quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Intempol - Agora: Volume 2. Pré-venda em novembro!

Pois é meninos e meninas, acertem os ponteiros e fiquem de olho nos despertadores.

Depois do álbum Intempol - Agora (2021) retomar as aventuras dos agentes temporais mais brasileiros do multiverso e acabar indicado ao Troféu HQ Mix na categoria Melhor Álbum de Terror/Aventura/Fantasia, estamos de volta, pela Editora Caligari, com uma nova equipe e oito histórias de cair o queixo e quebrar o calendário.

A capa ficou ao encargo de uma dupla pra lá de especial: Ricardo Leite (Em Busca do Tintin Perdido) & Osmarco Valladão (The Long Yesterday).

O elenco de Intempol - Agora: Volume 2 é grande e conta com quadrinistas, roteiristas, romancistas e ilustradores como Mig Mendes (Menino Maluquinho), Renato Lima (PocketComics), Mariana Queiroz (Estella Vic: a Semana de 22 e o Manifesto Futurista), Ana Recalde (Beladona), Luma Rodrigues (Histórias de Feminicidios), Lúcio Manfredi (A Casa das Sete Mulheres – a Série), André Flauzino (Judoguinho), Alexandre Mandarino (O Caminho do Louco), Will Tom (Cidade Ausente), Hamilton Kabuna (Valkíria), Rubens Ângelo, Alexandre Soares e Luiz Felipe Vasques.

Dentre cronoterroristas, agentes novatos e crianças bagunçando o espaço-tempo, Intempol - Agora: Volume 2 traz oito histórias e alguns novos conceitos que vão virar sua ampulheta de cabeça pra baixo.

sábado, 4 de fevereiro de 2023

É mês 02 e já temos dois contos no prelo…

 De vez em quando coisas acontecem.

Por um acaso cósmico, fui convidado pelos organizadores da revista Histórias Extraordinárias a publicar um conto e, simultaneamente, a prolífica Lu Evans me instou a participar da antologia Vozes Intergaláticas.

Aceitei ambos os desafios e apresentei duas narrativas:

1) Vida de Vampiro não é Bem Como Você Pensa.

Eis uma história que quero escrever há tempos e funciona como uma metáfora sobre como romantizamos as pessoas que não conhecemos. Sim, é uma oportunidade para esculhambar um monte de bobagens que a cultura pop tem nos empurrado goela abaixo ultimamente como se fossem a última coca-cola do deserto do real. Acho que quem curte minhas histórias vai gostar do “tom” e quem não conhece o que faço, tem aí uma boa oprtunidade.

A campanha no Catarse para viabilizar a revista está aqui.






2) A Litania da Menina de Pedra.

Essa vai na contramão e conta como uma criança lida com as transformações que percebe em si e nos adultos ao redor. É uma história pensada durante 2020, no auge da COVID, e lida com os medos e as mudanças internas e externas às quais somos obrigados a passar. É triste? Talvez, mas era algo que precisava botar para fora antes da próxima pandemia. Que bom que a Lu curtiu e espero que vocês gostem também.

Ainda não saiu, mas aguardem que logo estará disponível para download (ou para compra do livro físico, caso queiram).

É isso.

O ano começa e as histórias nascem. Já fui convidado para outros dois projetos, ninguém me dá descanso nesta terra.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

O que virá por aí…

 Intempol - Agora concorreu ao Prêmio HQ Mix na categoria “Melhor Álbum de Aventura/Terror/Fantasia”.

Não levou, mas quem disse que isso nos impediria de começar os trabalhos em um segundo volume?

Pois já temos alguns nomes de peso concebendo novas páginas para o segundo volume, que deverá sair no ano que vem.

Curiosos?  Pois é, então… aqui vai uma pequena amostra do que está sendo preparado, no traço espetacular do ilustrador Alexandre Soares.

Pois é, pessoal… o Céu é o limite!



segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Inscrições abertas para o PPGMC – Programa de Pós-Graduação em Mídias Criativas

Talvez meus leitores não saiba que sou coordenador do Programa de Pós-Graduação em Mídias Criativas, da a Escola de Comunicação e situado no Campus Praia Vermelha da UFRJ.

No PPGMC temos três linhas distintas: Audiovisual, Entretenimento (ligada à concepção de games e correlatos) e Editorial (onde desenvolvemos de webcomics a worldbuilding e demais projetos na mesma linha).

As inscrições vão até o dia 19/10 e aqui estão o Edital e o Formulário de Inscrição.

Já realizamos diversos projetos bem-sucedidos em nosso portfolio (alguns deles aparecem em nossa peça de divulgação, aqui em anexo) e mal podemos esperar para conhecer suas propostas.

Sempre é bom acrescentar que o curso é gratuito – bastanto pagar a inscrição – para estudar com grandes profissionais de suas respectivas áreas.

Venham e sejam bem-vindos!





domingo, 16 de outubro de 2022

E estamos indicados ao Troféu HQ Mix 2023!









Intempol - Agora, álbum que reúne contos gráficos curtos de Marsal Branco, Lidiane Cordeiro, Manel Fogo, Carlos Hollanda, Bianca Bernardi, Edgar Franco, Letícia Pusti & Octavio Aragão, Manoel Magalhães & Osmarco Valladão, com capa de LEO, criador de séries como Aldebarán e Betelgeuse, e introdução de Marcos Ramone, está indicado na categoria Publicação de Aventura/Terror/Fantasia.

É uma honra e um privilégio.

***

No primeiro momento voltei ao passado. Me senti lendo a Heavy Metal no início dos anos 80. A mesma ousadia, experimentação e cor, muita cor.

Ricardo Labuto Gondim

***

Agora temos esta antologia gráfica de grande qualidade, em uma bela edição que lembra o melhor da revista Heavy Metal (quaisquer das histórias poderia figurar na revista americana, com louvor).

