segunda-feira, 20 de maio de 2013

HQs, Mentiras e Videotape: uma pequena analogia a respeito de dois super-heróis no cinema e terrorismo midiático.

O Homem de Ferro: é lenha pura
I - Quem com ferro fere

Imagens enganam.

O cinema, por definição, é um engodo, pois emula um movimento de imagens que, na verdade, não existe. As histórias em quadrinhos, por sua vez, apostam na fé do leitor, é um poker visual que joga com a atenção e ansiedade em saber o que se esconde na página seguinte ou entre os requadros.

Quando um filme sobre histórias em quadrinhos – principalmente aquelas baseadas nos personagens mais esquemáticos e previsíveis, a saber, os super-heróis – nos engana e nos deixa por um segundo com cara de ponto de interrogação, transcende as expectativas. Há aqueles na audiência que ficam com raiva, se sentem enganados. Há outros que dizem “nossa, não esperava por essa” e abraçam a surpresa como a um amigo.

Homem de Ferro 3 mexe com o público. Ninguém fica indiferente, os leigos riem e dizem “que legal!”, porém os fãs se remexem em desconforto nas poltronas porque as previsões foram quebradas de uma maneira completamente “fora das regras”.

Ah, as regras….

Ao mostrar um vilão chamado Mandarim com ares de Bin Laden e poderes midiáticos, mas interpretado pelo ator britânico Ben Kingsley, os roteiristas colocam em xeque o paradoxo primordial das adaptações de quadrinhos para outras mídias: criar algo novo e inesperado sem violar cânones inconstantes que fazem os fanáticos por quadrinhos lotarem os cinemas. Como fazer algo criativo, mas sendo essencialmente o mesmo?

A resposta é simples: chute as regras com vontade, acerte onde dói mais, mas apenas no último minuto. Minta. Faça parecer que é uma coisa – construa uma realidade usando os trailers, a imprensa, as sessões de apresentação prévias - e, na proverbial hora H, apresente outra.

A equipe de produção e marketing de Homem de Ferro 3, assim como os terroristas contemporâneos, soube muito bem usar a mídia a seu favor, construindo uma mitologia dentro da mitologia e, com isso, ganhando relevância. Relevância artística, sim, senhores, pois quando uma obra comercial move o público e contradiz o esperado, gerando debate e até revolta, galga alguns degraus.

A terceira aventura cinematográfica de Tony Stark é o mais relevante e ambicioso, em termos políticos e sociais, dos filmes da Marvel e ainda pode ser lido como uma metáfora sobre o papel político do cinema – e da cultura de massa – em si, com Ben Kingsley fazendo um personagem tão ou mais icônico que sua representação de Gorges Méliès em Hugo Cabret. Os assuntos em pauta e desfilados durante as quase três horas de filme vão desde monopólio industrial até a parcialidade governamental no que diz respeito às indústrias da saúde e bélica (e do cinema também), passando por uma metáfora a respeito dos traumas de guerra e dos recentes atentados em território americano desde o 11 de Setembro. Mas o ponto fulcral, o que realmente importa, é que ele fala sobre a fragilidade de homens e governos, expostos a inimigos criados por suas próprias mãos e tecnologia.

Como o roteiro dá a entender, patriotas de ferro não são mais armas à altura ou símbolos de honra e altivez, apenas cascas, embalagens vazias que podem ser ocupadas por qualquer um. Mas há uma opção ainda pior: pode ser que por trás da máscara não exista rosto.



Bane, Batman e Selina: no centro, o justiceiro dos ricos

II - Baile de Máscaras

Em 2004, o diretor Cristopher Nolan abraçou uma tarefa inglória: injetar vida numa franquia cinematográfica combalida. Com Batman Begins, Nolan salvou a figura do homem-morcego, o prototípico e mais neurótico dos super-heróis, de uma falência imagética e conceitual que o assombrava há mais de uma década.

Apostando num viés estético próximo dos filmes policiais dos anos 70 e evitando elementos fantasiosos, estrategicamente adequando diversos detalhes a princípio exagerados à sua visão “realista”, o diretor realizou três filmes sobre o personagem, recebendo loas da crítica e até alcançando um Oscar de Melhor Ator Coadjuvante para Heath Ledger, o Coringa de The Dark Knight Returns, de 2009.

O último filme, The Dark Knight Rises, de 2012, apesar de bem recebido pelo público, começou a carreira com uma tragédia. Portando uma máscara contra gases que remetia ao personagem Bane, principal antagonista do filme, um homem disparou contra a plateia durante a sessão da meia-noite em Aurora, Colorado,  matando doze pessoas e ferindo cinquenta e oito. O impacto surrealista de ver um sociopata assassino saltar da tela e agredir o público já renderia alguns papers acadêmicos, mas pretendo focar apenas no filme e sua iconografia, que, coincidência ou não, tem pontos de contato com Homem de Ferro 3.

