntos, nossos estilos, mesmo escrevendo um gênero tão
norte-americano como a Ficção Científica.
Bom, afirmei lá no início que deixaria de lado as conclusões, mas não consigo me furtar a dizer que, daqui de onde observo, parece que todos esses mundos também são, potencialmente, nossos.
Agora, deem licença que o vinho me aguarda.