Fabio Gradel

***

Uma viagem por muitas perspectivas diferentes, ousadas e potentes, todas unidas pelo legado da história fundadora. Isso é o que o leitor procura num álbum de quadrinhos colaborativo.

Mig Mendes

terça-feira, 28 de junho de 2022

sábado, 15 de janeiro de 2022

Intempol - Agora (e, pelo visto, para sempre)

 Foi uma ideia meio doida.

Nasceu de um comentário que fiz sobre as semelhanças dos traços/estilos de Marsal Alves Branco e Edgar Franco com os artistas franceses Enki Bilal e Philippe Druillet (também citei Watson Portella e sua semelhança estilística com Moebius, mas isso é outra história). Comentei que, com talentos desse naipe, não haveria muita dificuldade em construirmos no Brail uma versão da saudosa Metal Hurlant francesa. Não demorou dois segundos e o Marsal me respondeu “aceitando o convite”, contanto que eu fosse o organizador de uma empreitada dessas. Edgar assinou embaixo e, com o aval desses dois talentos, pensei que, na pior das hipóteses, eu tinha acesso a um material que poderia servir de base para uma “revista em quadrinhos de antologia” como aquelas com as quais crescemos nos anos 70. A gente poderia fazer uma Heavy Metal nacional, mas temática, girando em torno da Intempol, que criei no já longínquo 1998.


Aquela empresa de segurança cronal estava mesmo, perdão pela piadinha, parada no tempo, precisava de sangue novo e algum tipo de atualização. Nestes tempos de remakes e reboots, nada mais natural que fazer uma nova antologia da Intempol, com nomes da velha guarda e novatos, como reza a tradição. Falei com Guilherme Tolomei, então meu editor na Caligari, e recebi carta branca para produzir um álbum formato A4 com 68 páginas e oito histórias. Como um “eco” da antologia de 2000, que contava com 10 autores e oito histórias, convidei Manoel Magalhães, Osmarco Valladão (a dupla que nos deu The Long Yesterday em 2006), Manel Fogo e Carlos Hollanda (meus parceiros em Para Tudo se Acabar na Quarta-Feira e Psicopompo). 

Completando o time, chamei Lidiane Cordeiro, Bianca “Tetisuka” Bernardi e Letícia Pusti, cada uma com estilos e histórias completamente diferentes. Tínhamos dois meses para fechar o álbum e saimos todos correndo, conversando, trocando ideias – quase literalmente, unindo os extremos do Brasil, pois Edgar é de Goiás e Letícia mora em Porto Alegre, com os outros se espraiando entre o Espírito Santo e o Rio de Janeiro – e expondo nossa produção uns aos outros enquanto escrevíamos e desenhávamos como loucos. No meio do caminho, Marsal perguntou se poderia publicar sua história na revista holandesa Zone 5200, e, obviamente, dei minha permissão. O resultado não poderia ter sido melhor, pois A Cabine, título do conto gráfico de Mr Marsal, ganhou a capa da edição e a Intempol, consequentemente, ganhou mais uma publicação internacional.

Em novembro, dentro do prazo, o álbum estava pronto, incluindo prefácio de Marcus Ramone, que se tornou um grande amigo nos últimos meses, um baita blurb elogioso de Mark Wheatley, ilustrador e quadrinista que admiro tremendamente, e a cereja do bolo: uma capa absurdamente linda do genial LEO.

Em resumo: a Intempol está de volta, com suas traquitanas, sua irreverência e eventual truculência, mas o sangue, ah, o sangue agora é outro. Os planos são longos e loucos, mas se tudo der certo, vamos adiante até o fim dos tempos.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Psicopompo: primeiro a gente publica, depois teoriza a respeito

Em plena pandemia mundial eu e o amigaço Carlos Hollanda, capitaneados pelo intrépido editor da Caligari, Guilherme Tolomei, arregaçamos as mangas e lançamos nossa HQ Psicopompo.



Entre anjos e demônios, delírios e destinos entrelaçados, o álbum está à venda na Amazon e na Travessa, dentre outros sítios.

Mas a gente não para. Não mesmo.

Agora, na quinta-feira, dia 24, apresentarei um painel nas Cyberjornadas Internacionais d Histórias em Quadrinhos da USP.
Sobre o quê? Sobre Psicopompo, lógico. Porque há ainda o que falar e porque considero esse trabalho de concepção digno de registro. 

Apareçam! vai ser muito, muito rico.







 

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Philip K. Dick - Mundo de Papel, por Lúcio Manfredi



Minha descoberta de Philip K. Dick tem uma história e uma pré-história.
Desde pequeno, a minha relação com o mundo sempre foi marcada por uma certa ambivalência. A realidade não me parecia ter realidade suficiente. Eu sentia que, a qualquer momento, o mundo poderia fugir sob os meus pés e eu mesmo me parecia tão irreal ou semi-real quanto esse mundo cuja evanescência me perturbava muito antes que eu soubesse o que quer dizer "evanescência".

Entre os três e os nove anos, essa sensação de falta de solidez nas coisas fazia com que todas as noites eu tivesse pesadelos horríveis, dos quais acordava gritando sem parar, e até os doze anos, eu era simplesmente incapaz de me lembrar do meu próprio rosto. Precisava olhar no espelho sempre que quisesse saber como eu era. Muitos anos mais tarde, vim a saber que os psicólogos denominam esse estado de espírito de ‘desrealização’ ou ‘despersonalização’, mas prefiro a designação muito mais poética de Julio Cortázar: "o sentimento de não estar de todo".

Não é de Cortázar, porém, que eu quero falar, mas de Philip K. Dick.

Eu tinha 12 anos quando chegou aos cinemas a versão original de Blade Runner. Nunca tinha ouvido falar de Ridley Scott e não fazia a menor idéia de quem era Philip K. Dick. Mas já era apaixonado por ficção científica, o que, para mim, nessa época, significava antes de mais nada Asimov e Clarke.

