sexta-feira, 19 de maio de 2017

Não há mais lugares sagrados

Caninos brancos atendem ao chamado selvagem.
Lanchonete fechada, procuro um lugar com luz para esperar resgatar o Gui depois da aula de futsal e, se possível, ler um pouco. Única opção disponível: um local amplo, iluminado, a princípio, tranquilo, quase vazio? A igreja.
Entro. Dou de cara como aquele Jesus crucificado que desta vez me parece ainda mais sofrido. Percebo que há um contraste involuntário entre aquela imagem cheia de sangue e dor, um homem desnudo, subnutrido, ferido, e o ambiente plácido, arejado.
Ignoro. Busco um banco, de preferência o último para não atrapalhar o pequeno e atuante grupo de senhoras que declamam a respeito das benesses da crença em Maria (com um vigor digno de um pastor protestante). Desvio o olhar a tempo de dar com um bolo de pelos escarrapachado no chão da igreja.
Um Lulu da Pomerânia me encara com ares de “sai pra lá, ralé”, exatamente a mesma expressão de sua dona, que ocupa o meu tão desejado último banco.
Desvio, escolho o genuflexório adiante e me aboleto com mochila e tudo no confortabilíssimo assento de madeira.
É quando um som misto de berro de vítima de Freddie Krugger e rosnado de dinossauro do Jurassic Park me faz dar um pulo de dois metros.
Outra senhorinha, de seus 70 anos, que entra logo atrás de mim, mete o pé com tudo no peludo que, descendo de sua pose majestática, voa na canela da agressora, dando início a um duelo ágil e mortal.
Imaginem: de um lado do ringue, trajando um tailleur bordeuax e pesando 120 quilos, a velhinha da bolsa giratória, especialista em chutes de curto alcance, mas com a força potencial de um bate estaca sobre saltos plataforma. De outro, uma fera sanguinária de quarenta centímetros, pelo lustroso, dentes afiados e, com certeza naquele momento, em plena conexão espiritual com seu lobo interior.
Enquanto o combate acontece às minhas costas, a atenção das carolinhas na frente da igreja é atraída pela barulhada e, ato contínuo, todas se viram para o único elemento destoante no ambiente...
Eu.
Antes que alguém faça alguma conexão errada entre os berros, a luta pela vida que acontecia ali e minha excelsa pessoa, levanto o mais discretamente possível e me afasto do incidente, deixando bem claro que não passo de um espectador inadvertido.
Não, não sei qual fera sai vitoriosa da contenda, mas um último olhar sobre o ombro revela o rosto do Cristo Crucificado. Ele parece sorrir.
Saio correndo para nunca mais voltar.

Um comentário:

Leonardo Peixoto disse...

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