Em The Dark Knight Rises vemos um Batman aposentado e desiludido. Assim como em Homem de Ferro 3, seu mundo mudou graças aos eventos mostrados em produções anteriores e o protagonista se considera deslocado, fora de contexto. Porém, ao contrário de Tony Stark, que combate a ansiedade com trabalho compulsivo, Bruce Wayne se afasta da caverna, dos computadores e até de si mesmo, tornando-se um hermitão autocomiserativo e alquebrado, um tipo de Grande Gatsby, que assombra as próprias festas.

O que o faz sair da toca é o pedido desesperado do amigo James Gordon, comissário de polícia que descobre um imenso plano terrorista no subsolo de Gotham City. O inimigo da vez é Bane, líder ideológico de uma falange da Liga das Sombras, que outrora treinou o próprio Wayne e que deseja, aparentemente, a ruína da corrupta cidade norte-americana. Dono de um discurso que remete ora a Robespierre, ora a Lenin, Bane expõe a incompetência dos ícones de Gotham City, suas mentiras, seus podres e fragilidades, desestabilizando econômica e politicamente uma metrópole que em tudo remete a Nova York. Um por um, os ídolos caem, culminando com uma execução pública num estádio de futebol – bela metáfora para uma arena de sacrifícios – e um discurso inflamado nas escadarias da prefeitura. Nem mesmo Batman, com toda sua tecnologia e preparo, é páreo para o peso mítico representado por Bane e acaba derrubado pela força não apenas dos braços, mas dos fatos.

O grande problema de The Dark Knight Rises é que, diferente de Tony Stark, Bruce Wayne, ao combater os terroristas de Bane, se comporta como uma versão embuçada e contemporânea do Pimpinela Escarlate, protagonista do romance homônimo escrito pela Baronesa Emmuska Orczy em 1903, que contava as aventuras de um nobre inglês devotado a salvar a aristocracia francesa do Terror organizado pelos revolucionários. Assim como o Pimpinela, Bruce Wayne é o vingador dos ricos, quase um Robin Hood ao inverso, que busca resgatar o status quo abalado pelos atos e discursos de Bane.

Esse somatório de Gatsby e Pimpinela Escarlate acaba por condenar o Batman de Nolan e Bale à irrelevância social, incapaz de defender sua cidade ou até mesmo de retrucar as diatribes de seu nêmese mascarado. Pela primeira vez vemos – em qualquer mídia – um Batman sem argumentos. Cabe às mulheres da trama a honra de discutir a relação e assumir posições de comando, seja nas Indústrias Wayne ou diante do submundo de Gotham City. Miranda Tate e Selina Kyle são mulheres que sabem o que querem e, principalmente, querem o que fazem. Cabe a elas guiar a dança no baile de máscaras, enganando diversas vezes o “melhor detetive do mundo”, que no cinema depende mais de seu aparato tecnológico que de seus talentos investigativos.

The Dark Knight Rises finaliza a franquia do morcego salvando os pobres meninos ricos, ameaçados pela turba que inunda as ruas. Enaltece as mulheres apenas para quebrá-las ou, na melhor das hipóteses, domá-las. Ou seja, é uma Revolução Francesa, só que ao contrário. Em termos ideológicos é uma contraposição ao Homem de Ferro 3, e, apesar da pretensão estética, se acovarda na hora de assumir o posto de obra de arte, propondo soluções simples para problemas complexos. Sobra pouco para discutir a respeito do filme depois que as luzes se acendem, deixando um certo desconforto ao recordarmos que, ao final das contas, uma obra que nasceu do medo do terror será lembrada como mais uma estatística no gráfico de atentados em território americano. Uma ironia terrível que nos faz presumir que, se não existe nenhum Batman sisudo guardando os céus das metrópoles de nosso mundo, pode ser que o Coringa iconoclasta de Heath Ledger seja quem dê as cartas.

10 comentários:

GCGoulart disse...

Do título à ultima letra: Oc, vc se vira como um crítico à altura do escritor que é. As análises individuais como bem a análise correlacionada de cada película é arguta. Fica meus parabéns. Vou partilhar!

Abraços.

Octavio Aragão disse...

Valeu, Gustavo. não ficou exatamente como eu queria, faltou talvez uma conclusão, mas queria postar antes de ficar muito datado.

Tatiana Santos disse...

Octávio, o que acha desta monografia?? http://monografias.brasilescola.com/filosofia/batman-vs-coringa-provocacoes-nitzscheanas-acerca-moral.htm

Tatiana Santos disse...