O spot do filme que passava na tevê me deixou galvanizado, especialmente aquela imagem clássica do aerocarro subindo nos céus de uma Los Angeles chuvosa e em trevas permanentes. Corri para o jornal para ver os horários e sessões, e meu entusiasmo foi recebido com a proverbial ducha de água fria.

Blade Runner era proibido para menores de dezoito anos (ou era dezesseis? A memória já vai ficando para trás, junto com os milhares de neurônios que a gente começa a perder diariamente após os trinta). Dois anos mais tarde, isso não teria sido um problema: eu já teria descoberto que sempre é possível driblar a censura e entrar num filme proibido, especialmente nos cinemas do centro. Mas ainda não sabia disso quando Blade Runner estreou e o filme adquiriu para mim uma espécie de aura mítica, um paraíso proibido, fora do alcance dos meus olhos mortais.

Pouco tempo depois, ao passar por uma banquinha de livros nas imediações de Perdizes (ou era em Pinheiros? a memória, etc.), dei de cara com o romance que tinha dado origem ao filme: O Caçador de Andróides, de Philip K. Dick, com aquela capa horrenda que a Francisco Alves costumava colocar em seus livros. A capa não importava. Era a história do filme, o filme ao qual eu não podia assistir. Comprei o livro e comecei a ler no metrô mesmo, a caminho de casa. Não, não foi uma revelação. Os céus não se abriram, os mortos não saíram de suas tumbas e eu não tive nenhuma epifania. Sim, era uma história fascinante, suficientemente próxima da ficção científica à qual estava acostumado para eu gostar do que estava lendo e, ao mesmo tempo, diferente o bastante do que eu conhecia para me animar a buscar outros livros do autor. Mas não foi um livro que mudou a minha vida.

A revelação e a epifania, no entanto, vieram com o livro seguinte de Dick que me caiu nas mãos: Os Três Estigmas de Palmer Eldritch, na edição de bolso das Publicações Europa-América. Já nem me lembro onde foi que o comprei. Minhas recordações desse livro têm início com o instante exato em que abri a primeira página e comecei a ler. Estava de novo no metrô, voltando de onde quer que eu o tenha adquirido. Reconheci imediatamente o estilo do autor, a maneira peculiarmente irônica com que Dick construía suas frases, a forma como ele invertia os lugares-comuns, como, por exemplo, ao mostrar pessoas que procuravam os psiquiatras, não para se curar, mas para ficarem doentes. Era divertido, era atraente, dava vontade de continuar lendo, mas não muito mais que isso. Até chegar ao terceiro capítulo, quando os colonos ingerem uma droga e entram no mundo de Perky Pat. Um arrepio de unheimlich me subiu pela espinha. Eu conhecia aquela sensação. Aumentei o ritmo da leitura. Barney Mayerson e depois Leo Bulero presos no mundo de Palmer Eldritch, aquele mundo alucinatório que você *sabe* que não é real e do qual, mesmo assim, não consegue escapar. A figura aterrorizante de Palmer Eldritch, tão semelhante aos fantasmas que povoavam meus próprios pesadelos de infância. Sim, eu conhecia aquele mundo. Era o meu mundo.

Daí para a frente, tratei de procurar e ler com voracidade tudo o que conseguia encontrar desse autor. Fui descobrindo coisas sobre ele, a experiência mística de 2-3-74, seus surtos esquizofrênicos e ataques de paranóia, a faculdade de filosofia interrompida (como eu mesmo faria alguns anos mais tarde), sua morte em 1982, no mesmo ano em que eu tentara em vão assistir Blade Runner... Foi graças a Philip K. Dick que eu tomei contato com o gnosticismo, uma forma de filosofia religiosa que, mais do que qualquer outra, resume a minha atitude perante o mundo. Dick também me levou a Jung, outra influência determinante no curso da minha vida. E, evidentemente, marcou a minha maneira de escrever. Certa vez, um amigo que conhecia todos os meus contos e estava lendo O Homem do Castelo Alto comentou que agora entendia porque eu gostava tanto dos livros de Philip K. Dick: existiam semelhanças notáveis (palavras dele) na maneira de nós dois vermos o mundo. Ainda considero o melhor elogio que já recebi como escritor...

Para muitos leitores, o primeiro encontro com seu autor favorito é um evento que muda o curso de suas vidas. Para mim, depois de descobrir Philip K. Dick, a realidade continuou sendo exatamente como era antes - incerta, evanescente e nada confiável. Mas, agora, eu sabia que não estava sozinho.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Sobre cores, critérios e consequências

Cidade: Vitória.
Ano: 2007.

Eu era professor de Projeto de Design na UFES desde o ano anterior e achei que seria uma boa ideia dar aos alunos uma visão mais próxima da realidade de um mercado de trabalho. Como era novo na cidade, aproveitava meus passeios pelo Centro para anotar nomes e contatos de empresas cujas fachadas apresentassem identidades visuais que eu considerasse dignas de um redesign.

Uma vez em sala, separava a turma em grupos e mandava cada equipe contactar os possíveis clientes,oferecendo uma assessoria de identidade visual, com redesign de branding. Seria um projeto acadêmico, logo, sem ônus real para o cliente, a não ser que, de acordo com um contrato que estipulava os serviços prestados, o cliente desejasse aplicar o projeto em seu estabelecimento.aí, a coisa mudaria de figura e se tornaria algo mais sério, de acordo com as minutas de contrato exemplificadas no manual da ADG.

Deu para entender? O cliente só coçaria o bolso caso decidisse implementar o projeto, no mais, seria algo puramente acadêmico. Porém, havia uma cláusula pétrea: os créditos de produção e criação seriam -- sempre -- devidos aos alunos de cada equipe, mesmo em caso de não implementação. Durante dois anos fiz o mesmo tipo de projeto, com resultados sempre satisfatórios, tanto para mim, enquanto professor, quanto para a turma e, na vasta maioria dos casos, para os clientes, mas nunca, nenhum, jamais foi levado adiante. Ao menos não diretamente.

