quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Homens de Aço e Ícones de Marfim: Supreme e a reconstrução do herói

A série Supreme, de Alan Moore, lançada no Brasil pela Brainstore, faz uma releitura do Super-Homem clássico e vai além, propondo conceitos que serviriam como base para a atual onda de homenagens à Era de Prata nos comics americanos.

As semelhanças entre Savage, Sombra e Super-Homem são inúmeras. Se Supreme é conhecido como Ícone de Marfim; o apelido do kriptoniano, Homem de Aço, é uma clara referência ao título da primeira aventura de Savage.

Por Octavio Aragão (originalmente publicado no site Universo HQ)

"Não precisamos correr sozinhos o risco da aventura, pois os heróis de todos os tempos a enfrentaram antes de nós. O labirinto é conhecido em toda sua extensão. Temos apenas de seguir a trilha do herói, e lá, onde temíamos encontrar algo abominável, encontraremos um deus. E lá, onde esperávamos matar alguém, mataremos a nós mesmos.
Onde imaginávamos viajar para longe, iremos ter ao centro da nossa própria existência. E lá, onde pensáramos estar sós, estaremos na companhia do mundo todo"
Joseph Campbell
A Saga do Herói, in O Poder do Mito

Herança mitológica
Ele tem uma origem extraordinária, é criado por pessoas humildes, descobre seu potencial para grandes feitos, é ensinado por vários mestres, enfrenta seu nêmesis numa série de aventuras que envolvem o cumprimento de tarefas sobre-humanas e, depois da vitória miraculosa, é sacrificado em holocausto, quase sempre consumido pelo pecado da hybris, do orgulho, ressuscitando para salvar seu povo na hora de maior necessidade[1].

Essa é a carreira do herói-solar, - que nasce, brilha e morre apenas para renascer num outro dia; e vários personagens se encaixam com perfeição neste pequeno currículo: Gilgamesh, Balder, Sigfried, Moisés, Jesus, Arthur e o Super-Homem, base sobre a qual foi construído o conceito do personagem Supreme.

Acusada de ser uma mera cópia do Homem de Aço, a série sobre o super-herói de cabelos brancos e ego desmedido, desenvolvida pelo artista (?) Rob Liefeld e publicada inicialmente pelo selo Maximum Press, da Image Comics, foi ignorada até 1996, quando o escritor inglês Alan Moore assumiu o texto, a partir do número 41, transformando a revista num sucesso de crítica.

O segredo era simples: Moore admitiu e ampliou as semelhanças entre os dois personagens, tornando Supreme uma homenagem aos criadores do Super-Homem.



Mas será que as acusações de cópia são justas? Talvez uma viagem ao passado nos revele que, se Supreme é uma derivação do Super-Homem, este também tem suas raízes bem plantadas em outras fontes.


Nada de novo sob o sol amarelo
Criado por Jerry Siegel e Joe Shuster a partir de um brainstorm, em 1933, o último filho do planeta Krypton debutou nas páginas da revista Action Comics - na capa, aparecia levantando um carro acima da cabeça -, em junho de 1938. O personagem seguia quase todos os passos da trilha convencional dos heróis, nascido numa cultura muito superior à nossa, chegando à Terra vindo dos céus, apenas para ser adotado por um casal de humanos numa fazenda no interior dos Estados Unidos.

Clark Kent, como é batizado o visitante de outro mundo, demonstra capacidades acima dos homens normais, decidindo migrar para um grande centro, onde se revelaria ao mundo e começaria sua senda em busca de justiça, vivendo grandes aventuras. Com o tempo, descobre seu grande inimigo, um cientista terráqueo cujo intelecto rivaliza com a força física do protagonista.

Lex Luthor é um descendente direto dos magos e feiticeiros vilanescos das lendas gregas e histórias de cavalaria, cujas características obedeciam a um padrão: se as capacidades do herói são naturais, os poderes de seu inimigo têm origens artificiais, conseguidos por meio de alterações das leis divinas, sejam da magia ou da ciência.

