sábado, 27 de julho de 2013

Só o Super salva

Eis que o filho das estrelas, o salvador, o homem do amanhã, o mais íntegro dos heróis nivelou-se ao inimigo. Isso depois de arrasar uma megalópole cheia de gente durante um duelo de titãs.

Quando o diretor Bryan Singer lançou sua ode aos clássicos com Superman Returns, em 2006, todo mundo reclamou. Disseram que era um filme insípido, reverente, mostrando um protagonista fraco e longe do que as audiências mais jovens esperavam. Então, talvez cedo demais, a trinca Zack Snyder (direção), David Goyer (roteiro) e Christopher Nolan (roteiro e produção) decidiram fazer tudo outra vez e, segundo eles mesmos, adequando o personagem às novas gerações. O resultado é Man of Steel, um filme escuro, tanto em imagem quanto em intenções.






É um filme com teor religioso, lotado com anjos caídos, o Divino Espírito Santo, a Ira Divina e até, quem diria, uma Maria Magdalena arrependidíssima de sua profissão. Superman é apresentado como um sujeito distante, pouco simpático, ou seja, um alienígena, o que também o afasta dos afetos da plateia. Não dá para desculpá-lo enquanto promove a devastação em nome da honra da mãe. Não é fácil ver o mundo por seus olhos e na maior parte do tempo não há conexão emocional.

Curiosamente, o antagonista, o revoltado General Zod, carregando nos ombros o peso de um mundo que o rejeitou, mas que ama com paixão digna dos necrófilos de Álvares de Azevedo, é perfeitamente compreensível e, vejam só, desperta alguma compaixão. Em determinado momento, durante o quebra pau homérico entre os dois super-homens, me converti à religião de Zod. O “cristianismo de coração duro” perpetrado por Kal-El não é para mim.

Por outro lado, numa reviravolta emocional, durante o clímax, percebi a profundidade do sofrimento desse novo Superman. Uma coisa é ser considerado órfão de uma raça, outra bem diferente é protagonizar o genocídio. E foi aí que esse Jesus casca grossa, esse messias duro de matar subiu no meu conceito. Ah, sim, ele devastou a cidade, mas convenhamos que a destruição de Metrópolis, Gotham ou Manhattan (no caso dos quadrinhos da Marvel), são fatos corriqueiros nas HQs. É natural que, agora que tais cenas são tecnicamente viáveis, os filmes as reproduzam à exaustão. Isso não desculpa a teórica chacina de inocentes, mas ao menos a embasa, já que o clímax de Man of Steel me parece muito com o primeiro arco de histórias de Miracleman, HQ de Alan Moore, onde o protagonista vira Londres pelo avesso ao confrontar seu ex-pupilo, Kid Miracleman, que cresceu para se tornar um superhumano maligno e considera o resto da humanidade menos que formigas.



 Aliás, o mesmo tema – ex-pupilo tornado vilão amoral – foi utilizado antes no cinema, com mais equilíbrio e humor, em Os Incríveis, da Pixar. 

 

Ok, o filme de Snyder é cheio de buracos – que vão de uma cauterização no abdômen feita a seco e com as roupas ainda vestidas (juro que imaginei o cheiro de lã queimada colada à carne) às constantes explosões barulhentas no espaço, heresia cometida e popularizada por Star Wars – mas eles não incomodam. Ou ao menos não tanto quanto a morte do pai adotivo de Kal/Clark, numa cena que, apesar de tocante, é completamente inverossímil do ponto de vista emocional. Nada disso desabona a tentativa de fazer um novo Superman. Só não sei se ele é tão novo assim.

Explico: a conotação religiosa, o Cristo redivivo etc, já estavam no filme de Singer. O mesmo vale para a destruição de Metrópolis, com direito à queda do Planeta Diário. E se a questão são “cenas icônicas” para o personagem, creio que três momentos em Superman Returns são de impacto semelhante, senão maior, que a pancadaria desenfreada de Man of Steel: o herói em órbita, ouvindo todas as “preces” da humanidade, o resgate do avião em queda livre e a bala que ricocheteia em seu olho invulnerável. Se isso não fala a respeito da iconicidade do personagem, não sei mais o que poderia.



Afinal, o que importa mesmo no Superman não é a potência de seus socos, mas a capacidade infinita de resgatar não apenas o corpo, mas também um pouco da esperança e da alma de cada um de nós.

2 comentários:

Leonardo Peixoto disse...

Soube que A Mão Que Cria originou-se de uma fanfic do Hyperfan ! Será que outras histórias do site não poderiam ser adaptadas para livros , como sua saga Capitão América : Origens ?

Octavio Aragão disse...

A Mão Que Cria era um fanfic em termos, já que havia muita coisa ali mais próxima de farmer que do fanfic tradicional. Não tenho planos para o Capitão América, mas nunca diga nunca. :)