Vou contar um caso específico: um dia, próximo à rodoviária, dei com uma loja de artigos de pesca, cuja identidade visual era a que se vê abaixo.


Os motivos pelos quais escolhi esse logotipo como candidato para redesign foram 1) o símbolo super detalhado, que poderia causar problemas quando reduzido e aplicado em produtos diversos e 2) a fonte desnecessariamente distorcida. Uma vez em sala de aula, um grupo escolheu cuidar desse projeto. Lá foram os meninos e meninas atrás do "cliente" e, tudo acertado, o contrato assinado, começamos o projeto. Depois de um período, o resultado foi o que se pode inferir a partir dessa prancha de construção do logotipo (que foi a que me restou depois de tanto tempo).


Como podemos perceber, as mudanças foram amplas, tanto em rediagramação, quanto em simplificação. A ideia era fazer com que o símbolo fosse tanto um peixe, quanto uma representação do sol, sobre a linha do oceano, representado pelo nome em si, em uma única linha horizontal. 

Preparamos a apresentação para o cliente e lá foram eles e elas, outra vez, para a visita definitiva. O resultado? Um sonoro "não, obrigado". E os motivos foram, basicamente, a mudança cromática. O cliente não acreditava que seus clientes não gostassem da cor escolhida para o símbolo. Obviamente, a equipe não deu o braço a torcer, apresentando os motivos da escolha e argumentando que, caso fosse absolutamente necessário, poderiam estudar outra palheta cromática. A resposta foi outro "não", dessa vez, definitivo. O redesign da marca não seria aplicado, obrigado por sua proposta, foi um prazer conhecê-los, adeus.

Levei esse caso para a vida e, ainda agora, o utilizo como bom exemplo de construção de  identidade visual em minha aulas na UFRJ, como aconteceu, por exemplo, hoje. Mas, dessa vez, houve uma diferença. Meus alunos atuais pediram para que eu pesquisasse a marca, para que vissem as diferenças entre as duas versões com mais clareza e, qual não foi minha surpresa ao dar com a imagem abaixo, na página da empresa.
Sim, isso mesmo. Esse é o logo atual. Houve um redesign, afinal de contas, e a cor -- que tanto incomodava -- ficou de fora, assim como a participação dos designers que criaram a rediagramação (e a proposta como um todo).  Nem vou comentar o acréscimo do fio de contorno ou a letra "C" alterada sem motivo aparente, mas focar no fato que, talvez, o problema do design no Brasil seja uma questão cultural. Parece óbvio que se reconhece o valor de um redesign, mas não os designers propriamente ditos. Por que se recusar a ceder até mesmo o crédito a quem é devido? Por que refazer a identidade visual seguindo critérios preestabelecidos sem chamar -- até por uma questão de agradecimento -- os responsáveis pelo primeiro redesign? 

Essas são questões que precisamos resolver e identificar urgentemente, caso queiramos sedimentar a credibilidade de nossos profissionais de criação.



quarta-feira, 14 de novembro de 2018

100 livros basilares

Em uma rede social, meu parceiro e ex-aluno Manel Fogo sugeriu que eu compusesse uma lista de livros que considero indispensáveis. Aqui está ela. uma mistura de escolhas emocionais e indicações que considero úteis para ilustrar quem sou em termos de gostos e admirações.

Não entraram livros teóricos ou filosofia, isso fica para uma próxima lista. Aqui estamos falando de ficções.