Gostaria de resumir suas colocações e colocar a minha visão dos filmes, uma visão restrita a mensagem enviada ao telespectador "ignorante" dos conhecimentos relativos as HQs, mas completamente envolvida com os conhecimentos políticos, econômicos e filosóficos.
Iron Man 3 bate na cara, e espanca a nossa inteligencia declarando claramente que somos manipulados, controlados por empresas e o governo através da criação de seus cenográficos "terrorismos" e suas soluções milionárias. Uma clara abertura de mente que escancara: "Idiota, vc é enganado e nada faz contra isso, permanecendo no seu medo, na sua impotência, na sua ignorãncia, na sua falta de atitude e de reação. Você é o bobo desta corte".

Já o Batman demostra um cenário, quase que 100% fantasioso e filosófico (afinal coringas jamais existirão), uma vez que demostra um reação a toda a manipulação, as leias, as regras, as realidade de um sistema que nos consome. Coringa representa o nosso eu, o EU de quem quer gritar, de quem quer quebrar as regras, de quem quer deixar a inêrcia. Sua caricatura - PALHAÇO - declara de maneira arrasadora a realidade deste povo - que como um bobo da corte pula e bate palma a cada comando do sistema. O Coringa nada mais que nossa conciência, a consciência de que somos palhaços de um circo, e mesmo assim somos os atores mais poderosos deste picadeiro, pois somos capazes de transformar a nossa realidade, mas para isso precisamos reagir, inflingir, quebar os paradigmas, promover o caos em um sistema controlado por aristocratas e burgueses (Batman), as indústrias bélicas (Stark), as indústrias genéticas/farmacéuticas (AIM), o Estado (USA), a mídia (Mandarim) e muitos outros controladores não declaradamente expostos nestes filmes.

O mais interessante em todos os filmes é a declaração que o homem é o lobo do próprio homem. E enquanto isso a indústria cinematográfica fatura, consome e escancara - somos mais fortes e devoramos todos vocês.

O que realmente importa é que pagamos sempre, até mesmo para ter a consciência de que somos dia e noite otários.

Octavio Aragão disse...

Oi, Tatiana. Obrigado pelos comentários. Achoq ue você bem que poderia, a partir de seu post aqui, desenvolver um artigo também, com certeza mais amplo que o meu. Que tal?

Corto Blog Maltese disse...

O próprio diretor do Batman disse:

'' O que foi surpreendente para mim é como muitos especialistas iriam escrever sobre sua interpretação política do filme e não entender que qualquer interpretação política necessariamente envolvia ignorar enormes pedaços do filme.

E isso me fez sentir bem sobre onde havíamos colocado o filme, porque não tem a intenção de ser politicamente específico. Seria absurdo tentar fazer um filme politicamente específico sobre este assunto, onde você está, na verdade, tentando sair das amarras da vida cotidiana e ir para um lugar mais assustador em que qualquer coisa é possível. Você está fora do espectro político convencional, por isso é muito sujeito a interpretação e a má interpretação.''

Octavio Aragão disse...

Oi, Corto. Como já dizia o velho e bom Umberto Eco, toda obra é aberta, independente das vontades do criador e cada interpretação, positiva ou negativa, é mais uma camada interpretativa que acrescenta à obra.

Tatiana Santos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Tatiana Santos disse...

Otávio, obrigada pelo convite, mas sinceramente (risos) não entendo nada sobre o assunto em si, apenas gosto de interpretar os filmes, em geral, com uma visão menos fantasiosa e um pouco mais realista, voltada para um comparativo com as realidades enfrentadas, sejam elas políticas, econômicas, sociais ou psicológicas. :)
Na verdade meu marido, seu ex-aluno, me critica muito por essas pseudo leituras cinematográficas, uma vez que elas fogem, e as vezes muito, do que os diretores, roteiristas, demonstram ao venderem seus filmes. Não sei se eu seria capaz de desenvolver um artigo sobre tal coisa, risos. Mas, sem dúvidas adoro discutí-las, de uma forma ou de outra, enriquece o conhecimento, mostra outras visões, me faz pensar.
Como disse acima, sempre é mais uma camada interpretativa para a obra. Bem, se um dia eu conseguir criar algo como você, eu enviarei para ouvir sua opinião. :) Abraços

Leonardo Peixoto disse...

Realmente O Cavaleiro das Trevas Ressurge parece mostrar um cenário onde a esquerda toma o poder pregando ao povo o combate contra a elite , e o povo acaba descobrindo que a esquerda é pior ainda . Um filme assim poderia ter sido filmado durante a Guerra Fria .