sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Arte sob suspeita

Charles Manson nos interpretou como ‘os quatro cavaleiros do Apocalipse’. Ainda não entendo qual foi a jogada.
Paul McCartney

Ela diz, ‘Apareça!’ ela diz, ‘Mate!’. Porque me culpar? Eu não escrevi a música. Eu não fui a pessoa que projetou isso na consciência das pessoas.
Charles Manson 


Coluna originariamente publicada em AcheiUSA.

Afinal, a arte incita à violência, ou, como parte da vida, deve ser retratada sem pruridos? Pergunto porque não acredito que exista alguém com opinião pétrea a esse respeito. Às vezes, achamos que a arte reflete o mundo, outras vezes desligamos a TV quando acreditamos que uma cena mais assustadora ameaça a inocência das crianças.

E quando a arte é o bode expiatório perfeito para genocidas e assassinos em geral, o que fazer? Tentar estabelecer parâmetros de controle de danos, banindo cenas que poderiam incitar ao comportamento aberrante? Revisaríamos os clássicos para eliminar ou minimizar cenas mais pesadas? O que seria de Hamlet sem o final catártico onde todos morrem (com uma exceção, afinal alguém tem de contar a história)? O que dizer de versões edulcoradas por Hollywood de clássicos como Guerra e Paz ou O Morro dos Ventos Uivantes? Recordo de uma conversa com uma amiga, há alguns anos atrás, em que ela clamava por um tipo de censura sobre os desenhos da Disney por serem por demais chocantes para as crianças. “Como assim, matarem a mãe do Bambi? Não vêem que as crianças têm sentimentos?” Pois é. Para alguns, a Disney também pode ser subversiva, quem diria. Não tive coragem de dizer à moça que se as versões e mantivessem fiéis às suas origens, a maioria dos longas animados da casa do rato orelhudo terminaria em tragédia. A Pequena Sereia, por exemplo, morre muda e vira espuma. Cinderela mandou os passarinhos da floresta vazarem os olhos da madrasta e das irmãs, condenando-as à mendicância. Pinóquio esmagou o Grilo Falante a pedradas, apenas para ser assombrado pelo fantasma decomposto do inseto (numa antecipação curiosa dos espectros nojentos de Um Lobisomem Americano em Londres). E por aí vai, numa sucessão de atrocidades dignas de um filme da série Jogo Mortal.
Pior é quando a acusação aparentemente tem fundamento. O romance Os Sofrimentos do Jovem Wether, de Johann Wolfgang von Goethe, publicado em 1774 e considerado o marco inicial do romantismo, provocou uma onda de suicídios motivados por amor não correspondido. Logo Goethe, afeito a exercícios físicos, paixões avassaladoras e apreciação artística, tornou-se responsável por uma série de atos violentos e desesperados. Seria Goethe, o autor, responsável pelas mortes inspiradas por Werther, o personagem?

Da mesma maneira, não creio que devêssemos punir os Beatles por terem inadvertidamente influenciado os crimes cometidos por Charles Manson e sua “famíla”. Os assassinatos da atriz Sharon Tate, de Jay Sebring, Voytek Frykowski, Abigail Folger e Steven Parent, ocorridos em 8 de agosto de 1969, teriam sido inspirados por interpretações das letras de canções do quarteto de Liverpool, gravadas no Álbum Branco, lançado no ano anterior, sendo que a mais “criativa” das releituras das letras é a de Helter Skelter, que consegue depreender slogans pró-genocídio de versos que dizem respeito a um tobogã. Muito criativo.



Manson foi esperto o suficiente para tentar partilhar a culpa com cúmplices do quilate de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr. Não colou, mas estabeleceu um precedente para qualquer desequilibrado entrar num cinema, disparar uma metralhadora e insinuar que “o Clube da Luta me forçou a isso”, ou, como ocorreu em Ouro Preto, em outubro de 2001, um grupo esfaquear uma menina afirmando que estavam jogando uma partida de RPG. Nesse caso específico, recordo de ter assistido em um telejornal a uma montagem com as imagens da revista em quadrinhos O Corvo, do ilustrador James O’Barr, apresentada como uma “evidência da prática de rituais satânicos”, e cabe recordar que o próprio John Lennon foi morto por um fã, Mark Chapman, que se dizia inspirado pelo romance O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Sallinger. É quase possível intuir um ciclo fechado onde o elemento inspirador de Chapman não teria sido Sallinger, mas Manson. Tais criminosos tentariam, ao assassinar celebridades, construir uma obra de arte comparável aos trabalhos de suas vítimas.

Provavelmente haveria suicídios sem Werther, Charles Manson sem Helter Skelter ou Chapman sem Holden Caulfield, mas as obras em questão emprestaram uma muleta para os marginais e criaram um símbolo facilmente recohecível, uma “cara” para cada atrocidade, transformando-as em eventos, em algo mais que simples crimes pueris desprovidos de charme e movidos pela inveja. No caminho inverso de alguns chargistas políticos que sentem que seu trabalho banaliza a importância da denúncia por tornar a vítima da caricatura mais palatável pelo humor, é possível que a citação de obras de arte como elementos inspiracionais eleve o crime a um patamar de “acontecimento social” (e a isso poderíamos incluir os suicídios como a ritualização espetaculosa do auto-sacrifício).

Parece óbvio que a intenção é importar algo da relevância das obras para seus atos ou crimes, ou, como se diz na publicidade, agregar valor. Os pistoleiros do oeste ou os cangaceiros do sertão, por exemplo, tiveram suas façanhas sangrentas imortalizadas nas dime novels e nos cordéis, que as transformaram em verdadeiras jornadas do herói. Se pensarmos que muitos pretendentes a pistoleiros se maravilhavam com as histórias de seus pares, cunhando suas aspirações sobre esse exemplos, poderíamos concluir que talvez algumas vezes a arte possa ser um elemento de ligação entre diversas tragédias.
   
O problema, porém, não é identificar a arte, seja popular ou clássica, como parte do processo, mas sim condená-la pela deformidade das mentes, o que é uma desculpa oportuna para não se resolver os problemas e deficiências da educação, da distribuição de renda e da responsabilidade social, mantendo tudo exatamente como está. Atribuir a culpa pela insanidade às obras de arte ou à cultura de massa, sejam filmes, livros, canções. quadrinhos, jogos de representação ou desenhos animados é o mesmo que executar o mensageiro pelas más notícias. As artes, no que diz respeito à violência, assim como a todo o resto, comentam e evidenciam os desejos, as ansiedades e as doenças latentes.

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