1 - Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley
2 - Drácula, Bram Stoker
3 - V, Thomas Pynchon
4 - O Tempo e o Vento, Érico Veríssimo
5 - Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis
6 - O Caso dos Dez Negrinhos, Agatha Christie
7 - O Homem Ilustrado, Ray Bradbury
8 - Moby Dick, Herman Melville
9 - Capitães da Areia, Jorge Amado
10 - Um Estudo em Vermelho, Arthur Conan Doyle
11 - A Chave do Tamanho, Monteiro Lobato
12 - Jubiabá, Jorge Amado
13 - O Aleph, Jorge Luis Borges
14 - A Ilha do Doutor Moreau, H. G. Wells
15 - Dom Quixote, Miguel de Cervantes
16 - A Odisseia, Homero
17 - Quincas Borba, Machado de Assis
18 - Os Sertões, Euclides da Cunha
19 - O Falcão Maltês, Dashiell Hammett
20 - A Ilíada, Homero
21 - Crime e Castigo, Dostoiévski
22 - Demian, Herman Hesse
23 - Hyperion, Dan Simmons
24 - Madame Bovary, Flaubert
25 - A Guerra dos Mundos, H. G. Wells
26 - Vinte Mil Léguas Submarinas, Julio Verne
27 - O Conde de Monte Cristo, Alexandre Dumas
28 - A Eneida, Virgílio
29 - Duna, Frank Herbert
30 - O Fim da Infância, Arthur C. Clarke
31 - Fundação, Isaac Asimov
32 - O Pêndulo de Foucault, Umberto Eco
33 - Frankenstein, Mary Shelley
34 - Histórias Extraordinárias, Edgar Allan Poe
35 - O Médico e o Monstro, Robert Louis Stevenson
36 - Seis Personagens à Procura de Um Autor, Pirandello
37 - O Leopardo, Lampedusa
38 - O Nome da Rosa, Umberto Eco
39 - As Crônicas Marcianas, Ray Bradbury
40 - Os Três Estigmas de Pálmer Eldritch, Philip K. Dick
41 - Viagem ao Centro da Terra, Julio Verne
42 - Zona Morta, Stephen King
43 - Obras Completas de Shakespeare
44 - Os Três Mosqueteiros, Alexandre Dumas
45 - O Homem do Castelo Alto, Philip K. Dick
46 - Quase Memória, Carlos Heitor Cony
47 - A Máquina Diferencial, Sterling & Gibson
48 - Os Meninos da Rua Paulo, Férenc Molnar
49 - A Outra Volta do Parafuso, Henry James
50 - O País de Outubro, Ray Bradbury
51 - Dom Casmurro, Machado de Assis
52 - O Decameron, Giovanni Bocaccio
53 - O Assassinato de Roger Ackroyd, Agatha Christie
54 - 2001, Uma Odisseia no Espaço, Arthur C. Clarke
55 - Fahrenheit 451, Ray Bradbury
56 - Cem Anos de Solidão, Garcia Marquez
57 - A Metamorfose, Kafka
58 - Nas Montanhas da Loucura, H. P. Lovecraft
59 - O Incrível Homem Que Encolheu, Richard Matheson
60 - Noites na Taverna, Álvares de Azevedo
61 - O Coração das Trevas, Joseph Conrad
62 -O Processo, Kafka
63 -Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa
64 - O Poderoso Chefão, Mário Puzo
65 - O Relato de Arthur Gordon Pym, Edgar Allan Poe
66 - O Alimento dos Deuses, H. G. Wells
67 - 1984, George Orwell
68 - O Retrato de Dorian Grey, Oscar Wilde
69 - A Ilha do Dia Anterior, Umberto Eco
70 - O Livro de Areia, Jorge Luís Borges
71 - A Reforma da Natureza, Monteiro Lobato
72 - Ivanhoé, Walter Scott
73 - A Laranja Mecânica, Anthony Burgess
74 - Os Irmãos Karamazov, Dostoiévski
75 - O Signo dos Quatro, Arthur Conan Doyle
76 - A Invenção de Morel, Bioy Casares
77 - A Morte de Arthur, Thomas Malory
78 - O Iluminado, Stephen King
79 - Os Trabalhadores do Mar, Victor Hugo
80 - Eu Sou a Lenda, Richard Matheson
81 - Os Machões Não Dançam, Norman Mailer
82 - Pearls From Peoria, Philip José Farmer
83 - The Years of Rice and Salt, Kim Stanley Robinson
84 - As Aventuras do Sr Pickwick, Dickens
85 - Todos os Nomes, José Saramago
86 - Terrarium, Barreiros & Silva
87 - O Vale do Medo, Conan Doyle
88 - Ubik, Philip K. Dick
89 - Tarzan of The Apes, Edgar Rice Burroughs
89 - Valis, Philip K. Dick
90 - Pebble in The Sky, Ursula K. leGuin
91 - Orlando, Virgínia Woolf
93 - O Sol Por Testemunha, Patricia Highsmith
94 - A Divina Comédia, Dante
95 - A Máquina do Tempo, H. G. Wells
96 - O Pica-pau Amarelo, Monteiro Lobato
97 - Lord Jim, Joseph Conrad
98 - Assassinato no Expresso do Oriente, Agatha Christie
99 - A História do Cerco de Lisboa, José Saramago
100 - David Copperfield, Dickens

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Minha vida em filas (ou "por que as pessoas não podem ficar em silêncio?")

Eu (daqui por diante, denominado apenas como "O") – A senhora está na fila?
Senhora com cara de ameixa (daqui por diante, denominada como "SCA") – [Olhada de cima em baixo] Estou.
O – Obrigado.
Senhora com Guri Levado do Diabo (daqui por diante, identificada como "SGLD") – Para, Joãozinho. Vai cair daí, menino. Sossega. Já viu isso, senhor? Não para!
O – Tudo bem. Quando chegar a adolescência vai sumir de vista. Mal vejo o meu de 15.
SCA – Neto?
O – Não, filho.
SCA – Neto, né?
O – Não. Filho.
SCA – Filho?
O – [Sorriso reto, tipo faca de churrasco] Fi. Lho.
SGLD – Como assim, o senhor não vê seu filho? Para, Joãozinho. Olha que vou chamar seu pai.
O – Ah, ele se tranca no quarto. Às vezes mal sei quando ele está em casa.
SGLD – Mas que absurdo. Meu marido não deixava as filhas fazerem isso.
O – Ah, é mesmo? [Sorriso ganhando contornos de foice da bandeira da Rússia]
SGLD – Elas começaram com essa conversa de televisão no quarto e ele logo falou "vamos acabar com isso! Quero todo mundo comigo, na sala, vendo o Jornal Nacional". Pronto, acabou a palhaçada.
O – Claro, elas deixaram de fazer o que queriam e passaram a ouvir a litania de São Roberto Marinho. Tem certeza que essa foi uma tática interessante para reunir a família?
SGLD – [Olhos arregalados, gagueira] E-era o que tinha na época, eram os anos 70. P-para com isso, Joãozinho, menino danado.
O – Eu sei. Estive lá. Mas ninguém me obrigava a assistir nada, não senhora. Ainda acho que os guris hoje têm opções melhores com todos esses blogs e sites e o Youtube.
SGLD – Ãh… bom, por esse lado, talvez… mas não está certo deixar os filhos sozinhos.
O – Concordo, tem tanta coisa que não está certa, né? Mas cada um vive a vida como pode ou quer [abre o livro, volta a cabeça para as páginas. SGLD sai correndo atrás do moleque. Desaparece no horizonte de eventos]
SCA – O senhor está lendo o quê?
O – [Levanta a cabeça leeeentameeeente. Sorriso como a lua em solstício de inverno. Bota marcador entre as páginas. Fecha o livro. Entrega o volume de mais de 700 páginas nas mãos enrugadas de SCA, que não sabe o que fazer com o livro pesado]
SCA – [Observa a capa, onde se lê em letras garrafais amarelas sobre fundo verde "A Verdadeira História da FICÇÃO CIENTÍFICA] Sobre o que é?
O – [Sorriso afiado como a guilhotina que decapitou Robespierre] Está na capa, senhora.
SCA – Ah… Ficção científica [devolve o livro como se corresse o risco de alguma contaminação].
O – Obrigado [abre o livro, volta a cabeça para as páginas]
SCA – O senhor ja leu todo?
O – [Levanta a cabeça leeeentaaaaaaaaameeeeeeenteeeeeeee. Sorriso como uma segadeira automática em dia de colheita em pleno verão. Bota marcador entre as páginas. Fecha o livro] Senhora, como pode observar, o marcador está no meio do livro. No. Meio.
SCA – Ah. É mesmo. Desculpe.
O – Sem problemas [Abre o livro, volta a cabeça para as páginas].
SCA – Meus parabéns, viu? Com um avô inteligente assim, aposto que o NETO adora ler.