O Super-Homem, em si, é um amálgama de várias referências anteriores que têm bases bem fundadas nas pulp fictions da década de 1930, revistas baratas com histórias cheias de ação e violência. Basta citarmos dois personagens para percebermos que, intencionalmente ou não, tais influências eram inegáveis: Clark Savage Junior, o Doc Savage, criado por Lester Dent em 15 de fevereiro de 1933, na história The Man of Bronze, anunciado como um "Superman"; e Kent Allard, uma das identidades secretas do Sombra, vingador mascarado que estreou no rádio, no programa Detective Story Hour, em 31 de julho de 1930, e migrou para as novelas policiais de Walter B. Gibson.



A Fortaleza da Solidão, muito antes de ser o refúgio do Super-Homem, era o nome do laboratório de Doc no ártico e surge na mesma novela citada acima. Lois Lane, a eterna rival/namorada de Clark Kent deriva de Margo Lane, agente e amante do Sombra.

Apesar de tantos paralelismos, Siegel e Shuster jamais admitiram que seu personagem Clark Kent devia muito aos predecessores, mas concordaram que Gladiator, romance de ficção-científica de Philip Wylie, lançado em 1930, foi de grande importância para a gênese do primeiro super-herói.



O sucesso do Super-Homem foi avassalador, talvez porque o apelo do colante herdado do Fantasma de Lee Falk, a capa vermelha, o emblema com o "S" estilizado sobre o peito e o fato de os quadrinhos serem uma mídia audiovisual, tenham gravado a ferro e fogo a imagem do herói no inconsciente coletivo, criando no processo a fórmula sobre a qual todos os outros personagens do gênero seriam estruturados.




As cópias da cópia aparecem em grande quantidade até hoje. Na década de 1990, por exemplo, surgiram três personagens com poderes e visual parecidos com os do Super-Homem: Mr. Majestic, para a série WildC.A.T.s, de Jim Lee; Apolo, criação de Warren Ellis para as revistas StormWatch e The Authority, e Supreme, a respeito do qual falou Alan Moore em entrevista a Steve Johnson, em 1996:

"Em certo nível, Supreme é Super-Homem, e não há razão para negar. Ao mesmo tempo, não é apenas o Super-Homem. Há uma porção de idéias em Supreme que nunca apareceram antes e que levam o leitor a diferentes áreas. Até um ponto eu tentei construir aquele super-herói grandão arquetípico que usa capa, que está lado a lado com o Capitão Marvel e todos os outros. É o que pretendo fazer com todos os personagens. Quero desenvolver aquela força primeva que os melhores super-heróis possuem".[2]

O objetivo de Moore era alçar Supreme ao mesmo patamar de Marvelman (depois rebatizado para Miracleman), personagem com o qual havia trabalhado na década de 1980, mas pelo caminho inverso.
Enquanto o primeiro foi inserido num mundo real, distanciando-se das origens ingênuas, Supreme seria despido de toda aura "naturalista" e se tornaria um personagem icônico por excelência.


Vida após a morte
A partir de 1996, Alan Moore passou a escrever os textos de Supreme depois de ler todos os 40 números anteriores da revista e concluir que aquilo era inaproveitável. O caminho teria de ser uma reformulação total, eliminando no processo os vícios de linguagem estabelecidos como padrão para as HQs de super-heróis a partir dos anos 80: angústia existencial, ultraviolência, personagens transbordantes de anabolizantes além de plots parcamente elaborados.

O curioso é que o próprio autor se sentia responsável por essa tendência, já que todos os criadores na época se diziam influenciados por Watchmen, seu trabalho seminal sobre super-heróis num "mundo real".

"Há vários tipos diferentes de histórias de super-heróis. Em relação a Watchmen, não consigo imaginar como ir além nessa direção. Na verdade, dentro do estilo depressivo, realista, de estrutura complexa, provavelmente é o mais longe que se pode chegar".[3]

Para fertilizar a árida cronologia de Supreme, cheia de clichês como duplos maléficos e vilões cósmicos, Moore desenvolveu um conceito radical: a Supremacy.