domingo, 16 de julho de 2017

A mosca na sopa das reinterpretações cinematográficas

Rever A Mosca (1986), de David Cronenberg, produzido curiosamente pelo mestre da comédia Mel Blooks, esclarece o que de errado acontece com os remakes contemporâneos. É paradoxal que em tempos de "storytelling enquanto ferramenta de marketing" tenha-se, aparentemente, esquecido como contar uma história.


"Tenha medo. Tenha muito medo"
A primeira imagem é um close de Jeff Goldbum, falando diretamente ao público quem ele é e o que faz ("sou um cientista e meu trabalho vai mudar o mundo"). Claro que é um diálogo, pois, em seguida, o contraplano revela Geena Davis como sua ouvinte, que, de cara, dá a ideia geral sobre o personagem e a situação, ou seja, "esse esquisito está me cantando".


A partir daí, acompanhamos o casal, o romance e a experiência do êxtase ao fracasso, da esperança à desgraça, com uma economia narrativa que deixaria Christopher Nolan com espasmos catatônicos ao ver contrariada sua ânsia professoral/explicadinha.


A palavra-chave aqui é "concisão". Um elenco enxuto, cenografia limpa – o que destaca o design do Telepod em forma de casulo – fotografia precisa, sem exageros de contrastes, a não ser na hora do confronto final, e um roteiro que, se não é perfeito, sabe contornar muito bem seus eventuais problemas com um truque simples: admitir que seus personagens, por mais sábios em termos científicos ou competentes em suas áreas, não sabem tudo, não dominam os aspectos de todas as ciências humanas, e são convincentes em suas eventuais crises de imaturidade e estupidez.


Sem moralismos, sem exageros e com um verdadeiro show de interpretação de Goldblum (que nunca mais teve atuação tão técnica, cheia de nuances de voz e posturais) A Mosca, uma metáfora inteligente à AIDS, é um raro caso de remake superior à obra original [The Fly (1958), direção de Kurt Newman, que se comprazia em discutir ética e pena de morte] deveria ser refeição obrigatória para diretores de remakes contemporâneos, como Zack Snyder, Tim Burton e até mesmo o cultuado Peter Jackson, cada um deles talentoso, mas com uma perigosa tendência para o excesso.

A Mosca original, outra época, outros dilemas.

Um comentário:

Leonardo Peixoto disse...

O verdadeiro problema dos remakes modernos não é recontar uma história antiga , e sim não saber reconta-la .