[Toca o sinal do colégio. Todas as velhinhas correm como lebres para entrar ao mesmo tempo pela porta por onde apenas uma, com sorte, passará com vida. Fecha o livro. Esquece de marcar a página]

sábado, 18 de agosto de 2018

Sobre navios em órbitas gravitacionais e outras questões graves

Corrosão é um romance corajoso. Daqueles que não têm medo de mesclar astro e metafísica como poucas vezes vi na FC feita no Brasil (e sei do que estou falando). As descrições das atividades à bordo para a “caça à baleia” têm a acuidade de Melville acrescidas à poética de um Bradbury em contos como Os Frutos Dourados do Sol. E isso porque não falei da personalidade da IA, tão bem construída quanto qualquer personagem de carne e osso (ou tinta e papel. Ou fótons e bytes). Não há necessidade de destrinchar os meandros da história. Melhor deixar o leitor com a seguinte imagem impressa (ênfase em “impressa”) no cérebro: há um navio fantasma em órbita. Suas caldeiras inativas guardam um mistério que espera pela maturidade das inteligências da Terra, sejam à base carbono ou silício, e apenas quando alcançarem o equilíbrio terão a chave da charada. Pela mescla de maturidade e temática, técnica e maestria, Ricardo Labuto Gondim é o grande nome da FCB desta década. E, já que tempo e espaço são o mesmo, também das que foram e virão.


Agora cabe uma pequena explicação, pois não costumo fazer resenhas de livros. Por que não faço? Simples: sou um cara que escreve umas histórias aí, de FC, horror, aventura e até policiais, mas com certeza não sou -- e nem pretendo -- ser um crítico.  Pois, vejam, um dos grandes problemas da Ficção Científica Brasileira é a indigência crítica. Isso é um sintoma histórico. Já tivemos autores que posavam de críticos, lançando mão de pseudônimos para agredir colegas e se auto-elogiarem. Também houve aqueles que, movidos por sentimentos questionáveis, organizaram linchamentos virtuais de obras. E também tivemos falsos ideólogos, manipuladores de discursos, que em outra situação seriam dignos de aplausos, para enxovalhar desafetos. Tudo isso regado, na melhor das hipóteses, por falta de embasamento, e na pior, por ausência de caráter.

Toda crítica é parte integrante da obra à qual se refere, acrescenta camadas interpretativas, colabora para sua sobrevivência, mas exige uma maturidade, uma isenção, um critério, uma base que a maioria dos críticos contemporâneos não possui. A avalanche de blogs, vlogs, triques e traques que proliferam hoje acaba se tornando mero truque para pedido de livros gratuitos. A FCB, principalmente, teria muito a ganhar com uma "Barbara Heliodora para chamar de sua", alguém com conhecimento de causa e respeitabilidade. Infelizmente, acho improvável que surja alguma nos próximos anos, já que a totalidade de nossos críticos almeja se tornar escritor e escritora. 

Porém, perdoem-me pela digressão. O que importa é que Corrosão é um excelente romance e Ricardo Labuto Gondim é um dos grandes. Todos a bordo.



sábado, 23 de dezembro de 2017

2017: um ano "duro"


Uma de minhas superstições mais idiotas diz respeito a anos ímpares. É idiota, porque meu pai morreu em 1980 e meus filhos nasceram em 2003 e 2009, respectivamente, logo, não faz o menor sentido. Mas é uma superstição, diabos, não se baseia em lógica, mas em um tipo meio primitivo de intuição. E, caramba, se houve um ano "duro" foi este, em vários sentidos. Mas vamos ao que interessa: a tradicional retrospectiva dos últimos doze meses.



Desde 2013, venho me dedicado a uma função que, mais uma vez, amplia o número de atividades que descobri ser capaz de fazer com algum desembaraço, ou seja, tradução de histórias em quadrinhos. Se até o ano passado a única que tinha visto a luz do dia tinha sido a primeira parte de Promethea, de Alan Moore e J. H. William III, em 2017 elas saíram da casca como uma ninhada de passarinhos de bico aberto e invadiram as livrarias: Apenas um Peregrino, de Garth Ennis e Carlos Esquerra; Elric, de Moorcock, Blondel, Cano, Poli, Reicht, Telo e Bastiche; Tom Strong, também de Alan Moore e Chris Sprouse, e o segundo volume de Promethea, tudo isso disputando a atenção do público consumidor de quadrinhos nas prateleiras. E mais, muito mais virá. Agradecimentos efusivos a Fabiano Denardin e Julio Monteiro de Oliveira pelas infinitas oportunidades que me deram.

Mas não foi só isso, né? Houve a segunda edição da SIQ – Semana Internacional de Quadrinhos da UFRJ, que organizo ao lado de Amaury Fernandes e que reuniu um grupo invejável de produtores de arte sequencial em maio e setembro, com as presenças de ícones mundiais, como Chantal Montelier e Trina Robbins. Foi insano, mas muito me orgulho desse evento, que se encaminha para sua terceira edição em 2018 (sim, estamos trabalhando nisso).

A equipe da SIQ ladeando Trina Robbins.

O que mais? O que mais? Ah, sim, claro… finalmente coloquei o ponto final em meu terceiro romance, A Mão Que Pune – 1890, uma história steampunk que funciona como uma prequel ao livro de 2006, A Mão Que Cria. Não, sem previsão de publicação ainda, senhoras e senhores, mas vamos tratar disso no ano que vem. No mais, um monte de contos, artigos e publicações acadêmicas diversas, orientações no mestrado do PPGTLCOM, gravações de videologs sobre quadrinhos com o amigo PH e a continuidade de projetos que ainda estão em andamento, como a HQ Psicopompo, com Carlos Hollanda e Osmarco Valladão.


Sim, foi um ano duro pacas em diversos níveis, mas plantei sementes que, com certeza, germinarão a partir de janeiro. Esperem e verão (ou inverno, outono, primavera…).

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Quanto mais eu rezo, mais plágios descarados aparecem

2013: uma cooperativa de quadrinistas brasileiros se reune e cria a QUAD, veiculando material de alta qualidade gráfica e cujo logotipo é apresentado abaixo.




OK, há alguns problemas de legibilidade, principalmente no "A", mas é indubitavelmente um logo original.

2015: uma rede de cinemas novaiorquina, curiosamente chamada "QuadCinemas", lança a "nova" identidade visual…



Pois é, né? Igual, igual, IGUAL.

Saída óbvia? Meter um processo na cara dos meliantes, certo? Não, errado. Parece, pelo que soube, que o criador do logo original considera uma "coincidência" e, pior, em caso contrário, para o designer brasileiro é um elogio ser copiado de maneira desavergonhada por uma empresa americana que, com certeza, deve estar faturando os tubos em cima da criação dele.

Minha opinião? Na melhor das hipóteses, uma ingenuidade. Na pior, uma vergonha. E por que levo isso tão a ferro e fogo? Porque não se trata de um caso particular, mas nacional. O designer que se permite roubar dessa maneira abre precedentes inaceitáveis para toda uma classe.

Como não sou o pai da criança, apenas me resta – como designer e quadrinista – denunciar esse absurdo e divulgar o mais que puder. Porque não há elogio na cópia, há desrespeito, há descaso, há ofensa. E nessas horas a lógica capitalista é muito útil. Exija seu respeito em verdinhas. Bata onde dói mais: no bolso.

Mas, bom, dos males o menor. Ao menos os plagiários fizeram o favor de corrigir o "A".

sábado, 4 de novembro de 2017

Memória, metrô e monstros malucos



– Nossa, seu cabelo ficou ótimo!
– Ah, obrigada.
– Está, lindo! Parece o cabelo da Francesca.
– Quem é Francesca?
– Francesca, aquela do desenho animado…
– Que desenho animado?
– Aquele… ela é uma boneca…
– Boneca? Tipo um travesti? Num desenho animado?
– Não, desculpa, é um desenho antigo… aliás, nem lembro direito se é um desenho… a Francesca é toda sexy, tem um cabelo igual ao seu, mas ela não é humana…
– A Francesca do desenho é uma boneca e não é humana. E o meu cabelo é igual ao dela.
– Peraí, não é isso… a Francesca é linda e ela quer namorar um rapaz, mas os monstros dão em cima dela. Meu Deus, não lembro o nome do desenho…
– Meu cabelo parece o de uma boneca que quer namorar monstros?
– Você não está entendendo, não é isso… é um elogio… seu cabelo está lindo…
– Olha, minha estação é aqui. Tchau, tá? Passe bem.
– Err… mas, olha, é um elogio! Está linda, viu?

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Novidades de Melniboné

Ao final deste mês de outubro, chegará às bancas o primeiro volume de Elric, O Trono de Rubi, álbum em quadrinhos baseado na obra de Michael Moorcock. Com roteiro de Julien Blondel e arte de um time de responsa encabeçado por Didier Poli, essa é considerada a melhor versão em quadrinhos pelo próprio criador do personagem. A edição brasileira é da Mythos e a tradução ficou ao encargo deste que vos tecla.
Eis aqui, em primeira mão, o booktrailer da HQ, que já mostra toda a riqueza do material.




quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Sobre arte, moral, ética e instituições privadas

Arte de Don Heck
Falando em censura/auto censura/bloqueio/etc, por conta da exposição de arte erótica suspensa pelo banco Santander, vamos recordar o que aconteceu com as HQs americanas nos anos 50? Pois então, um psiquiatra renomado decidiu achar um bode expiatório para a delinquência juvenil e resolveu culpar as HQ de horror. Montes de HQs foram queimadas, editoras faliram e os outros editores resolveram se auto censurar, criando um "código de conduta" moralizador para suas publicações.

Isso causou um retrocesso danado na indústria das HQ, do qual ela ainda não se recuperou por completo até hoje (sim, apenas agora as majors voltaram a lucrar muito, graças ao cinema, e algumas publicações voltaram ao mercado, como podemos ver nas imagens postadas por Kelley Jones e replicadas aqui nesta postagem). Se toda essa palhaçada moralista do Dr. Wertham tivesse sido tratada com as gargalhadas que merecia, se ninguém tivesse se auto censurado, se as editoras tivessem tido um mínimo de culhão e fincassem o pé, peitando os totalitários de plantão (que incluíam políticos) as coisas poderiam ter sido melhores para todos os envolvidos. Mas eram editoras, empresas que se borraram nas calças de medo de perder leitores, ou pior, cair nas malhas do macarthismo.

Reedições de clássicos da EC
Ou seja, da maneira que vejo as coisas, todo mundo pode dizer o que bem entender. A arte pode ofender, os ofendidos podem reclamar, o empresário pode se borrar todo e quem reclama de quem reclama também pode achar tudo um absurdo e proclamar sua raiva contra a suspensão da publicação/exposição. 

Agora, o que eu acho? Acho que empresas têm a terrível tendência moralista de se acovardar diante dessas ameaças financeiras. Aí, me vem à cabeça a coragem do Charlie Hebdô em se manter aberto e funcionando mesmo depois de ter sofrido um ataque terrorista e seus membros assassinados dentro da redação. Pagaram um preço alto por suas posturas (que muita gente, incluindo eu mesmo, acho questionáveis, mas nem por isso acho aceitável que alguém seja morto por causa disso).

O Dr Wertham estava correto? Não. Ele podia começar uma caça às bruxas? Ele achava que sim e tinha todo um estudo embasando suas teorias. As editoras poderiam sentir medo? Claro, como empresas tinham todo o direito de temer por seu prejuízo. Deveriam ter feito o que fizeram? Não (e a História prova que não mesmo).

Não parece familiar, respeitando as devidas proporções?

O medo é o assassino da mente, amigos. E aí reside o problema.

domingo, 30 de julho de 2017

Quais são os cinco erros mais comuns que os escritores do mainstream cometem ao escrever ficção científica?

O escritor Luiz Brás me perguntou quais os enganos que eu mais percebo quando escritores experientes em outras áreas se aventuram a escrever ficção científica. Volta e meia isso acontece, seja por um modismo ou apenas para aproveitar uma oportunidade editorial, e os escritores pouco acostumados com os truques do gênero costumam escorregar em algumas curvas fechadas.
A cinco seriam…
1. Reinventar a roda por falta de pesquisa
Acontece quando o autor não leu o suficiente dentro do subgênero ou não se aprofundou nos elementos tecnológicos e científicos, e decide que sua intuição a respeito de como se realizaria a viagem no tempo, a antigravidade, a viagem espacial ou a invisibilidade é genial e originalíssima. O resultado geralmente é um déjà-vu.
2. Usar o cinema como referência principal
Como os romances mais recentes demoram para chegar ao Brasil, o principal contato com a FC vem por intermédio do cinema, que, no que diz respeito a temas e tecnologias, já está umas boas duas décadas defasado em relação à literatura. Mais uma vez, as referências visuais e terminológicas advindas dessa mídia audiovisual acabam por tornar a narrativa superficial e falsamente autoexplicativa, como a tendência em se considerar termos como “torpedos fotônicos” (“Star Trek”) ou “replicante” (“Blade Runner”, o filme) como senso comum dentro do léxico literário. Às vezes isso implica em erros grosseiros, como podemos ver em autores que confundem os termos “androide” e “robô”, ou que acreditam que “parsec” poderia ser aplicado como unidade de velocidade e não de distância.
3. Enrolar na explicação técnica com technobabble ou esoterismo
Não é porque você não sabe como um processo científico se realiza que seu personagem cientista também não precisa saber. Ele precisa, mas às vezes parece mais fácil apelar para saídas “mágicas” disfarçadas por um linguajar pseudocientífico (a famosa technobabble). Como resultado, temos um híbrido, algo parecido com a tentativa de mesclar esoterismo à FC, coisa muito comum principalmente nas telenovelas que se arriscam por essas veredas, que descaracteriza o principal fator de construção da obra de FC: a lógica interna.
4. Apelar para metáforas para fugir das descrições científicas
Uma consequência provável do item 3. Ocorre quando, sem saber como explicar uma maravilha científica ou suas consequências e sem querer apelar para o esoterismo, o autor lança mão de metáforas que não apenas não explicam nada, como confundem o leitor. A FC pode ser metafórica – até diria que deve ser – em seu teor mais amplo, nos temas, por exemplo, mas não nas definições de causas e consequências.
5. “As you know, Bob”
Erro comum até em quem professa a FC de maneira regular. Artifício que aproveita um diálogo aparentemente despretensioso para situar o leitor dentro de um cenário fora do normal. Foi popularizado pela frase em inglês “As you know, Bob”, e pode ser identificado em quaisquer descrições que comecem, incluam ou finalizem com sentenças semelhantes, como, por exemplo: “Todo mundo sabe disso! As viagens espaciais ficaram comuns depois de 2135, lembra?”, “Já cansei de avisar que a estação lunar está desabitada há décadas” ou “Esqueceu que a humanidade foi reduzida a um terço depois de 2035?”. É sempre melhor mostrar do que contar.

domingo, 16 de julho de 2017

A mosca na sopa das reinterpretações cinematográficas

Rever A Mosca (1986), de David Cronenberg, produzido curiosamente pelo mestre da comédia Mel Brooks, esclarece o que de errado acontece com os remakes contemporâneos. É paradoxal que em tempos de "storytelling enquanto ferramenta de marketing" tenha-se, aparentemente, esquecido como contar uma história.


"Tenha medo. Tenha muito medo"
A primeira imagem é um close de Jeff Goldbum, falando diretamente ao público quem ele é e o que faz ("sou um cientista e meu trabalho vai mudar o mundo"). Claro que é um diálogo, pois, em seguida, o contraplano revela Geena Davis como sua ouvinte, que, de cara, dá a ideia geral sobre o personagem e a situação, ou seja, "esse esquisito está me cantando".

A partir daí, acompanhamos o casal, o romance e a experiência do êxtase ao fracasso, da esperança à desgraça, com uma economia narrativa que deixaria Christopher Nolan com espasmos catatônicos ao ver contrariada sua ânsia professoral/explicadinha.

A palavra-chave aqui é "concisão". Um elenco enxuto, cenografia limpa – o que destaca o design do Telepod em forma de casulo – fotografia precisa, sem exageros de contrastes, a não ser na hora do confronto final, e um roteiro que, se não é perfeito, sabe contornar muito bem seus eventuais problemas com um truque simples: admitir que seus personagens, por mais sábios em termos científicos ou competentes em suas áreas, não sabem tudo, não dominam os aspectos de todas as ciências humanas, e são convincentes em suas eventuais crises de imaturidade e estupidez.

Sem moralismos, sem exageros e com um verdadeiro show de interpretação de Goldblum (que nunca mais teve atuação tão técnica, cheia de nuances de voz e posturais) A Mosca, uma metáfora inteligente à AIDS, é um raro caso de remake superior à obra original [The Fly (1958), direção de Kurt Newman, que se comprazia em discutir ética e pena de morte] e deveria ser refeição obrigatória para diretores de remakes contemporâneos, como Zack Snyder, Tim Burton e até mesmo o cultuado Peter Jackson, cada um deles talentoso, mas com uma perigosa tendência para o excesso.


A Mosca original, outra época, outros dilemas.